{"id":10803,"date":"2007-11-08T00:00:00","date_gmt":"2007-11-08T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-13T19:30:42","modified_gmt":"2017-09-13T19:30:42","slug":"encontro-jair-rodrigues","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/encontro-jair-rodrigues\/","title":{"rendered":"Encontro: Jair Rodrigues"},"content":{"rendered":"<p>Uma ensolarada ter\u00e7a-feira de agosto de 2000.<\/p>\n<p>Eu e o rep\u00f3rter-fotogr\u00e1fico An\u00edsio Assun\u00e7\u00e3o estamos diante de um grande port\u00e3o de madeira numa estreita estrada em Cotia, munic\u00edpio da Grande S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>Pontualmente, nove horas.<\/p>\n<p>Des\u00e7o do carro e me identifico pelo interfone:<\/p>\n<p>&#8212; Estou fazendo uma mat\u00e9ria para o Jornal da Tarde e tenho uma entrevista marcada com o Jair Rodrigues.<\/p>\n<p>Do outro lado, a voz avisa que devo esperar.<\/p>\n<p>Minutos depois, o port\u00e3o se abre e podemos entrar. Um amplo terreno se apresenta diante de n\u00f3s at\u00e9 chegarmos \u00e0 resid\u00eancia. Somos recebidos por uma esp\u00e9cie de governanta:<\/p>\n<p>&#8212; O seo Jair j\u00e1 j\u00e1 vem atender voc\u00eas.<\/p>\n<p>Um r\u00e1pido olhar pelo interior da casa em que se destaca o estilo r\u00fastico a combinar simplicidade e bom gosto. Parece que fizemos alguma travessura. Ao menos, \u00e9 o que entendo pela express\u00e3o do An\u00edsio que anda pra l\u00e1 e pra c\u00e1.<\/p>\n<p>Pergunto:<\/p>\n<p>&#8212; Que cara \u00e9 essa, An\u00edsio?<\/p>\n<p>Ele me responde com outra pergunta.<\/p>\n<p>&#8212; Quer apostar que acordamos o homem?<\/p>\n<p>Dou a tr\u00e9plica da pergunta.<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o era para estarmos aqui \u00e0s nove?<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 tempo para resposta.<\/p>\n<p>Um sonoro e sorridente \u201cbom dia\u201d ressoa pela casa \u2013 e comprova o que o An\u00edsio previu.<\/p>\n<p>&#8212; Querem um caf\u00e9?<\/p>\n<p>Decididamente Jair pulou da cama para nos atender.<\/p>\n<p>Ele se acomoda num espa\u00e7o entre a cozinha e a sala, onde h\u00e1 uma grande mesa. E l\u00e1 mesmo come\u00e7amos nossa conversa sobre os festivais TV Record e os bastidores do showbizz. O cantor de Disparada foi personagem central daquele importante momento da nossa Hist\u00f3ria. E percebo, agora, um justific\u00e1vel prazer em sua fala ao record\u00e1-los.<\/p>\n<p>Usei parte da entrevista para a reportagem que o Jornal da Tarde publicou em 13 de agosto daquele ano, com o t\u00edtulo \u201cAinda h\u00e1 novos Chicos, Vandr\u00e9s, Caetanos, Gils e Miltons por a\u00ed?\u201d (tamb\u00e9m postado no \u00edcone Leia Esta Can\u00e7\u00e3o). Outro tanto do muito que Jair nos disse naquele dia permaneceu em meus arquivos pessoais. Foi exatamente esse material que transformei em posts e venho abastecendo nosso blog\/site desde domingo:<\/p>\n<p>\u2022 Jair Rodrigues e Disparada, dia 4<br \/>\n\u2022 Jair Rodrigues e os Festivais da Record, dia 5<br \/>\n\u2022 Jair Rodrigues e M\u00edlton Nascimento, dia 6<\/p>\n<p>Creio que, antes de encerrar essa modest\u00edssima s\u00e9rie, devia ao meu car\u00edssimo leitor esse esclarecimento. N\u00e3o sei se, de um modo efetivo, os meios de comunica\u00e7\u00e3o e mesmo a opini\u00e3o p\u00fablica fazem a justi\u00e7a merecida a Jair Rodrigues.