{"id":11153,"date":"2008-11-06T00:00:00","date_gmt":"2008-11-06T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:47:17","modified_gmt":"2017-09-15T19:47:17","slug":"a-dancarina","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/a-dancarina\/","title":{"rendered":"A dan\u00e7arina"},"content":{"rendered":"<p>N\u00e3o era exatamente uma mulher bonita. <\/p>\n<p>Mas, tinha porte&#8230;<\/p>\n<p>&#8230; e uma filha pequena. <\/p>\n<p>Morava numa casa de c\u00f4modos perto da minha, no Cambuci. <\/p>\n<p>Era o que \u00e0 \u00e9poca, anos 50, se chamava de \u201cmulher de 30\u201d ou balzaquiana. <\/p>\n[A depender do gosto do fregu\u00eas. Se ouvia o samba do cantor Miltinho ou se lera o cl\u00e1ssico de Balzac.] <\/p>\n<p>Ela sa\u00eda todas as noites. Vestia-se de forma extravagante, mas sem causar esc\u00e2ndalos. Seus cabelos eram longos e tingidos de preto. <\/p>\n<p>Sempre que a v\u00edamos, fic\u00e1vamos ouri\u00e7ados. <\/p>\n<p>Entendam: \u00e9ramos garotos; onze, doze anos. <\/p>\n<p>Quer\u00edamos desvendar o mist\u00e9rio.<\/p>\n<p>Para todos os efeitos, era dan\u00e7arina de um dancing no Centro de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>Mas, ouv\u00edamos coisas sobre ela.<\/p>\n<p>Coisas que nos faziam sonhar&#8230;<\/p>\n<p>Lembro do sil\u00eancio retumbante que cercavam seus passos, l\u00e2nguidos, altivos, quando por n\u00f3s passava. Respir\u00e1vamos aquele perfume forte. Por algum tempo, permanecia o cheiro do pecado.<\/p>\n<p>Pecado, sim. <\/p>\n<p>As mulheres da rua eram cru\u00e9is. N\u00e3o lhe tinham amizade. Sequer gostavam que os filhos brincassem com \u201caquela l\u00e1\u201d. Ou seja, a filha da dan\u00e7arina.<\/p>\n<p>N\u00e3o entend\u00edamos a obje\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A garotinha tinha tr\u00eas ou quatro anos e era educadinha, simp\u00e1tica. Qual o problema de brincar com nossos irm\u00e3os menores?<\/p>\n<p>Para os garotos da rua, por\u00e9m, ver a dan\u00e7arina passar era momento \u00fanico. De encantamento e certas inquieta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Quem seria o amante?<\/p>\n<p>Seria mais do que um?<\/p>\n<p>Sent\u00edamos, confesso, um indiz\u00edvel ci\u00fames do que a nossa musa iria viver noite afora. <\/p>\n<p>Prefer\u00edamos nos iludir.<\/p>\n<p>E se ela fosse apenas uma dan\u00e7arina a quem os homens pagavam para dar algumas voltas no sal\u00e3o e imaginarem-se amados e belos \u00e0 la Fred Astaire?<\/p>\n<p>Mas, acreditem, a d\u00favida maior n\u00e3o era nossa. Espalhava-se rua afora e atormentava as respeit\u00e1veis senhoras do lugar, especialmente todo fim de tarde quando as donas de casa sa\u00edam ao port\u00e3o para esperar os respectivos maridos voltarem do trabalho. Enquanto a crian\u00e7ada brincava, elas \u2018cortavam\u2019 a vida alheia. Assim que a menininha aparecia com a m\u00e3e, a tal pergunta pairava solta no ar. Amea\u00e7adora, e dolorida:<\/p>\n<p>Quem seria o pai de garotinha? <\/p>\n<p>As senhoras agonizavam de curiosidade. Mas, preferiam contornar o assunto. <\/p>\n<p>Ningu\u00e9m ousava por a m\u00e3o no fogo pelo pr\u00f3prio marido.<\/p>\n<p>Nesse ponto, elas se pareciam com a gente no quesito &quot;de ilus\u00e3o tamb\u00e9m se vive&quot;.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o era exatamente uma mulher bonita. <\/p>\n<p>Mas, tinha porte&#8230;<\/p>\n<p>&#8230; e uma filha pequena. <\/p>\n<p>Morava numa casa de c\u00f4modos perto da minha, no Cambuci. <\/p>\n<p>Era o que \u00e0 \u00e9poca,<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-11153","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-blog"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11153","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11153"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11153\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":16787,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11153\/revisions\/16787"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11153"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11153"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11153"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}