{"id":10784,"date":"2007-10-22T00:00:00","date_gmt":"2007-10-22T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-14T04:05:46","modified_gmt":"2017-09-14T04:05:46","slug":"a-camisa-do-faustao-integra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/a-camisa-do-faustao-integra\/","title":{"rendered":"A camisa do Faust\u00e3o (\u00edntegra)"},"content":{"rendered":"<p>Que roubada, companheiros!<\/p>\n<p>Como pude lembrar dessa hist\u00f3ria cabeluda? <\/p>\n<p>Passei quinze anos tentando apag\u00e1-la da minha mem\u00f3ria &#8211; quase consegui. Mas, agora estou prestes a registr\u00e1-la aqui e em outras mem\u00f3rias, a de voc\u00eas, a do computador e consequentemente na do Planeta, do Cosmo&#8230;<\/p>\n<p>Ironia das ironias. Por\u00e9m, n\u00e3o tem como n\u00e3o escrever.<\/p>\n<p>Antes, por\u00e9m, quero deixar bem claro. <\/p>\n<p>Se acaso n\u00e3o gostarem, devo informar que a culpa, meus senhores, \u2013 toda ela, ali\u00e1s \u2013 \u00e9 da camisa que Faust\u00e3o usou no Doming\u00e3o que passou. <\/p>\n<p>\u00d4 loco, meu!<\/p>\n<p>Quem viu, h\u00e1 de se lembrar.<\/p>\n<p>Para quem n\u00e3o teve o privil\u00e9gio, vou tentar descrever a obra. Mas, sei que ficarei bem distante da perfei\u00e7\u00e3o. Era toda ela em tom marinho fosco \u2013 gostaram? Com leves arabescos coloridos, em verde, vermelho quase vinho e deriva\u00e7\u00f5es alaranjadas. N\u00e3o d\u00e1 para confiar na minha TV que n\u00e3o \u00e9 l\u00e1 essas coisas e j\u00e1 tem um tempinho. Mas, eu diria, sem medo de errar, que algum sof\u00e1 foi esfolado l\u00e1 pelas imedia\u00e7\u00f5es da se\u00e7\u00e3o de Figurino da Globo.<\/p>\n<p>Coisas que acontecem&#8230;<\/p>\n<p>Por certo, a cria\u00e7\u00e3o n\u00e3o passou pela consultoria de Glorinha Kalil, aquela mo\u00e7a que fala de moda e eleg\u00e2ncia no Fant\u00e1stico. Tamb\u00e9m n\u00e3o tenho certeza, por isso n\u00e3o posso afirmar, se o apresentador aceitou de primeira. Ou se algu\u00e9m o convenceu ao lhe confindenciar que, se usasse a dita-cuja, ele tamb\u00e9m se sentiria \u201cuma grande figura humana, meu\u201d.<\/p>\n<p>O atento leitor deve estar se perguntando \u2013 se \u00e9 que j\u00e1 n\u00e3o desistiu de ler esse post besteirol \u2013 que caramba eu vi naquela camisa bizarra? No m\u00ednimo, de gosto duvidoso&#8230;<\/p>\n<p>Sinceramente?<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m me fa\u00e7o a pergunta, e com um temor maior. Pois prezo minha ilibada reputa\u00e7\u00e3o e aclamada eleg\u00e2ncia. Mas, mesmo correndo todos os riscos de perd\u00ea-las, sou obrigado a confessar.<\/p>\n<p>O motivo \u00e9 simples. <\/p>\n<p>Eu tive uma camisa igual aquela. Talvez at\u00e9 um pouquinho mais espalhafatosa, pois a dele \u00e9 de manga longa. A minha \u2013 ai, ai, ai \u2013 era de manga \u00be. Ou seja, as mangas terminavam uns tr\u00eas ou quatro cent\u00edmetros abaixo do cotovelo. <\/p>\n<p>N\u00e3o riam, por favor.<\/p>\n<p>N\u00e3o riam&#8230;<\/p>\n<p>\u00c9 s\u00e9rio, gente. <\/p>\n<p>Pois eu a achava linda. Diferenta\u00e7a. Tanto que n\u00e3o tive d\u00favidas em vesti-la num dia em que \u2013 vejam o que \u00e9 a vida, o que s\u00e3o as coincid\u00eancias \u2013 num dia em que apareci em frente \u00e0s c\u00e2meras de TV em um programa de audit\u00f3rio.