{"id":11993,"date":"2011-08-15T00:00:00","date_gmt":"2011-08-15T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:28:28","modified_gmt":"2017-09-15T19:28:28","slug":"o-sem-nocao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/o-sem-nocao\/","title":{"rendered":"O sem no\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>Nunca soube exatamente qual o nome da bela cidade de Salvador Dali:<\/p>\n<p>Figueres ou Figueras ou Figueiras?<\/p>\n<p>O senhor catal\u00e3o pacientemente tenta me explicar. Percebo alguma ansiedade no rosto do novo amigo e certo ar de contrariedade nas entrelinhas da resposta.<\/p>\n<p>&#8212; Figueres, l\u00f3gico. Que \u00e9 como diz aqui na Catalunha. Figueras, dizem os espanh\u00f3is. E voc\u00eas portugueses e brasileiros insistem em chamar de Figueiras. <\/p>\n<p>N\u00e3o me incomodam as afli\u00e7\u00f5es do conhecido com quem puxei conversa neste fim de tarde ensolarado em que estou largado em um desses bistr\u00f4s, que servem de tudo um pouco, t\u00edpicos das pequenas cidades europ\u00e9ias.<\/p>\n<p>Nada para fazer, nada para pensar.<\/p>\n<p>Vida que passa \u00e0 minha frente, como se eu n\u00e3o estivesse ali, como se nada ao redor tivesse real import\u00e2ncia. <\/p>\n<p>Logo reparo que o novo amigo acomoda-se em uma das mesas, alguns metros \u00e0 minha frente, assim que chega uma mo\u00e7a bonita, pouco mais de 20 anos, toda descolada.<\/p>\n<p>Cumprimentam-se com os tradicionais beijinhos, pedem algo para beber e, estranho, pouco conversam.<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>O sil\u00eancio n\u00e3o dura muito, n\u00e3o.<\/p>\n<p>Logo se p\u00f5em a discutir. Cordialmente, mas discutem.<\/p>\n<p>N\u00e3o escuto uma s\u00f3 palavra, mas percebo e deduzo pelas caras e bocas da mo\u00e7a.<\/p>\n<p>A bem da verdade, n\u00e3o \u00e9 propriamente uma discuss\u00e3o. <\/p>\n<p>Ele cobra. <\/p>\n<p>Ela n\u00e3o tira os olhos do visor celular e, de quando em quando, tenta se explicar, como sempre acontece nas alterca\u00e7\u00f5es entre os sexos.<\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>Aqui, cabe um par\u00eanteses:<\/p>\n<p>Quando a cobran\u00e7a \u00e9 da mulher, o homem nunca se explica, silencia.<\/p>\n<p>Deixa que as coisas se acomodem por conta e risco.<\/p>\n<p>Mulher, n\u00e3o. Tem explica\u00e7\u00e3o e desculpas para tudo. At\u00e9 para o inexplic\u00e1vel e o indesculp\u00e1vel. <\/p>\n<p>IV.<\/p>\n<p>Tive um dia cheio de boas surpresas. <\/p>\n<p>Visitei a casa onde nasceu ou morou Salvador Dali. <\/p>\n<p>Conheci o museu que abriga boa parte da obra do genial malucobeleza. <\/p>\n<p>Especialmente a ala das j\u00f3ias me encantou. <\/p>\n<p>Nunca vi nada de t\u00e3o criativo, de t\u00e3o exuberante.<\/p>\n<p>E, olhem, que sou um homem simples do Cambuci, duro na queda e nas emo\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O que n\u00e3o entendo estranho.<\/p>\n<p>H\u00e1 esquisitices e esquisitices.<\/p>\n<p>Mas, as de Salvador Dali s\u00e3o imbat\u00edveis. <\/p>\n<p>V.<\/p>\n<p>Pois vejam l\u00e1 voc\u00eas, meus caros cinco ou seis am\u00e1veis leitores, o que \u00e9 a vida de um cronista mundano, mesmo em viagem de f\u00e9rias.<\/p>\n<p>Deveria estar rememorando tudo o que ouvi sobre o romance de Dali e Gali\u00e1, os anos que passaram juntos. A sorte de um amor tranquilo. (Soube que o casal passava sete meses do ano, isolado de tudo e de todos na bel\u00edssima Cadeques).<br \/>\nMas, no lugar disso, estou aqui \u2018pagando\u2019 para entender o que rola na mesa da frente. A conversa n\u00e3o parece ser coisa de pai e filha, n\u00e3o.<\/p>\n<p>Talvez sejam apenas conhecidos. Ou trabalham juntos&#8230; Sei n\u00e3o.<\/p>\n<p>Desisto de descobrir.<\/p>\n<p>Pago a conta. Levanto e vou embora.<\/p>\n<p>Eu seria muito sem no\u00e7\u00e3o se quisesse transformar essa bobagem em cr\u00f4nica.<\/p>\n<p>Concordam?<\/p>\n<p>VI.<\/p>\n<p>Pois, ent\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>Na manh\u00e3 seguinte, no caf\u00e9 do hotel, eu os reencontro.<\/p>\n<p>L\u00e1 est\u00e3o dividindo a mesa do desjejum matinal.<\/p>\n<p>Olhei para o casal e fiz quest\u00e3o de cumpriment\u00e1-lo com a express\u00e3o de quem tudo sabia sobre o mau humor de ontem:<\/p>\n<p>&#8212; Ol\u00e0, amigo! Dormiu bem de ontem para hoje.<\/p>\n<p>Que maldade, gente. Eu sou mesmo um sem no\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>Concordam?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nunca soube exatamente qual o nome da bela cidade de Salvador Dali:<\/p>\n<p>Figueres ou Figueras ou Figueiras?<\/p>\n<p>O senhor catal\u00e3o pacientemente tenta me explicar. 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