{"id":11351,"date":"1991-07-21T00:00:00","date_gmt":"1991-07-21T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-13T19:23:15","modified_gmt":"2017-09-13T19:23:15","slug":"a-arte-da-resistencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/a-arte-da-resistencia\/","title":{"rendered":"A arte da resist\u00eancia"},"content":{"rendered":"<p>Com quase 20 anos de &#8220;estrada&#8221;, o cearense de Sobral, Ant\u00f3nio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes aprendeu a ver com serenidade as idiossincrasias do chamado mundo da m\u00fasica. Aos 45 anos, ele cumpre uma estafante agenda de, no m\u00ednimo, 20 shows mensais nos mais diversos pontos do Pa\u00eds (ainda hoje encerra uma bem-sucedida temporada no Palace). Para setembro, &#8220;mais tardar outubro&#8221;, deve lan\u00e7ar novo disco s\u00f3 com m\u00fasicas in\u00e9ditas (provavelmente pela WEA) e, ainda agora, a poderosa Som Livre colocou na pra\u00e7a Belchior\/Antologia, com sucessos do tempo em que pertencia ao cast da Continental. Mesmo com toda essa lida e dos 15 elep\u00eas gravados, a obra de Belchior amarga um injustific\u00e1vel segundo plano junto aos mass-m\u00eddias.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 algo que nem gosto de comentar\u201d, desculpa-se o cearense. \u201cPode parecer deseleg\u00e2ncia. Mas, \u00e9 o que efetivamente acontece comigo e com tantos outros artistas de primeira linha da MPB. Somos ignorados pelo r\u00e1dio e pela TV. Por\u00e9m, nossos shows &#8211; seja onde for &#8211; est\u00e3o sempre com a casa cheia, as pessoas sabem cantar nossas m\u00fasicas. E h\u00e1 uma empatia muito forte, emocional at\u00e9, entre plateia e int\u00e9rprete.&#8221;<\/p>\n<p>Belchior explica que, em todas as apresenta\u00e7\u00f5es, \u00e9 obrigat\u00f3ria a inclus\u00e3o de uma dezena de m\u00fasicas por absoluta exig\u00eancia do p\u00fablico. As pessoas ficam decepcionadas se n\u00e3o ouvirem &#8220;A Palo Seco&#8221;, &#8220;Hora do Almo\u00e7o&#8221;, &#8220;Paralelas&#8221;, &#8220;Como Nossos Pais&#8221;, &#8220;Velha Roupa Colorida&#8221;, &#8220;Apenas Um Rapaz Latino-Americano&#8221;, entre outras. Explica tamb\u00e9m que nessas andan\u00e7as &#8211; que \u00e9 o que mais o fascina na dita vida de artista -, passou a cantar para um p\u00fablico infinitamente maior do que aquele que lhe aplaudia nos tempos do sucesso (entre 76 e 80). Ele garante que hoje atinge um segmento bem mais amplo em todo o Brasil &#8211; e n\u00e3o apenas no eixo Rio-S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o que a coisa do sucesso me incomode. Ao contr\u00e1rio. N\u00e3o h\u00e1 efic\u00e1cia no objeto art\u00edstico longe do grande p\u00fablico. Para quem, como eu, cresceu ouvindo Nora Ney, Angela Maria, Cauby pelo servi\u00e7o de alto-falante \u00e9 verdadeiramente muito gratificante tocar no r\u00e1dio, viver esse ne\u00acg\u00f3cio de m\u00fasica no ar&#8230; Mas, esse trabalho que venho realizando desde 82 &#8211; os shows frequentes por todo o Brasil &#8211; \u00e9 a consolida\u00e7\u00e3o de algo mais est\u00e1vel, mais verdadeiro. Me p\u00f5e frente a frente com o meu p\u00fablico e com uma nova gera\u00e7\u00e3o que, para minha surpresa, sabe das minhas can\u00e7\u00f5es.