<\/p>\n<p>N\u00e3o criem expectativas exageradas. <\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>Bem, aviso logo: n\u00e3o sei se conseguirei terminarn neste cap\u00edtulo o que tenho para lhes contar. A cada momento, outros lances da hist\u00f3ria \u2013 igualmente bizarros \u2013 me v\u00eam \u00e0 mente. Por isso, \u00e9 melhor come\u00e7ar do come\u00e7o&#8230;<\/p>\n<p>E o come\u00e7o se deu numa dessas tardes outonais de abril de 1992. A combativa reda\u00e7\u00e3o de Gazeta do Ipiranga trabalhava na edi\u00e7\u00e3o especial de 35\u00ba anivers\u00e1rio do jornal. Est\u00e1vamos todos l\u00e1 no risque e rabisque das p\u00e1ginas quando algu\u00e9m que n\u00e3o lembro quem entrou e sutilmente anunciou. <\/p>\n<p>&#8212; Pessoal, tem uma \u2018bucha\u2019 para voc\u00eas.<\/p>\n<p>Grande novidade. Nas boas reda\u00e7\u00f5es que se prezam, todo dia \u00e9 dia de \u2018bucha\u2019, de diferentes portes e calibres. Por isso, demos de ombro. E novo alerta ressoou em tom de fiquem esperto.<\/p>\n<p>&#8212; Pessoal, tem uma \u2018bucha\u2019 a\u00ed, gente&#8230;<\/p>\n<p>Um dos nossos respondeu por responder.<\/p>\n<p>&#8212; Ent\u00e3o, desembucha, cara.<\/p>\n<p>Ele desembuchou.<\/p>\n<p>&#8212; Chegou um convite para participarmos do Programa do Z\u00e1ccaro. V\u00e3o fazer uma homenagem ao jornal. Algu\u00e9m da Reda\u00e7\u00e3o vai ter que representar a empresa.<\/p>\n<p>Foi como se algu\u00e9m da Tropa de Elite tivesse dado a ordem de dispersar. Cada rep\u00f3rter, diagramador, fot\u00f3grafo foi para um lado como se n\u00e3o fosse com eles. De repente, olhei a movimenta\u00e7\u00e3o e, da minha mesa, incauto, perguntei:<\/p>\n<p>&#8212; O que foi?<\/p>\n<p>N\u00e3o deu outra. O arauto das boas novas foi econ\u00f4mico nos gestos e nas palavras.<\/p>\n<p>&#8212; \u00c9 pra voc\u00ea.<\/p>\n<p>E me entregou um fax com o convite\/intima\u00e7\u00e3o. Deveria estar numa manh\u00e3 daquelas, no Teatro Z\u00e1ccaro, \u00e0s 9 da manh\u00e3, para participar das grava\u00e7\u00f5es do programa que iria ao ar no dia 26 de abril \u2013 data precisa dos 35 anos de GI.<\/p>\n<p>&#8212; Parab\u00e9ns a voc\u00ea, nesta data querida&#8230;<\/p>\n<p>Era o pessoal da reda\u00e7\u00e3o que voltava rindo, aliviado, para os seus afazeres. <\/p>\n<p>Voltavam cantando para debochar do ot\u00e1rio da vez.<\/p>\n<p>S\u00f3 a\u00ed me dei conta de que havia entrado pelo cano.<\/p>\n<p>Mesmo assim, n\u00e3o perdi a pose. Sorri sem gra\u00e7a e sacramentei para todos ouvirem, como se n\u00e3o estivesse nem a\u00ed. Tiraria de letra.<\/p>\n<p>&#8212; At\u00e9 que n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o ruim, disse.<\/p>\n<p>Mas, ningu\u00e9m acreditou.<\/p>\n<p>Mal sabia eu, prezados leitores, o que me esperava no dia, hora e lugar aprazados.<\/p>\n<p>III.  <\/p>\n<p>Ent\u00e3o, naquele dia, n\u00e3o me restou outra alternativa. Vesti a tal camisa, parecida com a que o Faust\u00e3o usou domingo, e l\u00e1 fui eu rumo ao Teatro Z\u00e1ccaro, participar do Programa do Z\u00e1ccaro, ser entrevistado pelo Maestro Z\u00e1ccaro&#8230;<\/p>\n<p>Esperar hora e cacetada pelo in\u00edcio das grava\u00e7\u00f5es n\u00e3o foi t\u00e3o ruim. Ser tratado como uma pe\u00e7a cenogr\u00e1fica (espere aqui, sente ali, n\u00e3o olhe para a c\u00e2mera, sorria etc) pela produ\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m n\u00e3o. Diria que foi uma b\u00edblica li\u00e7\u00e3o de humildade. Afinal, ficou claro para mim, naquela hora, que ali \u00e9ramos todos iguais \u2013 menos o pessoal da produ\u00e7\u00e3o (que dava ordens pra l\u00e1 e pra c\u00e1), o saudoso maestro, o Biqu\u00edni Cavad\u00e3o, a Daniela Mercury (em in\u00edcio de carreira) e um misterioso senhor com ares de \u2018cientista-maluco\u2019.