{"id":11166,"date":"2008-11-19T00:00:00","date_gmt":"2008-11-19T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:46:31","modified_gmt":"2017-09-15T19:46:31","slug":"o-motoboy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/o-motoboy\/","title":{"rendered":"O motoboy"},"content":{"rendered":"<p>Ele tem 20 anos. Mulher e filho pequeno. N\u00e3o sei onde mora, mas certamente em alguma quebrada da periferia paulistana. \u00c9 motoboy. Roda 400 quil\u00f4metros por dia. Uns 350 na empresa de um tal  Sr. Rafael e o outro tanto como entregador em uma pizzaria perto do que chamou de \u201ccafofo\u201d. Faz o turno da noite. Houve um tempo em que emendava um terceiro expediente, madrugada a fora, numa gr\u00e1fica. Foi logo que o garoto nasceu. Quem p\u00f4s fim \u00e0 jornada de 18 horas foi a pr\u00f3pria m\u00e3e. Um dia, quando ele chegou \u00e0 gr\u00e1fica, ela j\u00e1 estava l\u00e1 e fez com que o mandassem embora. <\/p>\n<p>Ainda lembra o esc\u00e2ndalo que a m\u00e3e fez: <\/p>\n<p>&#8212; Esse menino n\u00e3o dorme. Assim vai acabar se matando&#8230;<\/p>\n<p>O motoboy tentou se defender:<\/p>\n<p>&#8212; M\u00e3e, se eu n\u00e3o pegar pesado agora que sou jovem, quando vou pegar? Depois de coroa?<\/p>\n<p>Rapidinho, deram-lhe a conta.<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>Na fila do banco, o rapaz moreno conversa com a amiga. Espera a vez de ser atendido pelo caixa com o capacete encaixado no bra\u00e7o. Traz na outra m\u00e3o um alentado envelope bege e dou gra\u00e7as a Deus por estar dois postos \u00e0 sua frente. Estou imune ao risco de ver a derrama de documentos que espalhar\u00e1 pelo guich\u00ea \u2013vai demorar, no m\u00ednimo, uns 20 minutos para a mo\u00e7a do caixa livrar-se daquilo tudo \u2013 e a uma dist\u00e2ncia suficiente para ouvir suas hist\u00f3rias, sempre entremeadas pela express\u00e3o \u201cmano\u201d.<\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>Ele fala em tom orgulhoso, certo que todos estamos ouvindo.<\/p>\n<p>Quando era jovem, ele gostava de emendar uma balada atr\u00e1s da outra. Aprontou todas. Ou melhor, quase todas. <\/p>\n<p>&#8212; Comecei a andar com gente errada, mano. Mas logo vi que aquele caminho era sem volta.<\/p>\n<p>Foi o tio que deu o toque, na boa:<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o vai por a\u00ed, ele disse. E eu n\u00e3o fui, mano.<\/p>\n<p>IV.<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, ele considera esse tio (irm\u00e3o da m\u00e3e) como a um pai. O primo tem at\u00e9 ci\u00fames. <\/p>\n<p>&#8212; Meu pai mesmo s\u00f3 me reconheceu porque a m\u00e3e p\u00f4s ele no pau. Sen\u00e3o, mano, o velho n\u00e3o me reconheceria nunquinha.<\/p>\n<p>Certa vez, os dois se encontraram. Ele foi franco. Disse que o que pensava, na lata:<\/p>\n<p>&#8212; Meu pai \u00e9 o meu tio. Voc\u00ea eu trato pelo nome e \u00e0 dist\u00e2ncia.<\/p>\n<p>O pai biol\u00f3gico at\u00e9 chorou. Mas, ele nem se comoveu.<\/p>\n<p>&#8212; Pai n\u00e3o \u00e9 quem faz, \u00e9 quem cria, mano.<\/p>\n<p>V.<\/p>\n<p>Falou e disse com a autoridade de um jovem senhor, ainda que com cara e roupa de menino que h\u00e1 pouco deixou de ser. Ele garante que tem suas raz\u00f5es. Afinal, \u00e9 pai de um garoto de quase tr\u00eas anos. Raz\u00e3o de sua vida hoje.<\/p>\n<p>&#8212; \u00d4, nem sei, mano. Depois que o menin\u00e3o nasceu, minha vida mudou. Parei com tudo. Sou outro cara. \u00c9 minha vida, mano&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ele tem 20 anos. Mulher e filho pequeno. 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