{"id":10782,"date":"2007-10-24T00:00:00","date_gmt":"2007-10-24T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:55:49","modified_gmt":"2017-09-15T19:55:49","slug":"a-vitima-do-quase-assalto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/a-vitima-do-quase-assalto\/","title":{"rendered":"A v\u00edtima do quase assalto"},"content":{"rendered":"<p>Seria poss\u00edvel um quase assalto fazer uma v\u00edtima quase fatal?<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, vou lhes contar&#8230;<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, n\u00e3o sei se j\u00e1 lhes contei essa hist\u00f3ria. Se contei, desculpem-me o lapso de mem\u00f3ria. \u00c9 a idade, voc\u00eas entendem, n\u00e3o? Se n\u00e3o contei, conto agora \u2013 e de alguma forma vem no embalo das hist\u00f3rias de ontem&#8230;<\/p>\n<p>Conto o milagre \u2013 e voc\u00eas v\u00e3o entender porqu\u00ea \u2013, mas n\u00e3o os nomes dos santos.<\/p>\n<p>Digamos que ela se chama Ela.; o namorado, Namorado  e o \u201cRicard\u00e3o\u201d, \u00f3bvio, Ricard\u00e3o. Fica mais f\u00e1cil identific\u00e1-los \u2013 e inclusive saber das inten\u00e7\u00f5es de cada um.<\/p>\n<p>N\u00e3o preciso dizer que os tr\u00eas trabalhavam juntos \u2013 pois \u00e9, trabalhavam. Cada um em um departamento diferente. Mas, viam-se pelos corredores e diziam \u201cbom dia\u201d, \u201cboa-tarde\u201d, essas coisas que o politicamente correto manda e a gente obedece. Um dia esticou-se um olhar aqui, prolongou-se um \u201cboa tarde\u201d ali. Papinho, vai. Papinho, vem. Assim Ela o transformou em Namorado e at\u00e9 pareciam felizes.<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, um Namorado apaixonad\u00edssimo.<\/p>\n<p>Como dizia, eram felizes at\u00e9 que veio a tal brincadeira de Amigo Secreto. Veio mais: o correio secreto do amigo secreto. <\/p>\n<p>H\u00e1 quem ache aqueles bilhetinhos an\u00f4nimos sem gra\u00e7a pra caramba. Mas, h\u00e1 quem goste. H\u00e1 quem inclusive tire proveito da situa\u00e7\u00e3o. Preciso dizer que foi nessa que o Ricard\u00e3o se deu bem. Mandou uns torpedos an\u00f4nimos para a mo\u00e7a. Falou de sua fei\u00e7\u00f5es etruscas \u2013 e sei que parte do pessoal correu ao dicion\u00e1rio para ver se o \u201cadmirador secreto\u201d estava xingando ou elogiando. Falou um monte \u2013 e Ela nunca ousou contar para o Namorado a exist\u00eancia de tais e tamanhos bilhetes.<\/p>\n<p>O Ricard\u00e3o gostou do sil\u00eancio. Viu que havia uma abertura. D\u00e1-lhe mensagens, declara\u00e7\u00f5es, poemas, letras de m\u00fasica. Ela n\u00e3o resistiu. Escreveu de volta ao ainda \u201cAdmirador Secreto\u201d. Foi sincera demais. Disse que Ela, mesmo com o Namorado, se sentia \u201cuma mulher absolutamente s\u00f3\u201d.<\/p>\n<p>Era a deixa&#8230;<\/p>\n<p>O Ricard\u00e3o foi pra cima \u2013 e, n\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil imaginar por todos os lados, de todas as formas.<\/p>\n<p>Ela n\u00e3o resistiu. Encantou-se&#8230;<\/p>\n<p>S\u00f3 que havia o Namorado. Como se livrar dele?<\/p>\n<p>Tentou uma conversa franca. Mal insinuou que queria \u201cdar um tempo\u201d (ali\u00e1s, mulher quando vem com essa \u00e9 porque tem marmanjo na parada), o Namorado foi taxativo.<\/p>\n<p>&#8212; Eu n\u00e3o vivo sem voc\u00ea. Ali\u00e1s, voc\u00ea tamb\u00e9m n\u00e3o vive sem mim.<\/p>\n<p>Ing\u00eanua que s\u00f3, Ela ainda tentou argumentar que era exatamente isso. Se dessem um tempo, e Ela sentisse a falta do Namorado e sofresse e chorasse, ent\u00e3o teria certeza de que ele era o homem da sua vida.