{"id":11350,"date":"2009-06-20T00:00:00","date_gmt":"2009-06-20T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:41:00","modified_gmt":"2017-09-15T19:41:00","slug":"ainda-sobre-o-diploma","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/ainda-sobre-o-diploma\/","title":{"rendered":"Ainda sobre o diploma"},"content":{"rendered":"<p>Meus caros,<\/p>\n<p>Conto-lhes uma breve hist\u00f3ria que ouvi do jornalista, formado pela Universidade Metodista e professor da pr\u00f3pria Metodista, Valdir Boffetti:<\/p>\n<p>Nos primeiros tempos do Jornal Nacional, algu\u00e9m na Globo teve a ideia de convidar Carlos Drummond de Andrade para escrever uma cr\u00f4nica di\u00e1ria a ser lida durante a exibi\u00e7\u00e3o do telejornal. O jornalismo procurava consolidar novas frentes na TV e pareceu oportuno contar com o talento do maior poeta brasileiro nessas conquistas, at\u00e9 como valioso complemento das not\u00edcias do dia.<\/p>\n<p>Convite aceito, Drummond, irrepreens\u00edvel, mandou o texto no dia e hora aprazados. <\/p>\n<p>Tudo perfeitinho, nos conformes. <\/p>\n<p>N\u00e3o fosse um pequeno e instranspon\u00edvel sen\u00e3o. <\/p>\n<p>A cr\u00f4nica era longa &#8211; e a narra\u00e7\u00e3o soava cerimoniosa demais para a TV.<\/p>\n<p>Ai, ai, ai&#8230;<\/p>\n<p>Qual dos editores se atreveria a mexer na obra do grande poeta?<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m se habilitou. Quem ousaria? <\/p>\n<p>A solu\u00e7\u00e3o foi recorrer ao escritor Otto Lara Rezende, que tamb\u00e9m trabalhava na Globo. <\/p>\n<p>Amigo de Drummond, Otto ligou e pediu ao pr\u00f3prio Drummond que mexesse no texto para deix\u00e1-lo mais curto e apropriado \u00e0s imposi\u00e7\u00f5es do novo ve\u00edculo.<\/p>\n<p>A resposta do poeta foi exemplar:<\/p>\n<p>&#8211; Fiquem \u00e0 vontade. Mexam no texto como bem quiserem. N\u00e3o entendo nada de TV.<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>Lembro a seguir outra hist\u00f3ria, um tanto mais longa, que aprendi nos meus tempos de estudante de Jornalismo e, d\u00e9cadas depois, coube-me a honra de compartilha-la com alunos de Hist\u00f3ria do Jornalismo Brasileiro:<\/p>\n<p>Em 1918, a Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Imprensa realizou o I Congresso Brasileiro de Jornalistas. Uma das quest\u00f5es em pauta: a necessidade de que os jornalistas tivessem uma forma\u00e7\u00e3o de n\u00edvel universit\u00e1rio. Entre outros motivos, para evitar que oportunistas tirassem proveito da credibilidade que a profiss\u00e3o come\u00e7ava a conquistar como leg\u00edtima mediadora das demandas sociais.  <\/p>\n<p>Foi o primeiro passo de uma longa jornada. <\/p>\n<p>Em 27 de setembro 1939, o cronista Rubem Braga saudou o ent\u00e3o Conselho Nacional de Educa\u00e7\u00e3o (equivalente ao MEC dos dias atuais) por aprovar a licen\u00e7a para funcionamento da Escola Superior de Jornalismo, com sede na cidade do Rio de Janeiro. Em cr\u00f4nica chamada de Doutores Jornalistas, ele imagina como seria conviv\u00eancia entre os pr\u00e1ticos e o que chamou de futuros novos doutores.<br \/>\nDe antem\u00e3o, foi avisando \u00e0 rapaziada quanto ao sal\u00e1rio:<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o acreditem se lhes disserem que vivo como um lord.\u201d <\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>As primeiras escolas de jornalismo come\u00e7aram a surgir em fins dos anos 40.