{"id":10938,"date":"1979-09-06T00:00:00","date_gmt":"1979-09-06T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-13T19:09:24","modified_gmt":"2017-09-13T19:09:24","slug":"a-cintilancia-de-gil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/a-cintilancia-de-gil\/","title":{"rendered":"A cintil\u00e2ncia de Gil"},"content":{"rendered":"<p>&#8212; As coisas mais simples s\u00e3o, seguramente, as mais profundas \u2013 e vice-versa. Uma das poucas certezas que tenho \u00e9 a de que os homens se comportam, desde os tempos n\u00e3o registrados pela hist\u00f3ria, como uma manada. H\u00e1 os que amam, os que t\u00eam f\u00e9 neles mesmos e em suas pequenas, infinitas descobertas. Essa tribo sempre foi necess\u00e1ria e odiada. \u00c9 a minha. Diminuta, composta por quem aprende a harmonia, o belo \u2013 e que se nutre de amplos espa\u00e7os que os outros s\u00f3 ocupar\u00e3o muito tempo depois.<\/p>\n<p>A declara\u00e7\u00e3o em ep\u00edgrafe, feita h\u00e1 alguns anos pelo \u2018maldito\u2019 Walter Franco, se encaixa adequadamente quando se busca uma defini\u00e7\u00e3o para a obra do compositor\/int\u00e9rprete Gilberto Passos Gil Moreira. Um fagueiro cidad\u00e3o baiano que, aos 38 anos, mant\u00e9m em evid\u00eancia um dos trabalhos mais criativos da chamada linha evolutiva da nossa m\u00fasica popular.<\/p>\n<p>\u201cRealce\u201d, o mais recente elep\u00ea editado pela WEA, sublinha essa afirma\u00e7\u00e3o com vigorosa energia. Trata-se, na verdade, de um disco otimista num tempo mais chegado a crises e ang\u00fastias. Com clima de festa e universalidade. \u00c9 um \u201csal\u00e1rio m\u00ednimo de cintil\u00e2ncia\u201d, salientou o m\u00fasico no empolgante show de lan\u00e7amento que fez em S\u00e3o Paulo e com o qual pretende percorrer todo o Brasil.<\/p>\n<p>&#8212; \u201cRealce\u201d \u00e9 a reafirma\u00e7\u00e3o da necessidade do po\u00e9tico, do l\u00fadico no meio das m\u00e1quinas. \u00c9 a socializa\u00e7\u00e3o do luxo. Um sal\u00e1rio m\u00ednimo de cintil\u00e2ncia a que todos t\u00eam direito. Um m\u00ednimo de desfrute, de lazer e de prazer.<\/p>\n<p>O novo disco completa a trilogia iniciada com \u201cRefazenda\u201d (de 75, a ocupar o espa\u00e7o rural) e \u201cRefavela\u201d (com base num espa\u00e7o cultural negro, em 77). Intercalam-se outros lan\u00e7amentos significativos: o exuberante Gil Jorge (gravado em 75, ao lado de Jorge Ben), \u201cGilberto Gil ao Vivo\u201d e \u201cNightingale\u201d, ambos em 78. O primeiro registra o entusiasmo contagiante de sua participa\u00e7\u00e3o no Festival de Jazz de Montreaux enquanto \u201cNightinghale\u201d foi produzido exclusivamente para o mercado norte-americano.<\/p>\n<p>(Em tempo. Nesse per\u00edodo Gil ainda gravou os circunstanciais \u201cRefestan\u00e7a\u201d (Som Livre), com Rita Lee e \u201cAntologia do Samba Choro\u201d (Polygran), com Germano Mathias.)<\/p>\n<p>\u201cRealce\u201d foi gravado nos Estados Unidos, com irrepreens\u00edvel esmero t\u00e9cnico e musical.<\/p>\n<p>&#8212; Todo m\u00fasico brasileiro sonha chegar a Holywood, brincou o cantor na coletiva \u00e0 Imprensa.<\/p>\n<p>Suas nove faixas destilam a energia pura de seu indom\u00e1vel criador.<\/p>\n<p>A saber:<\/p>\n<p>\u201cRealce\u201d \u00e9 um embalado brazilian-funk que apregoa em seus versos a ess\u00eancia de todo o trabalho: \u201cRealce, realce\/ Quanto mais purpurina melhor\u201d. A seguir vem \u201cSarar\u00e1 Miolo\u201d, j\u00e1 gravada em dueto com Nara Le\u00e3o e inclu\u00eddo tamb\u00e9m em \u201cNightingale\u201d. \u201cSuper-homem \u2013 A Can\u00e7\u00e3o\u201d \u00e9 uma balada convencional que retoma a tem\u00e1tica da afei\u00e7\u00e3o sem preconceito de \u201cPai e M\u00e3e\u201d e \u201cF\u00e9 Menino\u201d. \u201cTradi\u00e7\u00e3o\u201d, um samba no melhor estilo Gil, fecha o lado A sem fugir a esse assunto: a feminilidade.<\/p>\n<p>Gil explica:<\/p>\n<p>&#8212; Acho que o mundo est\u00e1 do jeito que est\u00e1 por ser exageradamente masculino. De terno e gravata. Feito pelo homem. Viril e amea\u00e7ador. J\u00e1 \u00e9 tempo, e como artista entendo assim, de se reequilibrar os pesos at\u00e9 por uma quest\u00e3o ecol\u00f3gica mesmo. Dar o devido realce ao que \u00e9 feminino. Se ver\u00e3o o apogeu da primavera. Mas, s\u00f3 por ela ser&#8230;<\/p>\n<p>O lado B com a discutida leitura para a insinuante \u201cMarina\u201d, de Dorival Caymmi.<\/p>\n<p>&#8212; Os cr\u00edticos que se ag\u00fcentem, responde Gil.<\/p>\n<p>Em \u201cRebento\u201d, outro samba chapado, o autor discorre sobe \u201co ato, a cria\u00e7\u00e3o e o seu momento\u201d. \u201cToda Menina Baiana\u201d traz um poeta a alardear, orgulhoso, as primazias das baianas que Deus entendeu dar. A seguir, vem \u201cLoguned\u00e9\u201d (um suave mergulho no flanco africano da Bahia) e o disco se encerra com o must \u201cN\u00e3o Chore Mais\u201d.<\/p>\n<p>Apenas um reparo a fazer.<\/p>\n<p>Realce\/show merecia uma temporada maior que os mi\u00fados dois dias que permaneceu em S\u00e3o Paulo. Por uma carreada de raz\u00f5es. Mas, especialmente pelo fato de que o espet\u00e1culo mostra um Gil literalmente m\u00e1gico e endiabrado, no melhor sentido da palavra. Ou na exata dimens\u00e3o que seu protagonista lhe d\u00e1:<\/p>\n<p>&#8212; Ser a noite na discotheque depois de um dia de trabalho, ser o futebol no fim de semana (&#8230;) \u201cRealce\u201d \u00e9 a soma de tudo isso. A religiosidade sem seitas dos templos profanos. O espa\u00e7o dos an\u00f4nimos de todas as ra\u00e7as.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8212; As coisas mais simples s\u00e3o, seguramente, as mais profundas \u2013 e vice-versa. 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