<\/p>\n<p>Sei que ele \u00e9 refer\u00eancia em termos de MPB ao lado de outros contempor\u00e2neos como Benjor, Simonal, Gil, Caetano, Chico e outros raros. Afinal, os anos 60 foram o grande filtro para tudo o que ouvimos ainda hoje.<\/p>\n<p>Mas, pensando bem, n\u00e3o cabe aqui tal discuss\u00e3o.<\/p>\n<p>Cabe, sim, contar mais uma historinha do alegre Cachorr\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 a seguinte.<\/p>\n<p>Ainda no ano santo de 1965, Jair viajou para o Rio de Janeiro a convite do radialista C\u00e9sar de Alencar, um dos grandes nomes do r\u00e1dio brasileiro. \u00c0quela \u00e9poca, os principais programas de r\u00e1dios eram transmitidos ao vivo, direto de um audit\u00f3rio, com orquestra e garantia de enorme audi\u00eancia.<\/p>\n<p>O cantor ficou feliz, muito feliz. Al\u00e9m de levantar um troco sempre bem-vindo, tratava-se de uma chance imperd\u00edvel para algu\u00e9m, como ele, em come\u00e7o de carreira. Estava t\u00e3o entusiasmado com a oportunidade que, do aeroporto Santos Dumont, foi direto para a emissora.<\/p>\n<p>Na coxia, enquanto esperava a hora de se apresentar, Jair foi abordado por um rapaz que disse ser compositor e lhe passou a letra de um samba. Era Alberto Paes, parceiro de Edson Menezes num samba, \u00e0 primeira vista, bem esquisito. Havia uma parte falada e s\u00f3 bem depois entrava a melodia.<\/p>\n<p>Jair ouviu o autor cantarolar. Estranhou. Mas, resolveu topar o desafio. N\u00e3o disse nem sim, nem n\u00e3o.<\/p>\n<p>No outro dia, j\u00e1 em S\u00e3o Paulo, resolveu \u2018passar\u2019 a m\u00fasica junto com os m\u00fasicos da boate Djalma, onde se apresentava. Aproveitaria para \u2018testar\u2019 se a coisa era boa ou ruim. Chamou o pianista Hermeto Pascoal para acompanh\u00e1-lo. Deu as coordenadas e come\u00e7ou o fraseado:<\/p>\n<p>&#8220;Deixa que digam<br \/>\nque pensem<br \/>\nque falem&#8230;<br \/>\nDeixa isso pra l\u00e1<br \/>\nVem pra c\u00e1<br \/>\nO que \u00e9 que tem.&#8221;<\/p>\n<p>Hermeto ficou assim embasbacado.<\/p>\n<p>Que ritmo era aquele?<\/p>\n<p>Para socorr\u00ea-lo, Jair involuntariamente come\u00e7ou a gesticular para marcar o ritmo. Fez um vaiv\u00e9m com uma das m\u00e3os. A cada movimento, alternava a palma da m\u00e3o para cima e para baixo. Hermeto, ao piano, entendeu a cad\u00eancia e come\u00e7ou a brincar com as teclas no ritmo. Pronto: estava criada a coreografia que marcou toda a carreira de Jair Rodrigues.<\/p>\n<p>&#8220;Eu n\u00e3o estou<br \/>\nfazendo nada.<br \/>\nVoc\u00ea tamb\u00e9m.<br \/>\nFaz mal bater<br \/>\num papo assim<br \/>\ngostoso com<br \/>\nalgu\u00e9m&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>Os m\u00fasicos e Jair se divertiram muito no ensaio. Tanto que \u00e0 noite, durante o show, o for\u00e7aram cant\u00e1-la na primeira oportunidade. Foi a mesma festa entre eles. Tanto que, quando Jair deu por si, estava de costa para a plat\u00e9ia a marcar o ritmo com as m\u00e3os e de frente para os m\u00fasicos. Percebeu o deslize e, de imediato, virou-se a tempo de ver que o p\u00fablico todo o imitava e caiu deliciosamente na gandaia quando come\u00e7ou a segunda parte.<\/p>\n<p>&#8220;Vai, vai por mim.<br \/>\nBalan\u00e7o de amor \u00e9 assim.<br \/>\nM\u00e3ozinha com m\u00e3ozinha pra c\u00e1.