{"id":11285,"date":"2008-11-03T00:00:00","date_gmt":"2008-11-03T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-14T03:59:20","modified_gmt":"2017-09-14T03:59:20","slug":"era-uma-vez","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/era-uma-vez\/","title":{"rendered":"Era uma vez&#8230;*"},"content":{"rendered":"<p>Epa! Epa! Epa!<\/p>\n<p>Nesse convers\u00ea sobre livros, quase deixo escapar um autor marcante na minha meninice: <\/p>\n<p>Malba Tahan. <\/p>\n<p>Malba Tahan, na verdade, era o pseud\u00f4nimo do professor J\u00falio C\u00e9sar de Mello e Souza que escrevia hist\u00f3rias curtas, sempre com fundamento nas tradi\u00e7\u00f5es orientais. De primeira assim, lembro de dois t\u00edtulos \u201cO Homem Que Calculava\u201d e \u201cContos de Malba Tahan\u201d.<\/p>\n<p>No entanto, uma hist\u00f3ria permanece ainda hoje em minha mem\u00f3ria. <\/p>\n<p>N\u00e3o lembro o t\u00edtulo, nem nada. Mas, a ess\u00eancia da hist\u00f3ria eu n\u00e3o esque\u00e7o.<\/p>\n<p>Vou cont\u00e1-la com minhas palavras.<\/p>\n<p>Era uma vez&#8230;<\/p>\n<p>&#8230; um poderoso rei que tinha tr\u00eas filhas. Por ser vi\u00favo, decidiu que uma das filhas deveria ascender ao trono j\u00e1 como rainha. Para tanto, estabeleceu uma prova entre elas para que mostrassem suas habilidades e compet\u00eancias. <\/p>\n<p>Cada uma delas deveria viajar mundo afora e lhe trazer uma oferenda. A mais valiosa delas daria a cor\u00f4o \u00e0 princesa respons\u00e1vel.<\/p>\n<p>Assim que as princesas partiram, o rei virou a ampulheta a contar o tempo de aus\u00eancia das filhas queridas&#8230;<\/p>\n<p>Gr\u00e3o a gr\u00e3o de areia, o tempo escoou&#8230;<\/p>\n<p>Ainda faltavam alguns dias quando a filha mais velha retornou. Reverenciou a presen\u00e7a do pai e lhe entregou uma espada cravejada em ouro e brilhante que buscou, depois de enfrentar c\u00e9us e mares, nos confins de um continente distante.<\/p>\n<p>O rei ficou feliz. <\/p>\n<p>Esperou, no entanto, a chegada das outras duas princesas para dar o veredicto.<\/p>\n<p>Dias mais tarde, chegou a segunda princesa. Ela, por sua vez, n\u00e3o temeu vales e montanhas, o sol implac\u00e1vel e o deserto, para encontrar uma prenda que fosse digna da magnific\u00eancia do monarca. Trouxe-lhe um anel com a pedra de diamante de raro brilho azulado, que pertencera a um dos poderosos fara\u00f3s do Egito.<\/p>\n<p>Ao comparar os dois presentes, o rei hesitou em decidir-se.<\/p>\n<p>Mas, ficou radiante de felicidade. Suas duas filhas o amavam.<\/p>\n<p>Tinha certeza que a teceira, a ca\u00e7ula, n\u00e3o o decepcionaria. Ela, que sempre fora t\u00e3o amorosa, n\u00e3o tardaria a chegar&#8230;<\/p>\n<p>PARTE 2<\/p>\n<p>S\u00f3 quando os \u00faltimos gr\u00e3os de areia se desprenderam da parte de cima da ampulheta \u2013 e o prazo de retorno das princesas se esgotava \u2013 foi anunciada a chegada da filha mais jovem do rei. Trajava roupas modestas, de camponesas, e contou ao pai que passara todo aquele per\u00edodo reclusa num convento situado pouco al\u00e9m da linha do horizonte, entre ora\u00e7\u00f5es e penit\u00eancias. Sob a orienta\u00e7\u00e3o de religiosas, meditara o qu\u00ea de mais valioso existe na Terra para presente\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Ato cont\u00ednuo \u00e0 sua fala, tirou um pequeno pote de barro da pequena bolsa que trazia transpassada ao corpo e o entregou ao rei.