\u201d<\/p>\n<p>Para comprovar essa intera\u00e7\u00e3o p\u00fablico\/int\u00e9rprete, Belchior cita o recente disco Belchior\/Antologia. Ele sequer conhece a rela\u00e7\u00e3o das m\u00fasicas que constam no elep\u00ea. Tomou conhecimento de seu lan\u00e7amento atrav\u00e9s de um cartaz que viu numa loja e -pura ironia &#8211; pela chamada na TV. Ao que &#8216;consta, foram os pr\u00f3prios vendedores da Som Livre que, de tanto ouvir a solicita\u00e7\u00e3o dos lojistas, deram toque que essa colet\u00e2nea seria mais do que oportuna.<\/p>\n<p>&#8220;Coisas de Brasil\u201d, arremata o cantor\/compositor. \u201cN\u00e3o adianta vir com sofismas, teorias de marketing&#8230; A m\u00fasica popular \u00e9 uma manifesta\u00e7\u00e3o t\u00e3o latente nos brasileiros que, apesar de todo o sufoco que lhe d\u00e3o, ela sobrevive, se renova, se internacionaliza&#8230; \u00c9 seguramente uma de nossas formas de arte de maior vitalidade, tanto na quest\u00e3o est\u00e9tica quanto cultural.&#8221;<\/p>\n<p>J\u00e1 sobre o disco de m\u00fasicas in\u00e9ditas, Belchior salienta que &#8220;\u00e9 um trabalho que surge, naturalmente&#8221;. O exerc\u00edcio de sua faceta de autor, sem outras &#8211; e maiores -novidades. S\u00e3o can\u00e7\u00f5es &#8220;mais apaixonadas que amorosas&#8221;. Falam da utopia de cada um, das emo\u00e7\u00f5es, dos sonhos, do cotidiano das pessoas. T\u00eam letras pungentes e pretendem, muito mais, dar alguns toques aos eventuais ouvintes do que propriamente obter o sucesso imediato. \u00c9 o lado gera\u00e7\u00e3o on-the-road do Belchior<\/p>\n<p>&#8220;Continuo com essa coisa Beatles, Bob Dylan&#8230; Certamente, n\u00e3o fui o melhor nem o mais inspirado int\u00e9rprete da minha gera\u00e7\u00e3o. Mas, certamente, entre os brasileiros, fui o primeiro a fazer um levantamento cr\u00edtico de nossos anseios, sonhos, fracassos, conquistas&#8230; Um painel de nossas emo\u00e7\u00f5es&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Viver \u00e9 melhor que sonhar&#8221;, diz a can\u00e7\u00e3o. Belchior que a escreveu. Ao lado da mulher Angela e dos filhos Camila (14 anos) e Nicael (9), ele procura viver a utopia de ser feliz. Mora em S\u00e3o Paulo, mas torce para o Fluminense no Rio. E, nos intervalos das temporadas, desenvolve um meticuloso trabalho de ilustra\u00e7\u00f5es gr\u00e1ficas e poemas caligr\u00e1ficos. H\u00e1 sete anos realiza um estudo sobre a &#8220;Divina Com\u00e9dia&#8221; de Dante. Um trabalho que pretende concluir em 93 e, se poss\u00edvel, participar da Bienal do Livro em S\u00e3o Paulo. &#8220;Aprendi a trabalhar descansadamente\u201d, sorri. \u201c\u00c9 minha contribui\u00e7\u00e3o enquanto artista, enquanto pessoa. Acho que essa descaracteriza\u00e7\u00e3o cultural pela qual passamos por for\u00e7a de tantos equ\u00edvocos, \u00e9, na verdade, assunto para a cr\u00edtica, para a imprensa, um estudo talvez mais sociol\u00f3gico&#8230; Que mais pode fazer um artista sen\u00e3o representar, cantar, escrever, pintar&#8230; Nossa arte \u00e9 nossa forma de resistir.&#8221;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Com quase 20 anos de &#8220;estrada&#8221;, o cearense de Sobral, Ant\u00f3nio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes aprendeu a ver com serenidade as idiossincrasias do chamado mundo da m\u00fasica. 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