<\/p>\n<p>Antes de continuar, devo explicar a estrutura do programa \u2013 ali\u00e1s, sem nenhuma novidade. Repetia a f\u00f3rmula que a dupla A\u00edrton e Lolita Rodrigues consagraram nos prim\u00f3rdios da TV brasileira, com os cl\u00e1ssicos Clube dos Artistas e Almo\u00e7o com a Estrela. Nada, nada o que a Globo reviveu recentemente com a Pizzaria do dito-cujo Faust\u00e3o. <\/p>\n<p>O do Z\u00e1ccaro era assim. O cen\u00e1rio reproduzia um restaurante com v\u00e1rias mesas, onde entrevistados e figurantes ficavam \u00e0 espera de um prato de macarr\u00e3o frio e da entrevista conduzida por quem? Isto, amigos: pelo maestro Z\u00e1ccaro. O pr\u00f3prio e sua orquestra \u2013 uns dez m\u00fasicos ou pouco mais \u2013 eram respons\u00e1veis pelos trilha sonora em italiano. Naquela inesquec\u00edvel manh\u00e3, l\u00e1 estavam mais duas atra\u00e7\u00f5es: o Biqu\u00edni Cavad\u00e3o para assassinar a benjorniana \u201cChove Chuva\u201d e a ent\u00e3o promissora Daniela Mercury que, esperta, cantou seu hit e deu no p\u00e9. Tinha outros compromissos&#8230;<\/p>\n<p>Desculpa que, ali\u00e1s, n\u00e3o pude dar. Tamb\u00e9m n\u00e3o seria preciso. Se fosse embora, de fina, l\u00e1 do fund\u00e3o do cen\u00e1rio, ningu\u00e9m notaria. Mas, n\u00e3o ficaria bem comigo mesmo e, principal-mente, l\u00e1 na reda\u00e7\u00e3o, n\u00e3o perdoariam. As goza\u00e7\u00f5es seriam implac\u00e1veis.<\/p>\n<p>Por isso, resisti altivo no lugar que me coube no cen\u00e1rio. Vira e mexe um dos c\u00e2meras dava um recorte da gente. Ora em poss\u00edveis conversas animadas entre convidados e figurantes \u2013 na verdade, est\u00e1vamos dublando a n\u00f3s mesmos, pois n\u00e3o poder\u00edamos atrapalhar o som guia do microfone do maestro-apresentador. Ora esgrimindo os talheres frente aos renitentes macarr\u00f5es quase sem molho nenhum \u2013 para evitar desastres e desastrados. Ora balan\u00e7ando a cabe\u00e7a como se estiv\u00e9ssemos acompanhando as can\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Mesmo h\u00e1 15 anos atr\u00e1s preciso ressaltar que j\u00e1 tinha vivido as experi\u00eancias mais diversas como rep\u00f3rter e tamb\u00e9m como pessoa, por isso, querem saber, deixei no autom\u00e1tico: relaxei e fiquei na minha. Para mim, estava tudo muito bom, estava tudo muito bem&#8230;<\/p>\n<p>At\u00e9 que um bando de animais come\u00e7ou a invadir o palco&#8230;<\/p>\n<p>IV.<\/p>\n<p>Antes de continuar, \u00e9 preciso contextualizar a trama.<\/p>\n<p>E aqui vai uma informa\u00e7\u00e3o preciosa&#8230;<\/p>\n<p>Quem de voc\u00eas se recorda de uma novela da Globo em que o F\u00e1bio J\u00fanior fazia um personagem pegador, de fazer inveja ao Jos\u00e9 Mayer, e na trama atendia pelo simp\u00e1tico nome de Jorge Tadeu? <\/p>\n<p>Lembram?<\/p>\n<p>N\u00e3o lembro sequer o nome da novela. Mas, lembro que as mulheres devidamente \u2018aben\u00e7oadas\u2019 pelo fot\u00f3grafo Jorge Tadeu eram identificadas nas cenas seguintes por dois s\u00edmbolos. Primeiro, sentiam uma inexplic\u00e1vel atra\u00e7\u00e3o por uma planta que tinha uma haste, digamos, um tanto quanto \u2018reveladora\u2019. Parecia&#8230; Bem, deixemos de lado essas obscenidades. Quando n\u00e3o, uma certa borboleta azul ficava a flanar em piruetas ao redor da mo\u00e7oila apaixonada.