<br \/>\nBeijinhos com beijinhos pra l\u00e1&#8221;.<\/p>\n<p>Fechou quest\u00e3o ali. A m\u00fasica seria um sucesso.<\/p>\n<p>&#8220;Vem balan\u00e7ar<br \/>\namor \u00e9 balanceio, meu bem.<br \/>\nS\u00f3 vai no meu balan\u00e7o quem tem<br \/>\ncarinho para dar&#8221;.<\/p>\n<p>Pode ser um exagero. Mas, faz todo sentido.<br \/>\nH\u00e1 quem diga que Jair \u00e9 o primeiro rapper brasileiro.<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>\u201cAli, no Festival de 1966, praticamente come\u00e7ou a minha carreira. Tudo o que havia lutado e estava esperando, aconteceu. Veja bem, eu vinha da noite, era um cantor da noite. Cantava de tudo, desde aquelas m\u00fasicas fortes da \u00e9poca de Orlando Silva, Carlo Galhardo, Francisco Alves ao que pedisse a plat\u00e9ia. Tinha um repert\u00f3rio assim variado e vast\u00edssimo que me garantia como cantor.<\/p>\n<p>Quando fiz o meu primeiro sucesso em 1964, foi com \u201cDeixa Isso Pra L\u00e1\u201d, que n\u00e3o exigia uma grande interpreta\u00e7\u00e3o. \u201cDeixa que digam, que pensem, que falem. Deixa isso pra l\u00e1, vem pra c\u00e1, o que \u00e9 que tem. Eu n\u00e3o estou fazendo nada, voc\u00ea tamb\u00e9m&#8230;\u201d<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, ouvia da cr\u00edtica que eu era cantor de uma m\u00fasica s\u00f3, que n\u00e3o passaria daquilo.<\/p>\n<p>Quem \u00e9 que gosta de cr\u00edtica?<\/p>\n<p>Aceito uma cr\u00edtica, mas quando \u00e9 uma coisa verdadeira. Ali, eu sentia que n\u00e3o era.<\/p>\n<p>Precisei provar o contrario. Afinal, queria ser considerado um interprete da m\u00fasica popular brasileira. Queria ouvir as pessoas falarem bem. At\u00e9 que falavam. Mas, do Jair Rodrigues, menino extrovertido, o \u201cCachorr\u00e3o\u201d, sempre alegre e tal. Mas, na hora de me botar entre os da m\u00fasica popular, falavam que n\u00e3o tinha nada ver. Que era cantor de uma m\u00fasica s\u00f3.<\/p>\n<p>Quando me juntei a Elis para fazer o Fino da Bossa, pensei que ia mudar um pouco essa hist\u00f3ria. Mesmo assim, continuou. As gl\u00f3rias eram quase todas para Elis. Eu n\u00e3o passava de um partner, o que me deixava de p\u00e9 quebrado.<\/p>\n<p>Quando apareceu a m\u00fasica do Geraldo Vandr\u00e9 e do Th\u00e9o de Barros, e o Solano Ribeiro me indicou como int\u00e9rprete, a\u00ed o neg\u00f3cio mudou tudo. Lembro que veio algu\u00e9m l\u00e1 de cima (da TV Record) e disse:<\/p>\n<p>&#8212; Crioulo, \u00e9 a hora de mostrar o que sabe!<\/p>\n<p>Vamos embora, respondi.<\/p>\n<p>\u00c9 uma das m\u00fasicas mais dif\u00edceis de se cantar. A\u00ed, sim, provei o que sabia e era capaz. E deu tudo certo. A partir da\u00ed, vivi uma fase muito bonita, de \u201cliberou geral\u201d em todos os setores da minha carreira. Por isso, at\u00e9 hoje, eu tenho a m\u00fasica \u201cDisparada\u201d como meu carro chefe.<\/p>\n<p>Naquele ano, ainda a plat\u00e9ia n\u00e3o era agressiva. N\u00e3o aconteciam vaias. Vinha de uma experi\u00eancia, para mim, interessante. No Festival d 65, aina na TV Excelsior, cantei uma m\u00fasica chamada \u201cMo\u00e7a na Janela\u201d, do saudoso compositor do Recife. Era um samba sem nenhuma pretens\u00e3o. A m\u00fasica era bonita, mas n\u00e3o tinha for\u00e7a para um festival.Era s\u00f3 para participar. Se classificasse, tudo bem. Se n\u00e3o classificasse, tudo bem tamb\u00e9m. S\u00f3 que ela n\u00e3o ficou entre as finalistas. Mas, a mim, me deu uma certa bagagem.