{"id":12276,"date":"2012-07-27T00:00:00","date_gmt":"2012-07-27T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:23:52","modified_gmt":"2017-09-15T19:23:52","slug":"um-quase-beijo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/um-quase-beijo\/","title":{"rendered":"Um quase beijo"},"content":{"rendered":"<p>E amaram-se como dois animais&#8230;<\/p>\n<p>S\u00f3 depois corpos cansados e ainda aninhados, largaram-se na cama. <\/p>\n<p>Deixaram-se estar com pensamentos longes, distantes, algo difusos.<\/p>\n<p>Ambos silenciosos.<\/p>\n<p>Ambos prospectando coisas de uma vida que viviam fora dali.<\/p>\n<p>Nenhum dos dois havia planejado aquele enrosco que j\u00e1 durava tantos anos \u2013 e, longe dos olhos de todos e das conven\u00e7\u00f5es, lhes fazia t\u00e3o bem.<\/p>\n<p>Ele deixou escapar um sorriso que acendeu a curiosidade dela, desconfiada que s\u00f3.<\/p>\n<p>&#8212; O que foi? O que est\u00e1 pensando?<\/p>\n<p>Ele retrucou, ainda distra\u00eddo, sem saber se valeria a pena responder:<\/p>\n<p>&#8212; Nada de importante.<\/p>\n<p>A mo\u00e7a insistiu ainda mais ensimesmada. <\/p>\n<p>&#8212; Pode ir falando, vamos&#8230; O trato \u00e9 de n\u00e3o termos segredo. Vai, diz&#8230;<\/p>\n<p>\u201cQuer saber mesmo?\u201d \u2013 disse pondo-se a rir mais escancaradamente. \u201cEst\u00e1 bem, eu conto.\u201d<\/p>\n<p>Suspirou antes de continuar.<\/p>\n<p>&#8212; Estava pensando em como tudo come\u00e7ou.<\/p>\n<p>Foi a vez dela se fazer de desentendida.<\/p>\n<p>&#8212; Faz tanto tempo que nem me lembro mais, sabia?<\/p>\n<p>Ele duvidou \u2013 e tratou de lhe refrescar a mem\u00f3ria.<\/p>\n<p>&#8212; Era seu anivers\u00e1rio, n\u00e3o lembra? Fui cumpriment\u00e1-la, como todos fizeram no<br \/>\nescrit\u00f3rio e, sem querer querendo, nossos l\u00e1bios se ro\u00e7aram na hora dos beijinhos. Voc\u00ea fez de prop\u00f3sito.<\/p>\n<p>Ela fingiu espanto \u2013 e se fez de rogada.<\/p>\n<p>&#8212; Imagina se eu faria isso? Voc\u00ea tinha um caso com a minha melhor amiga, e eu sempre fui uma mo\u00e7a ajuizada. At\u00e9 parece que ia me dar assim ao desfrute&#8230;<\/p>\n<p>\u201c &#8230; Com um cara com a reputa\u00e7\u00e3o de canalha, como eu\u201d, completou com ares de malandro.  <\/p>\n<p>E continuou:<\/p>\n<p>&#8212; Come\u00e7amos com um quase beijo. Quem haveria de dizer que tantos anos depois continuar\u00edamos assim, nesse grude?<\/p>\n<p>Ela tratou de revidar e desconsert\u00e1-lo s\u00f3 para reavivar a mem\u00f3ria do \u201cinocente\u201d:<\/p>\n<p>&#8212; Quase beijo, uma ova! Voc\u00ea me seguiu at\u00e9 o cantinho do caf\u00e9 \u2013 e l\u00e1 me \u201cobrigou\u201d a beij\u00e1-lo pra valer, lembra?<\/p>\n<p>Balan\u00e7ou a cabe\u00e7a negativamente. Jamais faria isso. Tinha um caso antigo com a melhor amiga dela. Era maluco, sim; mas, n\u00e3o a esse tanto.<\/p>\n<p>&#8212; T\u00e1 bom. Quem n\u00e3o te conhece que te compre. Voc\u00ea amea\u00e7ou contar do meu anivers\u00e1rio para o Afr\u00e2nio, aquele bab\u00e3o da Expedi\u00e7\u00e3o que gostava de se esfregar na gente, quando nos dava bom-dia. As mulheres fugiam dele, n\u00e3o lembra? Imagine &quot;os parab\u00e9ns&quot; que ele me daria&#8230;<\/p>\n<p>Claro que ele lembrava. Lembrava direitinho. Sempre foi relativamente criativo com as mulheres. S\u00f3 fez quest\u00e3o de esclarecer uma coisinha:<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o foi propriamente uma amea\u00e7a. Disse que trocaria o meu sil\u00eancio pela chance de eu parabeniz\u00e1-la novamente. Ali, naquele momento, longe de tudo e de todos \u2013 e voc\u00ea topou&#8230; T\u00e1 arrependida? Ent\u00e3o, me devolve aquele beijo j\u00e1, agora&#8230; Vamos&#8230;<\/p>\n<p>Com um balan\u00e7ar de cabe\u00e7a, ela disse que n\u00e3o. Fez mais e melhor. Afastou o len\u00e7ol e partiu pra cima dele, e de um novo come\u00e7o&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>E amaram-se como dois animais&#8230;<\/p>\n<p>S\u00f3 depois corpos cansados e ainda aninhados, largaram-se na cama. <\/p>\n<p>Deixaram-se estar com pensamentos longes, distantes, algo difusos.<\/p>\n<p>Ambos silenciosos.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-12276","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-blog"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12276","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12276"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12276\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":15720,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12276\/revisions\/15720"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12276"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12276"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12276"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}