{"id":10781,"date":"2007-10-23T00:00:00","date_gmt":"2007-10-23T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:55:49","modified_gmt":"2017-09-15T19:55:49","slug":"entre-amigos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/entre-amigos\/","title":{"rendered":"Entre amigos"},"content":{"rendered":"<p>Eram amigos desde a inf\u00e2ncia. <\/p>\n<p>Mas, coerente aos seus princ\u00edpios e fins, Al\u00ea n\u00e3o foi ao casamento de Estrop\u00edcio que, apesar do apelido, n\u00e3o era t\u00e3o mal assim. Tanto que Niquinha, a garota mais bonita do bairro &#8212; e tamb\u00e9m a mais falada &#8212; o escolheu como seu leg\u00edtimo esposo.<\/p>\n<p>Assim que voltou da lua-de-mel, Estrop\u00edcio, ainda na bronca, foi tirar satisfa\u00e7\u00e3o com o amigo.<\/p>\n<p>&#8212; Al\u00ea, o que foi que lhe deu cara, convidei para ser meu padrinho, desconversou. Beleza! Cada um, cada um. Agora desaparecer no dia do cas\u00f3rio foi mal, cara. Qual \u00e9, irm\u00e3o?<\/p>\n<p>&#8212; Estrop\u00edcio, sou teu amigo. E continuo sendo. S\u00f3 n\u00e3o topei ser c\u00famplice da sua desgra\u00e7a&#8230;<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>Tales era amigo de Agostinho que amava Paulinha que amava Tales que era amigo de Agostinho, mas n\u00e3o sabia da hist\u00f3ria e se engra\u00e7ou com Paulinha e fizeram segredo do romance at\u00e9 que resolveram casar&#8230;<\/p>\n<p>Detalhe: os tr\u00eas trabalhavam na mesma empresa.<\/p>\n<p>Quando Agostinho soube, perdeu o ch\u00e3o e o resto de cabelos que ainda resistia \u00e0 inexor\u00e1vel a\u00e7\u00e3o do tempo.<\/p>\n<p>Pobre Agostinho!<\/p>\n<p>O rosto de Paulinha, angelical. Olhar atrevido. O riso de Paulinha, cativante. Paulinha e o amigo Tales de m\u00e3os dadas, que cena. Jamais esqueceria. N\u00e3o poderia viver assim.<\/p>\n<p>Mudou de trabalho, de bairro, de cidade, de Estado.<\/p>\n<p>Os anos se passaram. <\/p>\n<p>Agostinho n\u00e3o esqueceu Paulinha. Mas, tamb\u00e9m j\u00e1 se habituara \u00e0quela desilus\u00e3o. <\/p>\n<p>No autom\u00e1tico, vivia e deixava viver.<\/p>\n<p>At\u00e9 que um dia, algu\u00e9m bateu \u00e0 sua porta e Senhor Agostinho, como era conhecido naqueles cafund\u00f3s, atendeu como sempre fazia: aos berros. Meio que injuriado, como se algu\u00e9m, de repente, fosse acabar com o seu sossego.<\/p>\n<p>&#8212; Se vier em nome de Deus, que seja bem-vindo. Mas, venha numa perna e v\u00e1 na outra.<\/p>\n<p>Era uma mo\u00e7a linda. Rosto angelical. Olhar atrevido. Riso cativante. <\/p>\n<p>Paulinha? <\/p>\n<p>O tempo tamb\u00e9m se fizera ref\u00e9m da beleza da mo\u00e7a? <\/p>\n<p>Como assim?<\/p>\n<p>Agostinho baqueou&#8230;<\/p>\n<p>Como ela me descobriu aqui &#8211; pensou. <\/p>\n<p>Sonhou alto ao perceber que Tales n\u00e3o dera sinal de vida.<\/p>\n<p>Ser\u00e1?<\/p>\n<p>&#8212; Tio Agostinho? Andr\u00e9a, muito prazer. Vim convid\u00e1-lo para as bodas de prata dos meus pais, Paula e Tales, seus amigos, lembra deles?<\/p>\n<p>Uma agulhada crispou o cora\u00e7\u00e3o do homem. Nem tudo estava perdido. Convenceu-se, ali mesmo, que seria uma bela vingan\u00e7a. Conquistaria Andr\u00e9a e&#8230;<\/p>\n<p>Ela tinha algo mais a lhe dizer.<\/p>\n<p>&#8212; Ah, e tamb\u00e9m fa\u00e7o muito gosto que o senhor participe da cerim\u00f4nia do meu casamento. Vamos fazer um festa s\u00f3&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o houve resposta. <\/p>\n<p>Ouviu-se apenas o baque de um corpo que tombou.<\/p>\n<p>Dia seguinte, no vel\u00f3rio, o falat\u00f3rio era geral. Um homem sempre tranq\u00fcilo, qual a causa do infarto que matou Agostinho naquele exato instante? Uns falavam da emo\u00e7\u00e3o de ser lembrado tantos anos depois. Mas, havia uma senhora que joga b\u00fazios, com ares de quem sabe das coisas, que dizia exatamente o contr\u00e1rio.