<\/p>\n<p>A bem da verdade, o festival da Excelsior foi todo meio assim. Uma experi\u00eancia que tanto poderia dar certo ou n\u00e3o. J\u00e1 o da Record foi feito com aquela parafern\u00e1lia toda. Sentiram o que a beleza que foi o festival da Excelsior e mandaram ver. A Record era a Globo da \u00e9poca. Entrou com tudo. Tanto \u00e9 que esse festival da Record colheu m\u00fasicas de todo o Brasil.<\/p>\n<p>N\u00e3o d\u00e1 para negar o belo momento, digamos, cultural que o Brasil vivia. Parece que a gente era mais focada. A pr\u00f3pria situa\u00e7\u00e3o do pa\u00eds era &#8211; \u00e9poca de recess\u00e3o &#8211; uma coisa fort\u00edssima. Parece que os compositores se aplicavam mais. Davam tudo de si. H\u00e1 muito tempo que a gente n\u00e3o v\u00ea uma m\u00fasica de sucesso como as de um Paulinho da Viola, um Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil. Nos anos 60, quando uma m\u00fasica era lan\u00e7ada, era um acontecimento. Havia todo um zum-zum-zum. Voc\u00ea ouviu a nova do Gil? Olha o que Chico disse na naquela m\u00fasica? E assim ia. Eram outros tempos&#8230;\u201d<\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>&#8220;Ainda em 66, defendi duas m\u00fasicas. Uma foi do Paulinho da Viola, que ficou em quarto lugar e chamava-se Can\u00e7\u00e3o para Maria. A outra foi Disparada que empatou em primeiro lugar com A Banda de Chico Buarque, cantada por ele e pela Nara Le\u00e3o. Em 67, defendi a m\u00fasica chamada O Combatente, de Valter Santos e Tereza Souza. A can\u00e7\u00e3o ficou entre as finalistas e a\u00ed j\u00e1 achei estranho porque todo mundo que entrava no palco era recebido com vaias de todos os lados. Enquanto estava cantando, eu olhava para o p\u00fablico. S\u00f3 escutava:<\/p>\n<p>&#8211; Uuuuuuuhhhhh!<\/p>\n<p>&#8211; Fora, fora, fora&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Sai da\u00ed. Fora! Sai da\u00ed!<\/p>\n<p>Cantava e pensava comigo:<\/p>\n<p>&#8212; Que diabo \u00e9 isso? Est\u00e3o aplaudindo ou est\u00e3o vaiando.<\/p>\n<p>Foi neste ano que o S\u00e9rgio Ricardo quebrou o viol\u00e3o. A m\u00fasica era dif\u00edcil. Uma homenagem ao Garrincha, de nome Beto Bom de Bola. As pessoas sequer quiseram ouvir, j\u00e1 vaiaram. Falaram que a m\u00fasica era ruim demais. Mas, que se deixasse ele cantar para ver. Eu n\u00e3o sei. As vaias n\u00e3o deixaram o S\u00e9rgio cantar. Ele se descontrolou. Quebrou o viol\u00e3o e jogou no audit\u00f3rio. O apresentador Blota J\u00fanior ainda tentou cont\u00ea-lo, mas n\u00e3o deu tempo&#8230;<\/p>\n<p>Isto foi j\u00e1 na final \u2013 e Beto Bom de Bola foi desclassificada. Mesmos assim, n\u00f3s, artistas, nos unimos para ficar ao lado do S\u00e9rgio Ricardo.<\/p>\n<p>Durante as eliminat\u00f3rias, esperava no corredor a hora de apresentar O Combatente e escutei de algu\u00e9m da alta c\u00fapula:<\/p>\n<p>&#8212; Puxa vida, n\u00e3o est\u00e1 acontecendo nada nesse festival. Est\u00e1 uma merda.<\/p>\n<p>Depois que aconteceu aquilo com o S\u00e9rgio Ricardo, ouvi da mesma pessoa:<\/p>\n<p>&#8212; Gra\u00e7as a Deus. At\u00e9 que enfim o festival est\u00e1 salvo.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o pensei comigo mesmo.