{"id":10790,"date":"2007-10-31T00:00:00","date_gmt":"2007-10-31T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:55:48","modified_gmt":"2017-09-15T19:55:48","slug":"nunca-houve-nada-igual","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/nunca-houve-nada-igual\/","title":{"rendered":"Nunca houve nada igual"},"content":{"rendered":"<p>N\u00f3s a cham\u00e1vamos carinhosamente de Lix\u00e3o. <\/p>\n<p>Era robusta, trepidante, invocada. E verde.<\/p>\n<p>De s\u00e1bado \u00e0 quinta, ficava \u00e0 nossa disposi\u00e7\u00e3o para o que desse e viesse.<\/p>\n<p>\u00c0s sextas, por\u00e9m, entregava-se a outros dom\u00ednios, diria, igualmente carinhosos. Afinal, todos ali a entendiam como um patrim\u00f4nio. Acredit\u00e1vamos inteiramente nela que, ao que me recordo, nunca nos deixou na m\u00e3o.<\/p>\n<p>Hoje pela manh\u00e3, tantos e tantos anos depois, seguia pela rua Vergueiro, no sentido centro de S\u00e3o Paulo. Na dire\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria, topei com uma poss\u00edvel \u2018irm\u00e3\u2019 da Poderosa. N\u00e3o houve como n\u00e3o lembrar. N\u00e3o houve como n\u00e3o sentir saudades. N\u00e3o houve como n\u00e3o transform\u00e1-la no tema do post de hoje.<\/p>\n<p>Como disse, era robusta, trepidante, invocada. E verde.<\/p>\n<p>Dos instigantes far\u00f3is dianteiro ao consistente p\u00e1ra-choque trazeiro, era verde. <\/p>\n<p>Inteiramente verde \u2013 e nossa.<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>Estou falando do Lix\u00e3o, a velha Rural Willys que serviu de viatura de reportagem nos meus primeiros tempos de Gazeta do Ipiranga. N\u00e3o era uma Rural qualquer.  Tinha l\u00e1 seus quil\u00f4metros rodados e uma boa ca\u00e7amba. Por isso, todas as sextas-feiras, o pessoal da Distribui\u00e7\u00e3o a requisitava para \u2018apoio\u2019 na entrega dos ent\u00e3o 43 mil exemplares da Gazetinha.<\/p>\n<p>Seu Elizeu, o motorista, ia junto. <\/p>\n<p>E n\u00f3s da Reda\u00e7\u00e3o fic\u00e1vamos a merc\u00ea do bus\u00e3o ou de uma eventual e salvadora carona para qualquer emerg\u00eancia. Ali\u00e1s, torc\u00edamos para que o Z\u00e9 Jofre, respons\u00e1vel pela entrega, adiantasse o servi\u00e7o para que mais cedo pud\u00e9ssemos ter o Lix\u00e3o conosco.<\/p>\n<p>A\u00ed, sim, nos sent\u00edamos com o time completo.<\/p>\n<p>Prontos para qualquer emerg\u00eancia. Aptos a fazer reportagens que mudariam a hist\u00f3ria da humanidade.<\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>Aprendemos a ser exigentes com o Marc\u00e3o, o principal jornalista da Casa. Qualquer reportagem que tratasse de um simples buraco de rua, ele nos fazia entender que est\u00e1vamos diante de um grande desafio. Se fiz\u00e9ssemos o que deveria ser feito, logo os moradores daquele lugar seriam beneficiados \u2013 o que seria um servi\u00e7o \u00e0 sociedade. Ao ler a reportagem, as autoridades saberiam de qual lado est\u00e1vamos. Moradores de outras ruas compreenderiam que \u00e9ramos porta-voz \u201cdos seus leg\u00edtimos anseios e reivindica\u00e7\u00f5es\u201d.<\/p>\n<p>Parece que ou\u00e7o o Marc\u00e3o:<\/p>\n<p>&#8212; Essas s\u00e3o as melhores pautas, rapaz. V\u00e1 l\u00e1. Tire leite de pedra.<\/p>\n<p>&#8212; Sim, senhor.<\/p>\n<p>&#8212; Senhor est\u00e1 no c\u00e9u, \u00f4 burgesinho alienado.