<\/p>\n<p>Os anos 60 ficaram marcados pelo empenho dos jornalistas e das entidades representativas na constru\u00e7\u00e3o de uma regulamenta\u00e7\u00e3o profissional, tendo \u00e0 frente expoentes como os jornalistas Freitas Nobre e Ari Silva. Em 1969, no bojo de uma ampla reforma educacional, foram criados os cursos de comunica\u00e7\u00e3o \u2013 e implantou-se a exig\u00eancia do diploma universit\u00e1rio, habilita\u00e7\u00e3o em jornalismo, requisito \u00fanico e indispens\u00e1vel para exerc\u00edcio da profiss\u00e3o. <\/p>\n<p>Essas conquistas foram, posteriormente, ratificadas pela Constitui\u00e7\u00e3o de 1988, na esteira de uma forte mobiliza\u00e7\u00e3o de jornalistas, estudantes de jornalismo e entidades classistas e de outros segmentos da sociedade.  <\/p>\n<p>Nenhum fragmento dessa longa hist\u00f3ria de conquistas sensibilizou a oito dos doutos senhores do Supremo Tribunal Federal, que preferiram tergiversar sobre \u201co exerc\u00edcio amplo das liberdades de express\u00e3o e informa\u00e7\u00e3o\u201d \u2013 outro ponto de luta secular dos jornalistas.<\/p>\n<p>Faltou-lhes a humildade que sobrou ao poeta que, como raros, entendeu da arte de expressar-se e, naquele epis\u00f3dio do JN, compreendeu a complexidade do fazer jornal\u00edstico. <\/p>\n<p>IV.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, e ainda bem que existe um por\u00e9m&#8230; <\/p>\n<p>Al\u00e9m de lamentar profundamente o tom depreciativo de algumas falas do STF, penso que seja hora de lhes dizer nada se perdeu. Diria mesmo que pouco se transformou. Como ouvi de outro ex-estudante de jornalismo da Metodista e coordenador da Ag\u00eancia Folha, professor J\u00falio Ver\u00edssimo, \u201co fim da obrigatoriedade do diploma n\u00e3o significa o fim da obrigatoriedade da compet\u00eancia\u201d.<\/p>\n<p>Assim como as mais respeit\u00e1veis empresas de comunica\u00e7\u00e3o j\u00e1 manifestaram publicamente o compromisso de continuar contratando profissionais formados na \u00e1rea, os pilares do Jornalismo (o respeito \u00e0 verdade factual, a postura independente e fiscalizadora; assim como a forma\u00e7\u00e3o multim\u00eddia, as teorias da Comunica\u00e7\u00e3o, as t\u00e9cnicas de edi\u00e7\u00e3o e de texto, a discuss\u00e3o cr\u00edtica dos projetos editoriais e dos os rigores \u00e9ticos da profiss\u00e3o, entre outros conte\u00fados human\u00edsticos) continuaram a ser mat\u00e9ria de estudo e aprendizagem nos bons cursos de jornalismo em n\u00edvel superior, como preconizou, l\u00e1 nos anos 30, nosso maior cronista, Rubem Braga. <\/p>\n<p>Nas \u00faltimas quatro d\u00e9cadas, o jornalismo brasileiro perfilou-se entre os melhores do mundo, inclusive como um dos esteios da redemocratiza\u00e7\u00e3o do Pa\u00eds. <\/p>\n<p>Para tanto, foi de vital import\u00e2ncia o trabalho de duas gera\u00e7\u00f5es de jornalistas formados pelas faculdades de jornalismo \u2013 milhares dos quais, egressos do curso da Universidade Metodista de S\u00e3o Paulo, que figura honrosamente, em \u00e2mbito nacional, entre os mais bem conceituados.<\/p>\n<p>No que depender de n\u00f3s \u2013 e espero que de voc\u00eas estudantes de jornalismo \u2013 essa Hist\u00f3ria n\u00e3o vai se perder&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Meus caros,<\/p>\n<p>Conto-lhes uma breve hist\u00f3ria que ouvi do jornalista, formado pela Universidade Metodista e professor da pr\u00f3pria Metodista, Valdir Boffetti:<\/p>\n<p>Nos primeiros tempos do Jornal Nacional,<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-11350","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-blog"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11350","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11350"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11350\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":16608,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11350\/revisions\/16608"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11350"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11350"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11350"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}