<\/p>\n<p>&#8212; \u00c9 isso. Virou uma guerra. Tem que ser guerra mesmo. \u00c9 o que estavam esperando acontecer.<\/p>\n<p>Desde ent\u00e3o, perdeu a gra\u00e7a. Por mim, n\u00e3o mais participaria de festival nenhum. O Chico Buarque e outros compositores e int\u00e9rpretes tamb\u00e9m n\u00e3o queriam. Mas, \u00e9ramos contratados e t\u00ednhamos obriga\u00e7\u00e3o de participar.<\/p>\n<p>Pedi para o meu empres\u00e1rio, o falecido Corumba, da dupla Ven\u00e2ncio e Corumba, se eu poderia sair.<\/p>\n<p>Ele disse:<\/p>\n<p>&#8212; Voc\u00ea n\u00e3o pode sair. Voc\u00ea \u00e9 contratado e tem de participar de todos os eventos musicais. E eu participei de todos e foi bravo.<\/p>\n<p>Em 68, cantei a m\u00fasica do Vinicius de Moraes, Samba de Maria. S\u00f3 cantei uma. Faltou uma nota de um jurado para eu ganhasse como melhor interprete. J\u00e1 era unanimidade. Entrei como favorito ao melhor int\u00e9rprete, mas os jurados n\u00e3o deram o pr\u00eamio para mim. N\u00e3o ganhei nada. Em 69, teve a Bienal do Samba, uma esp\u00e9cie de prepara\u00e7\u00e3o para esperar o festival. A f\u00f3rmula estava dando sinais de desgaste e quiseram dar uma for\u00e7a. Defendi \u201cCanto Geral\u201d que ficou em quarto lugar e a Elis ganhou com Lapinha, de Baden Power. Mas, a coisa estava brava.<\/p>\n<p>Tanto que no festival de 69 as \u2018feras\u2019 j\u00e1 n\u00e3o participaram. Chico, Gil, Caetano, Elis \u2013 todos ficaram de fora. Quem venceu foi Paulinho da Viola, com a m\u00fasica Sina Fechado. Assim se encerrou o ciclo dos festivais da TV Record. Foi uma parte bonita da nossa hist\u00f3ria.&#8221;<\/p>\n<p>IV.<\/p>\n<p>J\u00e1 havia escutado a hist\u00f3ria da voz do pr\u00f3prio Milton Nascimento, mineiro de Tr\u00eas Pontas. Depois de alguns anos, a ouvi de novo. Desta feita, quem me contou foi o paulista de Igarapava, Jair Rodrigues \u2013 e esta segunda vers\u00e3o que passo a voc\u00eas.<\/p>\n<p>Foi l\u00e1 nas quebradas de 1965. Jair ainda cantava na noite para defender uns trocados, mas j\u00e1 tinha um certo nome na pra\u00e7a, disco gravado, convites para shows, essas coisas de in\u00edcio de carreira. Certa manh\u00e3, o amigo Nino, que dividia com ele o palco da famos\u00edssima boate Djalma, lhe telefonou para fazer um pedido. Coisa de irm\u00e3o mesmo.<\/p>\n<p>&#8212; Olha, Jair, tem um rapaz que divide a pens\u00e3o comigo l\u00e1 na Marques de Itu. Ele \u00e9 bom pra caramba. Canta, comp\u00f5e, veio de Minas e est\u00e1 \u00e0 procura de uma chance. Tenho ajudado no que posso. S\u00f3 que meu quarto j\u00e1 \u00e9 pequeno. E n\u00e3o est\u00e1 dando para segurar o cara l\u00e1. Mas, ele tem m\u00fasicas maravilhosas. Voc\u00ea n\u00e3o poderia ouvi-lo e hosped\u00e1-lo por uns tempos.<\/p>\n<p>Jair sabia bem as dificuldades de vir do Interior para come\u00e7ar a vida numa cidade como S\u00e3o Paulo. Por isso, n\u00e3o titubeou. Sempre ouviu dizer que uma m\u00e3o lava a outra. Com ele, tamb\u00e9m foi muito parecido. Era hora de retribuir.<\/p>\n<p>&#8212; Traz a fera aqui.<\/p>\n<p>Foi assim que ele conheceu o Bituca, um certo Milton Nascimento. Logo, no primeiro encontro, Milton mostrou todas as m\u00fasicas, inclusive a tocante Morro Velho que depois, bem depois, Elis gravou. Por uns tempos, o novato morou com num quarto na casa do cantor. Mo\u00e7o de h\u00e1bitos simples, era de uma timidez de assustar para quem sonhava ser artista de palco e TV.