<\/p>\n<p>&#8212; Desculpe, seo Marques. Quer dizer, Marc\u00e3o.<\/p>\n<p>IV.<\/p>\n<p>Normalmente, sa\u00edamos eu, o rep\u00f3rter-fotogr\u00e1fico Cl\u00e1udio Micheli (Clamic) e o seo Elizeu. A Rural s\u00f3 tinha um banco, enorme. E nos ajeit\u00e1vamos por ali confortavelmente. Nessa bai\u00faca querid\u00edssima de todos n\u00f3s, enfrentamos enchentes hist\u00f3ricas, acompanhamos carros de bombeiros atr\u00e1s do inc\u00eandio, subimos e descemos ruas enlameadas, \u201cviajamos\u201d pelos 32 Jardins e Vilas do subdistrito do Ipiranga. Sempre a ca\u00e7a de not\u00edcias&#8230;<\/p>\n<p>Havia um sonho. Havia uma causa. <\/p>\n<p>N\u00e3o seria exagero dizer que \u00e9ramos felizes, mesmo ganhando pouco mais que alguns trocados.<\/p>\n<p>V.<\/p>\n<p>Numa tarde quente e inst\u00e1vel como a de hoje, tocou o telefone da Reda\u00e7\u00e3o. Algu\u00e9m atendeu e soube que estava havendo um assalto na rua M\u00e1rio Vicente, n\u00e3o muito longe da Bom Pastor, onde se situava a sede do jornal.<\/p>\n<p>O Clamic n\u00e3o havia voltado do almo\u00e7o. Partimos, ent\u00e3o, o seo Elizeu, eu e o Walt\u00e3o, outro rep\u00f3rter-fotogr\u00e1fico. <\/p>\n<p>Quando chegamos, logo percebemos a movimenta\u00e7\u00e3o de dezenas de viaturas da PM e da Civil e muitos policiais fortemente armados. A vers\u00e3o que colhi junto a um deles era a seguinte: dois meliantes tentaram roubar uma resid\u00eancia vazia, os vizinhos perceberam e chamaram por socorro. Os ladr\u00f5es se tocaram e deram \u00e1rea, saltando de quintal em quintal das casas geminadas. At\u00e9 aquele momento, ningu\u00e9m sabia se ainda estavam por ali.<\/p>\n<p>Est\u00e1vamos nessa conversa quando ouvimos um forte estrondo. Todos se assustaram. Os policiais engatilharam suas armas. Houve um corre-corre generalizado. Uma confus\u00e3o.<\/p>\n<p>Quando dei por mim estava dentro de uma farm\u00e1cia no compartimento onde se aplica inje\u00e7\u00e3o, sabem qual? Seo Elizeu, no bar estava no bar ficou. O Walt\u00e3o n\u00e3o teve d\u00favidas: atirou-se sobre a carca\u00e7a do Lix\u00e3o \u2013 e ali se sentiu o mais inexpugn\u00e1vel dos mortais.<\/p>\n<p>Na verdade, tudo n\u00e3o passou de um susto. Foi apenas uma porta que bateu com o vento. Mas, deu para perceber o tamanho da nossa coragem e o quanto Walt\u00e3o confiava na velha Rural. <\/p>\n<p>Hoje, pela manh\u00e3, vi uma camioneta parecida que se arrastava pela Vergueiro. <\/p>\n<p>Na hora decidi a hist\u00f3ria que lhes contaria&#8230;<\/p>\n<p>VI.<\/p>\n<p>Por um motivo simples.<\/p>\n<p>Com o passar dos anos, aposentamos nossa companheira de trabalho. Vieram Fuscas de todas as cores, Gols de v\u00e1rios calibres, Unos igualmente sacolejantes, uma voluntariosa Kombi e at\u00e9 dois Ladas que mais ficavam no conserto do que rodavam. <\/p>\n<p>Ou seja, v\u00e1rios ve\u00edculos de v\u00e1rias proced\u00eancias. <\/p>\n<p>Mas, nunca houve nada igual ao Lix\u00e3o, primeiro e \u00fanico. E era nosso. E verde.<\/p>\n[Texto publicado no livro \u201cVolteios &#8211;  Cr\u00f4nicas, lembran\u00e7as e devaneios\u201d]\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00f3s a cham\u00e1vamos carinhosamente de Lix\u00e3o. <\/p>\n<p>Era robusta, trepidante, invocada. 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