{"id":12605,"date":"2013-09-20T00:00:00","date_gmt":"2013-09-20T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:17:26","modified_gmt":"2017-09-15T19:17:26","slug":"um-dia-qualquer-4","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/um-dia-qualquer-4\/","title":{"rendered":"Um dia qualquer"},"content":{"rendered":"<p>Houve uma vez um 20 de setembro. Sexta-feira como hoje \u00e9. Tarde mormacenta, e c\u00e1lida. No horizonte, nada al\u00e9m do que a silhueta da cidade e o c\u00e9u a dispersar sonhos e proezas. <\/p>\n<p>At\u00e9 que o telefone tocou \u2013 era um aparelho fixo, celulares e afins n\u00e3o existiam. <\/p>\n<p>Creiam, n\u00e3o existiam e nem se imaginava que um dia poderiam vir a ser concebidos.<\/p>\n<p>Retomo a cena:<\/p>\n<p>At\u00e9 que o telefone tocou&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Oi. Sou eu, Nan\u00e1. Surpreso?<\/p>\n<p>AC parou tudo o que estava fazendo. <\/p>\n<p>(Chamava-se Ant\u00f4nio Carlos, mas todos s\u00f3 o conheciam como AC).<\/p>\n<p>Depois de um brev\u00edssimo sil\u00eancio, em que ele quase perde a respira\u00e7\u00e3o, respondeu monoc\u00f3rdico:<\/p>\n<p>&#8211; Oi&#8230;<\/p>\n<p>Senhora da situa\u00e7\u00e3o \u2013 e dos devaneios do rapaz \u2013 ela n\u00e3o se fez de rogada:<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o, o que voc\u00ea vai fazer hoje \u00e0 noite?<\/p>\n<p>No turbilh\u00e3o, causado pelo apagar e acender dos sentidos (tal e qual essas luzinhas natalinas), claudicou outra vez na resposta:<\/p>\n<p>-Eu? Bem&#8230; Ent\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>Nan\u00e1 estava \u00e1 vontade para ser enf\u00e1tica, e definitiva. Desde que se conheceram, AC a cercava, jogava com as palavras, olhares e mais olhares \u2013 at\u00e9 um colarzinho de madeira, chinfrim que algu\u00e9m apareceu vendendo, ele comprou e a presenteou.<\/p>\n<p>Nunca se imaginou dando trela para o rapaz. Tinha l\u00e1 uma fama de conquistas. Que, por vezes, a incomodava: <\/p>\n<p>\u201cQuem ele pensa que eu sou\u201d, pensava. <\/p>\n<p>Mas, de um modo amplo e irrestrito, se divertia com o flerte e a pose de sedutor que fazia quest\u00e3o de exibir. <\/p>\n<p>Nunca cairia naquele converse.<\/p>\n<p>Naquela sexta, por\u00e9m, 20 de setembro como hoje \u00e9, nada mais inspirador a fazer, sozinha em casa, resolveu esticar a brincadeira e dar um trote no tal. Ligou por ligar.<\/p>\n<p>Ao perceber a hesita\u00e7\u00e3o de AC (\u201cBem&#8230; hoje, eu&#8230; Ent\u00e3o&#8230;\u201d) sentiu-se lisonjeada. <\/p>\n<p>Resolveu avan\u00e7ar o sinal. Desconsiderou a possibilidade (como havia planejado) de inventar uma desculpa no decorrer da conversa, e fechou quest\u00e3o:<\/p>\n<p>&#8211; \u00c0s oito e meia, hoje. Te espero na portaria do pr\u00e9dio onde moro. Ok?<\/p>\n<p>Ouviu a confirma\u00e7\u00e3o do outro lado da linha \u2013 e festejou e se arrependeu e seja-o-que-Deus-quiser e agora e enfim&#8230; <\/p>\n<p>&#8211; A\u00ed que besteira que eu fiz.<\/p>\n<p>Para escapar a arrependimentos outros, tranq\u00fcilizou-se a garantir para si mesmo que seria aquele encontro \u2013 e s\u00f3. Nada tinha a perder.<\/p>\n<p>Ou\u00e7o, comovido, a hist\u00f3ria de Nan\u00e1, &#8211; e arrisco cutucar a fera:<\/p>\n<p>&#8211; E a\u00ed? Foi bom?<\/p>\n<p>Brilham de um jeito bom os olhos da jovem senhora, antes da resposta:<\/p>\n<p>&#8211; A vida nunca mais foi a mesma.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Houve uma vez um 20 de setembro. Sexta-feira como hoje \u00e9. Tarde mormacenta, e c\u00e1lida. 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