<\/p>\n<p>Esta era a conclus\u00e3o de toda a sua medita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O monarca retirou a tampa cuidadosamente \u2013 e n\u00e3o acreditou no que viu.<\/p>\n<p>Indignou-se. Como duas de suas filhas embrenharam-se em riscos e sacrif\u00edcios para lhe oferecer o melhor enquanto ela fizera t\u00e3o pouco em nome do pai? Refugiara-se entre as irm\u00e3s e deixara o tempo passar sem maiores preocupa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Reconhecido como um rei justo, por\u00e9m rigoroso, decidiu castiga-la por n\u00e3o entender a grandeza de pertencer a fam\u00edlia real. Pelo pouco caso que demonstrara, teria que deixar o castelo e refazer a jornada. S\u00f3 retornasse quando tivesse algo verdadeiramente nobre para lhe oferecer.<\/p>\n<p>Precisava dessa li\u00e7\u00e3o para recuperar o posto de princesa.<\/p>\n<p>A m\u00e3o do rei fez girar a ampulheta. S\u00f3 que desta vez n\u00e3o haveria prazo de retorno&#8230;<\/p>\n<p>O cora\u00e7\u00e3o de pai ficou partido \u2013 mas, segundo as leis do lugar, era necess\u00e1rio que assim fosse. <\/p>\n<p>O tempo passou lento e justo.<\/p>\n<p>A perda da rainha e a decep\u00e7\u00e3o com a filha mais nova deixaram o soberano a cada dia mais triste. Justo ela que tanto parecia com a m\u00e3e&#8230;<\/p>\n<p>Numa bela manh\u00e3 depois de alguns anos, o mensageiro de um reino pr\u00f3ximo chegou com um convite aos nobres daquele pac\u00edfico reino. Seriam as bodas de n\u00fapcias do pr\u00edncipe herdeiro e muito honraria a presen\u00e7a de distintas fam\u00edlias na cerim\u00f4nia.<\/p>\n<p>Triste que s\u00f3 ele, o rei pensou em declinar do convite. Mas as filhas \u2013 que continuavam princesas, pois ele n\u00e3o conseguira se definir entre um e outro presente \u2013 insistiram: era a chance que tinham para, quem sabe, arranjarem um bom casamento.<\/p>\n<p>Estava mais do que na hora das mo\u00e7oilas arranjarem um bom partido.<\/p>\n<p>PARTE 3<br \/>\nBem, continuando&#8230;<\/p>\n<p>Como diz um amigo nosso, morador de S\u00e3o Bernardo como eu, &quot;nunca antes na hist\u00f3ria&quot; daquele reino distante viu-se tanta e tamanha comemora\u00e7\u00e3o. <\/p>\n<p>As comitivas impressionavam-se logo \u00e0 chega. Eram recepcionadas com festas e honrarias. Entre todas, no entanto, a que recebeu melhor acolhida foi a do rei sempre acompanhado das duas princesas. Tanto que os tr\u00eas ocuparam um lugar de realce no imenso sal\u00e3o onde se realizariam as bodas. Para surpresa geral, eles deveriam tomar assento lado a lado aos monarcas anfitri\u00f5es e ao pr\u00edncipe herdeiro.<\/p>\n<p>Logo soaram as trombetas e se deu a entrada da noiva, com delicado v\u00e9u a lhe cobrir o rosto, complemento de deslumbrante vestido. Ela, por siu s\u00f3, tinha um ineg\u00e1vel porte de rainha.<\/p>\n<p>Foi uma cerim\u00f4nia e tanto&#8230;<\/p>\n<p>Ao final, todos foram para o sal\u00e3o onde aconteceria a ceia e, posteriormente, o grande baile de gala.<\/p>\n<p>Antes, por\u00e9m, haveria um ritual in\u00e9dito. O primeiro prato seria um cozido especial, de carnes tenras, feito pelas m\u00e3os da pr\u00f3pria noiva. Ela gostaria de oferecer aquela especiaria a um dos convidados. Por sua vez, depois de experimentado o alimento, ele deveria se pronunciar sobre o sabor e fazer um sincera avalia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Voc\u00eas j\u00e1 desconfiam quem era a noiva? <\/p>\n<p>Ent\u00e3o, tamb\u00e9m devem calcular quem foi o convidado escolhido? <\/p>\n<p>Isto mesmo: o nosso amigo rei que prop\u00f4s o teste para as tr\u00eas filhas.