<\/p>\n<p>Para Jair, a vida seguia uma trilha natural de sucesso. No r\u00e1dio e come\u00e7ava aparecer tamb\u00e9m na TV.<\/p>\n<p>&#8212; Quase n\u00e3o o via porque eu j\u00e1 tinha uma vida atribulada. Fazia shows, cantava na noite. Mas, sempre que o encontrava, ele estava com o viol\u00e3o e um caderno em que rabiscava as letras de suas can\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Nessa \u00e9poca, Jair era muito amigo de outro grande cantor negro, Agostinho dos Santos. Toda quarta-feira eles se encontravam para jogar futebol. Jair era lateral-esquerdo. Agostinho, um bom zagueiro central. Diziam que repetia no campo o estilo elegante que o consagrou como um cantor pr\u00e9-bossa nova.<\/p>\n<p>Jair n\u00e3o lembra se numa dessas idas \u00e0 sua casa para o futebol Agostinho conheceu Milton. \u00c9 prov\u00e1vel, mas n\u00e3o tem certeza. Certo mesmo \u00e9 que Agostinho encantou-se com as m\u00fasicas do Bituca. Tanto que por conta e risco as inscreveu no Festival Internacional da Can\u00e7\u00e3o, que a Globo realizou no Rio de Janeiro. O t\u00edmido Bituca jamais cometeria tal ousadia. Resultado: a bel\u00edssima \u201cTravessia\u201d ecoou soberana no Maracan\u00e3zinho. Versos concisos, melodia que a todos envolveu. N\u00e3o venceu. Ficou em terceiro lugar, mas Milton foi escolhido como melhor int\u00e9rprete. A partir da\u00ed, \u00e9 a hist\u00f3ria que todos conhecemos.<\/p>\n<p>Fala Jair:<\/p>\n<p>&#8212; Quando era solteiro vivia mudando de casa. N\u00e3o par\u00e1vamos. N\u00e3o t\u00ednhamos aquela coisa de guardar coisas. \u00cdamos deixando tudo pelo caminho. Muda daqui, muda dali. Num desses vaiv\u00e9m, lembro que, certa dia, achei o caderno do Milton com os rascunhos da letra de Travessia. Que beleza. Tamb\u00e9m encontrei umas partituras do Ivan Lins que fez, l\u00e1 em casa, o arranjo de n\u00e3o sei que m\u00fasica. Guardei por uns tempos. Mas, outras mudan\u00e7as vieram e sei l\u00e1 onde foi parar. Se eu os tivesse guardado, hein? Seria uma rel\u00edquia inestim\u00e1vel daqueles tempos. Mas, tudo bem, valeu a lembran\u00e7a de conviver com esse pessoal, de um talento extraordin\u00e1rio.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma ensolarada ter\u00e7a-feira de agosto de 2000.<\/p>\n<p>Eu e o rep\u00f3rter-fotogr\u00e1fico An\u00edsio Assun\u00e7\u00e3o estamos diante de um grande port\u00e3o de madeira numa estreita estrada em Cotia, munic\u00edpio da Grande S\u00e3o Paulo.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[4],"tags":[],"class_list":["post-10803","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-leia-esta-cancao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10803","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10803"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10803\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":13852,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10803\/revisions\/13852"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10803"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10803"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10803"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}