{"id":11143,"date":"2008-10-29T00:00:00","date_gmt":"2008-10-29T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:47:18","modified_gmt":"2017-09-15T19:47:18","slug":"reino-infantil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/reino-infantil\/","title":{"rendered":"Reino Infantil"},"content":{"rendered":"<p>O Velho Aldo chegou em casa para almo\u00e7ar no hor\u00e1rio de costume. Pouco depois das onze. Al\u00e9m do Di\u00e1rio da Noite, dobrado embaixo do bra\u00e7o, carregava um caixa de papel\u00e3o de uns 60 cent\u00edmetros de cumprimento. Parecia pesar um tanto. O Velho sorria como costumava sorrir sempre que aprontava alguma. Poderia ser \u2018perder\u2019 um dinheirinho a mais na corrida de cavalos ou sumir noite adentro com os amigos Floriano e Milton. As duas presepadas deixavam a m\u00e3e p\u00ea da vida. Mas, ele tinha sempre uma boa resposta (desculpa) e tudo terminava bem.<\/p>\n<p>A m\u00e3e olhou espantada. Mas ele nem esperou a pergunta:<\/p>\n<p>&#8212; \u00c9 para o moleque!<\/p>\n<p>O moleque era eu que acabara de me alfabetizar e ficava horas a fio lendo os meus gibis favoritos \u2013 Cavaleiro Negro, Zorro, Fantasma e o imbat\u00edvel Roy Rogers. N\u00e3o havia TV em casa e, no r\u00e1dio, a m\u00e3e s\u00f3 ouvia chorosas novelas. Verdade verdadeira. Lembro at\u00e9 hoje o nome do gal\u00e3 e da mocinha de quase todas tramas, que come\u00e7avam \u00e0s 8 da manh\u00e3 e iam at\u00e9 a noite \u2013 \u00c9zio Ramos e Gilmara Sanches e trabalhavam na r\u00e1dio S\u00e3o Paulo. <\/p>\n<p>Perguntem a qualquer memorialista da hist\u00f3ria do r\u00e1dio para ver se n\u00e3o \u00e9 verdade? Pois \u00e9. N\u00e3o \u00e9 que reclamasse do gosto da m\u00e3e porque nunca fui de reclamar. Digo mesmo que, \u00e0s vezes, at\u00e9 me emocionavam todos aqueles amores imposs\u00edveis. Mas, aos sete ou oito anos, seguramente n\u00e3o era a minha praia. O que me encantava mesmo eram as aventuras dos her\u00f3is em quadrinhos &#8211; quase todos her\u00f3is do Velho Oeste.<\/p>\n<p>Ao perceber meu interesse, o Ald\u00e3o n\u00e3o pensou duas vezes quando o Sr. Judah invadiu a f\u00e1brica de tecidos onde o pai trabalhava oferecendo cole\u00e7\u00f5es de livros a pre\u00e7os m\u00f3dicos e em suaves presta\u00e7\u00f5es. O neg\u00f3cio saiu rapidinho. Desconfio que ele pechinchou por pechinchar, mas n\u00e3o fez quest\u00e3o nem do papel de embrulho.<\/p>\n<p>Logo estava em casa com a misteriosa caixa. Como n\u00e3o era meu anivers\u00e1rio, estranhei a generosidade do pai. Desconfiei. Tinha quatro para cinco anos quando ganhei um bondinho em troca de \u201cme comportar\u201d enquanto o m\u00e9dico me operava as am\u00edgdalas. <\/p>\n<p>Ao abrir a caixa, naquela manh\u00e3, prognosticou:<\/p>\n<p>&#8212; Quero ver meu filho doutor.      <\/p>\n<p>Imaginei, ent\u00e3o, que fosse um daqueles jogos que imitavam equipamentos m\u00e9dicos. Era a minha chance de ir a forra e as v\u00edtimas seriam as bonecas e os bichos de pel\u00facia das minhas irm\u00e3s. Seria a minha vez de oper\u00e1-los sem d\u00f3, nem piedade. Come\u00e7aria pelo maior deles&#8230;<\/p>\n<p>Logo meu desejo de vingan\u00e7a se evaporou. Dentro da caixa, havia apenas e magicamente livros. Dez. Todos os volumes com capa dura e verde \u00e1gua. Diferente dos gibis, tinham poucas ilustra\u00e7\u00f5es. Apenas um nome estampado em dourado sobre um fundo vermelho na lombada de cada tomo:<\/p>\n<p>COLE\u00c7\u00c3O REINO INFANTIL <\/p>\n<p>Traziam hist\u00f3rias orientais. De reis, rainhas, princesas, pr\u00edncipes, cavaleiros, magos&#8230; Um mundo l\u00fadico que eu desconhecia e onde a verdade sempre prevalecia.<\/p>\n<p>Ainda hoje os tenho comigo. Na parte nobre da minha estante. Prometo folhe\u00e1-los amanh\u00e3, 30 de outubro, em rever\u00eancia ao Dia Nacional do Livro. Afinal foram os primeiros que ganhei &#8211; e desconfio a raz\u00e3o do que hoje sou.<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, nem sei se o Velho Aldo, se hoje pudesse me ver, aprovaria?<\/p>\n<p>O menino n\u00e3o virou doutor. <\/p>\n<p>Virou contador de hist\u00f3rias&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Velho Aldo chegou em casa para almo\u00e7ar no hor\u00e1rio de costume. Pouco depois das onze. 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