{"id":12275,"date":"2012-07-26T00:00:00","date_gmt":"2012-07-26T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:23:52","modified_gmt":"2017-09-15T19:23:52","slug":"a-garota-que-tocava-bongo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/a-garota-que-tocava-bongo\/","title":{"rendered":"A garota que tocava bong\u00f4"},"content":{"rendered":"<p>Todas as noites havia um show no \u00e1trio do Hotel Nacional, em Havana.<\/p>\n<p>Era um quarteto que ali se apresentava \u2013 um rapaz e tr\u00eas mo\u00e7as.<\/p>\n<p>O marmanjo comandava o grupo. Era tecladista e tamb\u00e9m arriscava um ou outro vocal.<\/p>\n<p>Duas das meninas alternavam-se nas interpreta\u00e7\u00f5es \u2013 e a terceira, a mais jovem, tocava bong\u00f4.<\/p>\n<p>E dan\u00e7ava.<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>Ah! como dan\u00e7ava a garota que tocava bong\u00f4!<\/p>\n<p>N\u00e3o a vejam como uma rumbeira, de trajes t\u00edpicos e cousa e lousa e maripo(u)sa.<\/p>\n<p>Vestia um pretinho b\u00e1sico e n\u00e3o arriscava coreografias retumbantes. Apenas acompanhava o ritmo das dolentes e sacudidas can\u00e7\u00f5es com um meneio de quadris e passos marcados, com brev\u00edssimas varia\u00e7\u00f5es, pelo tuntuntum que simultaneamente batucava \u00e1gil e graciosa.<\/p>\n<p>Detalhe: n\u00e3o sorria, nem se pretendia exibida.<\/p>\n<p>Entregava-se \u00e0 melodia, como se ningu\u00e9m mais estivesse ali.<\/p>\n<p>O instrumento e a melodia eram seu mundo.<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, os amigos leitores devem saber que n\u00e3o existe m\u00fasica cubana \u2013 ou caribenha \u2013 sem uma caliente percuss\u00e3o \u2013 e, dentre todos os instrumentos do g\u00eanero, o toque do bong\u00f4 \u00e9 insuper\u00e1vel.<\/p>\n<p>Ainda mais, creiam, quando tocado pela garota que tocava bong\u00f4 no \u00e1trio do Hotel Nacional.<\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>N\u00e3o preciso dizer, mas digo, que a turistada \u2013 homens, na maioria \u2013 espalhava-se pelas poltronas e pelos jardins, com vistas para o M\u00e1lecon, para bebericar, saborear a m\u00fasica e se deliciar com a cena, algo inusitada para olhos de al\u00e9m-mar.<\/p>\n<p>Ao cabo de duas ou tr\u00eas sele\u00e7\u00f5es, o band-leader pedia \u2018permisso\u2019 para um breve intervalo musical, momentos em que as mo\u00e7oilas deixavam seu espa\u00e7o para oferecer, de m\u00e3o em m\u00e3o, um modesto CD em que o grupo gravara o seleto repert\u00f3rio.<\/p>\n<p>Nas noites que andei por ali, reparei que, da pilha de CDs que as mo\u00e7as levavam para a venda (10 d\u00f3lares cada), a \u00fanica que voltava de m\u00e3os vazias era exatamente a garota que tocava bong\u00f4.<\/p>\n<p>IV.<\/p>\n<p>O motivo parece mais ou menos \u00f3bvio.<\/p>\n<p>Mas, acreditem, n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o simples assim.  <\/p>\n<p>Podem acreditar. N\u00e3o exagero.<\/p>\n<p>Havia algo de sublime na garota que tocava bong\u00f4, enquanto dan\u00e7ava e tocava bong\u00f4.<\/p>\n<p>V.<\/p>\n<p>O Hotel Nacional \u00e9 famoso por ter hospedado, ao longo de seus 80 anos, personalidades que mudaram a hist\u00f3ria do mundo. De Frank Sinatra ao presidente Kennedy. De Juan Manoel Fangio \u00e0 Marlene Dietrich. De Nat King Colle a Hemingway.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma sala especial com fotos de toda essa gente para comprovar e dar f\u00e9 no que digo.<\/p>\n<p>Se fosse eu o gerente da Casa, n\u00e3o teria d\u00favidas em arranjar um cantinho para a foto da garota que toca bong\u00f4.<\/p>\n<p>Ela tamb\u00e9m sabe se fazer inesquec\u00edvel.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Todas as noites havia um show no \u00e1trio do Hotel Nacional, em Havana.<\/p>\n<p>Era um quarteto que ali se apresentava \u2013 um rapaz e tr\u00eas mo\u00e7as.<\/p>\n<p>O marmanjo comandava o grupo.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-12275","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-blog"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12275","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12275"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12275\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":15721,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12275\/revisions\/15721"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12275"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12275"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12275"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}