<\/p>\n<p>&#8212; Foi a raiva de nunca ter esquecido&#8230;<\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>Foram feitos um para o outro. <\/p>\n<p>Ao menos, era nisso que acreditaram nos primeiros tempos, aqueles tais do \u201cs\u00f3 vou aonde voc\u00ea for\u201d. <\/p>\n<p>Foi por essa \u00e9poca, ali\u00e1s, que Camilo, um cinquent\u00e3o bem apanhado, resolveu ser sincero com Luana. <\/p>\n<p>&#8212; Amor, me sinto t\u00e3o feliz, t\u00e3o feliz que chego a duvidar. <\/p>\n<p>Camila ficou feliz com a fala, mas nada entendeu.<\/p>\n<p>&#8212; Ent\u00e3o, amor, quero que voc\u00ea me fa\u00e7a um favor. Fique com esse cheque meu em branco. Se me acontecer algo. Uma doen\u00e7a grave. A morte. Sei l\u00e1. Voc\u00ea tem como cobrir as eventuais despesas. <\/p>\n<p>&#8212; Que loucura \u00e9 essa Camilo?<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o \u00e9 loucura, n\u00e3o, amor. N\u00e3o sou mais menino. E voc\u00ea sabe como sou precavido, n\u00e9.<\/p>\n<p>&#8212; Que bobagem&#8230;<\/p>\n<p>Luana guardou o cheque \u2013 e at\u00e9 se esqueceu dele. <\/p>\n<p>At\u00e9 porque a cada dia o Camil\u00e3o parecia remo\u00e7ar. <\/p>\n<p>O homem sabia viver. <\/p>\n<p>Sempre foi um solteir\u00e3o convicto. Aprendeu a curtir a vida. Era mesmo de fazer inveja. <\/p>\n<p>Ela pr\u00f3pria, alguns anos mais nova, deslumbrava-se com a \u2018pegada\u2019 do companheiro.<\/p>\n<p>&#8212; Parece remo\u00e7ar a cada dia&#8230;<\/p>\n<p>Remo\u00e7ou tanto, ali\u00e1s, que logo a trocou por uma com 20 anos a menos. <\/p>\n<p>Quando soube, Luana n\u00e3o quis acreditar. <\/p>\n<p>Sofreu o tanto que se sofre nessas ocasi\u00f5es \u2013 e os ais, aqui, s\u00e3o inevit\u00e1veis. <\/p>\n<p>Mas, \u00e9 da vida e dos amores. <\/p>\n<p>Um dia em conversa com uma amiga comum soube que ele embarcaria para uma longa viagem ao redor do mundo ao lado de Sueli, a nova namorada. <\/p>\n<p>&#8212;  Como algu\u00e9m pode se apaixonar por algu\u00e9m com esse nome? \u2013 retrucou visivelmente enciumada.<\/p>\n<p>Ficou revoltada. A viagem que haviam planejado. E o bandido levaria outra. Como pode?<\/p>\n<p>Estava nessa de horror quando a amiga lhe lembrou do cheque em branco. <\/p>\n<p>Bateu um dilema na hora. <\/p>\n<p>&#8212; Devolvo ou n\u00e3o devolvo? <\/p>\n<p>Pensou em devolver. Apanhou o telefone. N\u00e3o queria nada daquele velhaco.<\/p>\n<p>&#8212; Isso mesmo, amiga \u2013 ouviu e estranhou. <\/p>\n<p>Mas, e se a Sueli atendesse o que diria?  <\/p>\n<p>\u201cToma que o cheque \u00e9 seu\u201d. <\/p>\n<p>N\u00e3o, nem pensar.  <\/p>\n<p>Resolveu n\u00e3o se precipitar. Despediu-se da amiga \u2013 e foi embora. <\/p>\n<p>Tomaria um bom banho, dormiria tranq\u00fcila, amanh\u00e3 pensaria no que fazer&#8230; <\/p>\n<p>Quem n\u00e3o dormiu, na verdade, foi a amiga que, mal acordou, ligou para Luana.<\/p>\n<p>&#8212; E a\u00ed, amiga, o que voc\u00ea resolveu?<\/p>\n<p>Entendeu que a mo\u00e7a era mesmo uma fofoqueira.<\/p>\n<p>Provavelmente, deveria ser uma arma\u00e7\u00e3o de Camilo para reaver o cheque.<\/p>\n<p>Sabia o quanto era orgulhosa.  <\/p>\n<p>Por isso, Luana caprichou na resposta:<\/p>\n<p>&#8212; Quanto ao cheque n\u00e3o vou devolver, n\u00e3o. Vou depositar. Nem que seja s\u00f3 para comprar uns vestidinhos, umas coisinhas bobas. Uns presentinhos para mim mesma que fiz tanto por ele. Tinha guardado o cheque na urg\u00eancia de eu ter que enterr\u00e1-lo e n\u00e3o ter dinheiro. Mas j\u00e1 que n\u00e3o tenho mais essa preocupa\u00e7\u00e3o vou enterr\u00e1-lo vivo. E com roupa de festa&#8230;<\/p>\n[Texto publicado no livro &quot;Meus Caros Amigos \u2013 Cr\u00f4nicas sobre jornalistas, bo\u00eamios e paix\u00f5es&quot;]\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eram amigos desde a inf\u00e2ncia. <\/p>\n<p>Mas, coerente aos seus princ\u00edpios e fins, Al\u00ea n\u00e3o foi ao casamento de Estrop\u00edcio que, apesar do apelido, n\u00e3o era t\u00e3o mal assim. 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