<\/p>\n<p>Pois ent\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>O tal cientista-maluco, que citei anteriormente, era o amestrador da borboleta-atriz e de outros tantos bichos, que tamb\u00e9m foram convidados a participar do programa. Ele estava l\u00e1 com toda a sua turma \u2013 entre os quais, uma meia d\u00fazia de c\u00e3es. Dois deles, eu lembro bem porque n\u00e3o tiravam os olhos de mim. Um que parecia uma \u2018salsicha\u2019 \u2013 acho que era o mais popular porque era contratado para os an\u00fancios de uma f\u00e1brica de amortecedores \u2013 e outro bem maior e com rosnar caracter\u00edstico de seres que t\u00eam poucos amigos e s\u00e3o impacientes.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei se j\u00e1 lhes disse. Mas, se n\u00e3o disse vou dizer agora. N\u00e3o tenho l\u00e1 grandes afinidades com cachorros \u2013 ali\u00e1s, com bicho nenhum. Para ser franco, sincero mesmo, morro de medo dos tais. Fico ainda mais desarvorado quando algu\u00e9m percebe e diz singelamente: <\/p>\n<p>&#8212; Que bobagem. Ele n\u00e3o faz nada. \u00c9 t\u00e3o bonzinho, manso que s\u00f3&#8230;<\/p>\n<p>A\u00ed, sim, fica pior a emenda do que o soneto. Porque sempre me pergunto: como \u00e9 que a txutxuca, dona do animalzinho, sabe o que se passa nos meandros daquelas cabecinhas peludas? <\/p>\n<p>O santo maestro tamb\u00e9m chegou a reclamar daqueles animais todos por ali. Mas, a produ\u00e7\u00e3o garantiu que seria r\u00e1pida a entrevista com o senhor amestrador \u2013 ali\u00e1s, registre-se, era s\u00f3 gentileza e aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8212; Fiquem tranq\u00fcilos. Ningu\u00e9m precisa ter medo. Eles n\u00e3o fazem nada. S\u00e3o bonzinhos, manso que s\u00f3&#8230;<\/p>\n<p>Uma pena que o olhar daqueles dois n\u00e3o me passavam a menor confian\u00e7a. <\/p>\n<p>O rosnar tamb\u00e9m&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Acho que s\u00e3o as luzes. O calor. Eles podem estar estranhando, desculpou-se a mim &#8212; e s\u00f3 para mim &#8211;, um minuto depois o senhor dos animais.<\/p>\n<p>Imaginem a minha express\u00e3o ao ouvir essas palavras. <\/p>\n<p>Foi quando o bom maestro cismou de vir na minha dire\u00e7\u00e3o para a entrevista. Eu estava absolutamente desconfort\u00e1vel com a vizinhan\u00e7a. Se n\u00e3o me engano, o Salsicha resolveu se aninhar embaixo da minha mesa. Vi o bicho entrar, mas n\u00e3o o vi sair. Cutuquei com a ponta do p\u00e9 algo embaixo da mesa. Se fosse ele, latiria. As figurantes que estavam ao meu lado n\u00e3o moveram sequer um m\u00fasculo. Pareciam seres congelados. Dali, n\u00e3o viria qualquer ajuda, entendi logo.<\/p>\n<p>O pane foi inevit\u00e1vel. <\/p>\n<p>V. <\/p>\n<p>E l\u00e1 vem o maestro super animado:<\/p>\n<p>&#8212; Agora vamos falar com o jornalista&#8230;<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o ouvia mais nada. Na minha cabe\u00e7a, passava um filminho daqueles em que \u00e9 inevit\u00e1vel uma hecatombe. \u201cTubar\u00e3o\u201d, \u201cInc\u00eandio Na Torre\u201d, manjam? Minha reputa\u00e7\u00e3o rolaria ladeira abaixo. Vai que a borboleta azul escapasse de alguma daquelas gaiolas e pousasse sobre minha cabe\u00e7a bem na hora do meu depoimento. Ipiranga, Cambuci e adjac\u00eancias ririam da minha cara e a boatoria comeria solta. <\/p>\n<p>&#8212; Quem diria, hein, o cara da Gazeta&#8230; Ai, ai, ai&#8230;<\/p>\n<p>Quando me convencia que n\u00e3o havia borboleta nenhuma por ali, lembrava do Salsicha. Cad\u00ea o Salsicha? E esse outro cachorr\u00e3o? O est\u00e1 querendo que n\u00e3o p\u00e1ra de me olhar como se eu fosse uma grande pe\u00e7a de carne?