<\/p>\n<p>Cumpriu-se o ritual. <\/p>\n<p>O soberano levou o cozido \u00e0 boca, deu as primeiras mastigadas e n\u00e3o houve como conter a express\u00e3o de desapontamento. N\u00e3o saberia o que dizer. <\/p>\n<p>O alimento estava insosso, sem gra\u00e7a, dif\u00edcil at\u00e9 de engolir.<\/p>\n<p>Que brincadeira seria aquela? Teria que ser deselegante &#8211; e dizer em p\u00fablico o que estava sentindo. Lembrou da decis\u00e3o precipitada de tempos atr\u00e1s quando n\u00e3o soube perdoar a pr\u00f3pria filha. Ali\u00e1s, aquela ma\u00e7aroca se parecia em muito com a vida que vinha levando desde ent\u00e3o. Uma vida insossa, sem gra\u00e7a&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o foi preciso que o rei se pronunciasse. O segredo se revelou. A noiva era a princesa filha do soberano \u2013 a quem o pr\u00edncipe consorte conheceu e logo se apaixonou numa visita ao tal convento al\u00e9m da linha do horizonte. Toda aquela encena\u00e7\u00e3o fora armada pela mo\u00e7a para que o rei entendesse a preciosidade que ela lhe oferecera naquele long\u00ednquo dia: um pote de sal refinado.<\/p>\n<p>Com aquele presente, pretendeu mostrar ao pai a ci\u00eancia das coisas simples, sensatas e sinceras que ele pr\u00f3prio a ensinara. O quanto o sal \u00e9 essencial para o equil\u00edbrio que rege a vida. Distingue a \u00e1gua do mar; preserva, tempera e d\u00e1 sabor aos alimentos, \u00e9 vital para o organismo humano e para o Planeta. Por\u00e9m, precisa ser usado com equil\u00edbrio, na medida certa. Pois, em excesso, faz mal \u00e0 sa\u00fade e p\u00f5e tudo a perder. Pode at\u00e9 matar.<\/p>\n<p>N\u00e3o seriam guerras (a espada) e riqueza (o anel de diamante) que a fariam uma not\u00e1vel rainha. Mas, sim, o equil\u00edbrio de suas decis\u00f5es&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o preciso dizer \u2013 mas, digo \u2013 que todos viveram felizes para sempre. Os reinos se tornaram ainda mais unidos. Inclusive, as irm\u00e3s da mo\u00e7a se ajeitaram com outros rapazes de fina proced\u00eancia. E \u00e9 isso. <\/p>\n<p>Prometo nunca mais tentar enveredar por hist\u00f3rias alheias. Deu um trabalho&#8230;<\/p>\n<p>FIM<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Epa! Epa! Epa!<\/p>\n<p>Nesse convers\u00ea sobre livros, quase deixo escapar um autor marcante na minha meninice: <\/p>\n<p>Malba Tahan. <\/p>\n<p>Malba Tahan, na verdade, era o pseud\u00f4nimo do professor J\u00falio C\u00e9sar de Mello e Souza que escrevia hist\u00f3rias curtas,<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-11285","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-parangoles"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11285","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11285"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11285\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":13952,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11285\/revisions\/13952"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11285"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11285"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11285"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}