<\/p>\n<p>Desta vez, foi mais taxativo ainda.<\/p>\n<p>&#8212; Voc\u00ea n\u00e3o entendeu. Eu n\u00e3o vivo sem voc\u00ea porque lhe amo. Est\u00e1 claro? Agora, voc\u00ea n\u00e3o vive sem mim simplesmente porque eu mato voc\u00ea se souber que tem algum gabiru \u00e0 sua volta.<\/p>\n<p>Ela mudou o tom da conversa. Percebeu que o Namorado n\u00e3o estava brincando.<\/p>\n<p>&#8212; Se n\u00e3o tiver coragem, mando algu\u00e9m fazer o servi\u00e7o, acrescentou ele.<\/p>\n<p>Assunto mais do que encerrado. N\u00e3o se tocou mais em separa\u00e7\u00e3o. Ali\u00e1s, Elazinha tinha mesmo essa dificuldade. N\u00e3o sabia dizer n\u00e3o. Tanto que tamb\u00e9m n\u00e3o disse n\u00e3o para o Ricard\u00e3o.<\/p>\n<p>Desde a conversa, o Namorado andava estranho.<\/p>\n<p>Mas, a cada encontro, o Ricard\u00e3o se superava.<\/p>\n<p>Digamos que ali nasceu o jarg\u00e3o \u201ca esperan\u00e7a &#8212; leia-se, desfrute &#8212; venceu o medo\u201d.<\/p>\n<p>Tudo caminhava sob controle. Ela, infeliz e feliz; mas, satisfeita,. O Namorado, desconfiado. O Ricard\u00e3o, do jeito que mais gostava. No arm\u00e1rio, e se dando bem.<\/p>\n<p>At\u00e9 que naquela tarde, dois homens entraram armados na empresa. Gritavam enlouquecidos. Queriam saber do cofre, do dinheiro, das j\u00f3ias. Ao ver a cena, a mulherada \u2013 e como trabalhava mulher ali \u2013 tamb\u00e9m se p\u00f4s a gritar desesperada. Foi o que os antigos chamavam de \u201cfu\u00e1\u201d. Uma correria. <\/p>\n<p>O ladr\u00f5es gritando&#8230; <\/p>\n<p>As mulheres gritando mais ainda&#8230;<\/p>\n<p>A correria&#8230;<\/p>\n<p>Os bandidos desistiram. N\u00e3o havia como controlar a situa\u00e7\u00e3o. Do jeito que apareceram, se foram&#8230;<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m acreditou. Alguns ca\u00edram de joelhos em ora\u00e7\u00e3o. Outros choravam. Muitos riam aliviados. Abra\u00e7aram-se. Festejaram. At\u00e9 que o diretor reuniu o pessoal e pediu sil\u00eancio, pois gostaria de dizer algo. <\/p>\n<p>&#8212; Todos est\u00e3o bem?<\/p>\n<p>Foi nesse exato instante que se ouviu gemidos vindos de uma das laterais da casa.<br \/>\nCorreram para janela \u2013 e n\u00e3o acreditaram no que viram. Ela estava estatelada no ch\u00e3o do estacionamento, com algo parecido com \u201cum mapa-mundi\u201d que pegava o olho direito e toda a testa.<\/p>\n<p>Havia tentado fugir, saltando da janela \u2013 algo em torno de dois metros, dois e pouco de altura. Trope\u00e7ou e caiu de cabe\u00e7a. <\/p>\n<p>&#8212; Fiquei com muito medo&#8230;<\/p>\n<p>Ela tentou se justificar na maca a caminho do hospital.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m entendeu. <\/p>\n<p>S\u00f3 ela, o Ricard\u00e3o e agora voc\u00eas sabem a verdade.<\/p>\n<p>Consci\u00eancia pesada. <\/p>\n<p>Ficou com muito medo. Mas, n\u00e3o dos ladr\u00f5es. E, sim, do Namorado. Que ele cumprisse a promessa&#8230;<\/p>\n[Texto publicado no livro &quot;Meus Caros Amigos \u2013 Cr\u00f4nicas sobre jornalistas, bo\u00eamios e paix\u00f5es&quot;]\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Seria poss\u00edvel um quase assalto fazer uma v\u00edtima quase fatal?<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, vou lhes contar&#8230;<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, n\u00e3o sei se j\u00e1 lhes contei essa hist\u00f3ria. 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