<\/p>\n<p>Alheio aos meus horrores, o maestro insistiu, uma vez:<\/p>\n<p>&#8212; Ent\u00e3o, jornalista, como vai o nosso Ipiranga?<\/p>\n<p>(E eu em pane!)<\/p>\n<p>Duas vezes:<\/p>\n<p>&#8212; E a nossa Gazetinha?<\/p>\n<p>(E eu calado, sorriso sem gra\u00e7a, sem gra\u00e7a)<\/p>\n<p>Tr\u00eas vezes, quase perdendo a paci\u00eancia:<\/p>\n<p>&#8212; Quer dizer, amigo, que o jornal completa 35 anos. Que beleza!<\/p>\n<p>Entreguei pra Deus. <\/p>\n<p>Levantei-me, peguei o microfone que estava \u00e0 mesa, e comecei a falar. <\/p>\n<p>&#8212; A Gazeta \u00e9 isso. O Ipiranga \u00e9 aquilo. Estamos honrados em estar aqui etc etc etc. Que, mod\u00e9stia a parte, sou bom nesse lero-lero.<\/p>\n<p>S\u00f3 voltei a mim \u2013 e ao estarrecedor mundo dos animais \u2013 quando ouvi aplausos generalizados, refor\u00e7ados pelo artif\u00edcio de uma grava\u00e7\u00e3o de palmas que os t\u00e9cnicos colocaram oportunamente, mas que eu achei bem merecidos. Mod\u00e9stia \u00e0 parte, sou bom nesse lero-lero.<\/p>\n<p>O que eu disse?<\/p>\n<p>Sinceramente, n\u00e3o guardei. S\u00f3 sei que, no dia seguinte em que o programa foi ao ar, muitos vieram me parabenizar pelas belas palavras. No entanto, um n\u00famero bem maior de pessoas me parabenizou por eu ser um home de f\u00e9 e t\u00e3o religioso.<\/p>\n<p>&#8212; Como assim?, perguntei.<\/p>\n<p>&#8212; A cada frase que voc\u00ea dizia, completava com o louvor&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o entendi bem. E um gaiato imitou a minha fala:<\/p>\n<p>&#8212; A Gazeta \u00e9 isso (S\u00e3o Roque, S\u00e3o Roque, S\u00e3o Roque). O Ipiranga \u00e9 aquilo (S\u00e3o Roque, S\u00e3o Roque, S\u00e3o Roque). Estamos honrados em estar aqui (S\u00e3o Roque, S\u00e3o Roque, S\u00e3o Roque) etc (S\u00e3o Roque, S\u00e3o Roque, S\u00e3o Roque) etc (S\u00e3o Roque, S\u00e3o Roque, S\u00e3o Roque) etc (S\u00e3o Roque, S\u00e3o Roque, S\u00e3o Roque)&#8230;<\/p>\n<p>* Nota do Autor: <\/p>\n<p>\u00c9 das antigas. Do tempo em que era garoto. Mas, os mais velhos ensinavam a gente a toda vez que estiv\u00e9ssemos com medo de algum cachorro, chamar por S\u00e3o Roque. Diziam que o santo tem o dom de amansar os animais, especialmente c\u00e3es bravios, enxeridos ou rosnadores como aqueles dois. Eu, \u00e9 que n\u00e3o precisava exagerar. Mas, n\u00e3o ficou de todo mal, n\u00e3o. Mod\u00e9stia \u00e0 parte, sou bom nesse nesse lero-lero.<\/p>\n[Texto publicado no livro &quot;Meus Caros Amigos \u2013 Cr\u00f4nicas sobre jornalistas, bo\u00eamios e paix\u00f5es&quot;]\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Que roubada, companheiros!<\/p>\n<p>Como pude lembrar dessa hist\u00f3ria cabeluda? <\/p>\n<p>Passei quinze anos tentando apag\u00e1-la da minha mem\u00f3ria &#8211; quase consegui. Mas, agora estou prestes a registr\u00e1-la aqui e em outras mem\u00f3rias,<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-10784","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-parangoles"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10784","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10784"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10784\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":13969,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10784\/revisions\/13969"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10784"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10784"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10784"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}