{"id":11154,"date":"2008-11-07T00:00:00","date_gmt":"2008-11-07T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:47:17","modified_gmt":"2017-09-15T19:47:17","slug":"a-licao-do-ze-jofre","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/a-licao-do-ze-jofre\/","title":{"rendered":"A li\u00e7\u00e3o do Z\u00e9 Jofre"},"content":{"rendered":"<p>&#8211; Patr\u00e3o bom nasce morto!<\/p>\n<p>A frase ecoava forte, solene na velha reda\u00e7\u00e3o assoalhada, onde comecei meus dias de rep\u00f3rter.<\/p>\n<p>Quem a dizia em tom solene, professoral era o velho Z\u00e9 Jofre. \u00c0 \u00e9poca, devia andar pelos 60 e lhe eram inconfund\u00edveis o sotaque cearence e a crueza com que tratava a vida. <\/p>\n<p>N\u00e3o poupava quem estava no poder.<\/p>\n<p>Socialista, dedicara os anos da juventude \u00e0 luta em prol da causa.<\/p>\n<p>Come\u00e7ou como gr\u00e1fico, passou pelo jornalismo e, quando o conheci, era chefe do Departamento de Distribui\u00e7\u00e3o do jornal. A ditadura o afastara da reportagem e dos textos. Era mais seguro \u201cesconder-se\u201d num cargo administrativo.<\/p>\n<p>Para a alegria dos mais jovens, era presen\u00e7a di\u00e1ria na reda\u00e7\u00e3o. Beb\u00edamos da sua fonte. Ele, em contrapartida, nos espica\u00e7ava \u2013 especialmente, a mim, estudante de jornalismo da USP, filho de oper\u00e1rio e \u2018revoltadinho\u2019 por natureza.<\/p>\n<p>&#8212; Voc\u00ea \u00e9 um burguesinho alienado&#8230;<\/p>\n<p>Era a ofensa maior que pod\u00edamos receber: ser chamado de burgu\u00eas e, pior, \u201calienado\u201d.<\/p>\n<p>Tent\u00e1vamos argumentar. Ensai\u00e1vamos um discurso de oposi\u00e7\u00e3o para nos defender e mostrar que ele estava errado. Mas, ele quebrava todos os nossos pontos de vista. N\u00e3o satisfeito nos esnobava:<\/p>\n<p>&#8212; O que voc\u00eas aprendem na universidade?<\/p>\n<p>Lembrava que era autodidata. Nunca freq\u00fcentou escola \u2013 e, ria, sabia mais do que todos n\u00f3s. Para completar se punha a discorrer sobre livros, fatos hist\u00f3ricos, poesia e autores. O russo Fiodor Dostoyevsky era o preferido.<\/p>\n<p>&#8212; Leiam! Leiam!<\/p>\n<p>Era uma ordem que, obedientes e fascinados, trat\u00e1vamos de seguir. <\/p>\n<p>Uma bela manh\u00e3, Z\u00e9 Jofre anunciou que iria embora. Agora era com a gente. In\u00edcio dos anos 80, o pa\u00eds dava sinais claros de redemocratiza\u00e7\u00e3o. Foi morar em Bonito, Mato Grosso, numa casinha \u00e0 beira do rio. Um sobrinho a construiu especialmente para o tio solteir\u00e3o e \u201cmaluco das id\u00e9ias\u201d.<\/p>\n<p>De l\u00e1, nos escrevia semanalmente. Enviava cart\u00f5es postais e recortes de jornais e revistas que achava relevante para nossa forma\u00e7\u00e3o e entendimento do mundo. <\/p>\n<p>Soubemos da sua morte por meio de um telegrama que chegou \u00e0 reda\u00e7\u00e3o. S\u00f3 ent\u00e3o reparamos que as correspond\u00eancias haviam rareado. Ficamos desolados, tristes que s\u00f3. Burguesinhos alienados que \u00e9ramos, nem nos apercebemos do desaparecimento do amigo e mestre. <\/p>\n<p>Por sorte, outro mestre, o Nasci, ao ver nosso abatimento, fez quest\u00e3o de lembrar:<\/p>\n<p>&#8212; Esqueceram a li\u00e7\u00e3o que o Z\u00e9 Jofre quis passar para n\u00f3s? Pois, ent\u00e3o: agora \u00e9 com a gente&#8230;<\/p>\n[Texto publicado no livro &quot;Meus Caros Amigos \u2013 Cr\u00f4nicas sobre jornalistas, bo\u00eamios e paix\u00f5es&quot;]\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8211; Patr\u00e3o bom nasce morto!<\/p>\n<p>A frase ecoava forte, solene na velha reda\u00e7\u00e3o assoalhada, onde comecei meus dias de rep\u00f3rter.<\/p>\n<p>Quem a dizia em tom solene, professoral era o velho Z\u00e9 Jofre.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-11154","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-blog"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11154","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11154"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11154\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":16786,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11154\/revisions\/16786"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11154"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11154"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11154"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}