{"id":12610,"date":"2013-09-23T00:00:00","date_gmt":"2013-09-23T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-14T03:46:58","modified_gmt":"2017-09-14T03:46:58","slug":"um-dia-qualquer","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/um-dia-qualquer\/","title":{"rendered":"Um dia qualquer *"},"content":{"rendered":"<p>Houve uma vez um 20 de setembro. Sexta-feira como hoje \u00e9. Tarde mormacenta, e c\u00e1lida. No horizonte, nada al\u00e9m do que a silhueta da cidade e o c\u00e9u a dispersar sonhos e proezas. <\/p>\n<p>At\u00e9 que o telefone tocou \u2013 era um aparelho fixo, celulares e afins n\u00e3o existiam. <\/p>\n<p>Creiam, n\u00e3o existiam e nem se imaginava que um dia poderiam vir a ser concebidos.<\/p>\n<p>Retomo a cena:<\/p>\n<p>At\u00e9 que o telefone tocou&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Oi. Sou eu, Nan\u00e1. Surpreso?<\/p>\n<p>AC parou tudo o que estava fazendo. <\/p>\n<p>(Chamava-se Ant\u00f4nio Carlos, mas todos s\u00f3 o conheciam como AC).<\/p>\n<p>Depois de um brev\u00edssimo sil\u00eancio, em que ele quase perde a respira\u00e7\u00e3o, respondeu monoc\u00f3rdico:<\/p>\n<p>&#8211; Oi&#8230;<\/p>\n<p>Senhora da situa\u00e7\u00e3o \u2013 e dos devaneios do rapaz \u2013 ela n\u00e3o se fez de rogada:<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o, o que voc\u00ea vai fazer hoje \u00e0 noite?<\/p>\n<p>No turbilh\u00e3o, causado pelo apagar e acender dos sentidos (tal e qual essas luzinhas natalinas), claudicou outra vez na resposta:<\/p>\n<p>-Eu? Bem&#8230; Ent\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>Nan\u00e1 estava \u00e1 vontade para ser enf\u00e1tica, e definitiva. Desde que se conheceram, AC a cercava, jogava com as palavras, olhares e mais olhares \u2013 at\u00e9 um colarzinho de madeira, chinfrim que algu\u00e9m apareceu vendendo, ele comprou e a presenteou.<\/p>\n<p>Nunca se imaginou dando trela para o rapaz. Tinha l\u00e1 uma fama de conquistas. Que, por vezes, a incomodava: <\/p>\n<p>\u201cQuem ele pensa que eu sou\u201d, pensava. <\/p>\n<p>Mas, de um modo amplo e irrestrito, se divertia com o flerte e a pose de sedutor que fazia quest\u00e3o de exibir. <\/p>\n<p>Nunca cairia naquele converse.<\/p>\n<p>Naquela sexta, por\u00e9m, 20 de setembro como hoje \u00e9, nada mais inspirador a fazer, sozinha em casa, resolveu esticar a brincadeira e dar um trote no tal. Ligou por ligar.<\/p>\n<p>Ao perceber a hesita\u00e7\u00e3o de AC (\u201cBem&#8230; hoje, eu&#8230; Ent\u00e3o&#8230;\u201d) sentiu-se lisonjeada. <\/p>\n<p>Resolveu avan\u00e7ar o sinal. Desconsiderou a possibilidade (como havia planejado) de inventar uma desculpa no decorrer da conversa, e fechou quest\u00e3o:<\/p>\n<p>&#8211; \u00c0s oito e meia, hoje. Te espero na portaria do pr\u00e9dio onde moro. Ok?<\/p>\n<p>Ouviu a confirma\u00e7\u00e3o do outro lado da linha \u2013 e festejou e se arrependeu e seja-o-que-Deus-quiser e agora e enfim&#8230; <\/p>\n<p>&#8211; A\u00ed que besteira que eu fiz.<\/p>\n<p>Para escapar a arrependimentos outros, tranq\u00fcilizou-se a garantir para si mesmo que seria aquele encontro \u2013 e s\u00f3. Nada tinha a perder.<\/p>\n<p>Ou\u00e7o, comovido, a hist\u00f3ria de Nan\u00e1, &#8211; e arrisco cutucar a fera:<\/p>\n<p>&#8211; E a\u00ed? Foi bom?<\/p>\n<p>Brilham de um jeito bom os olhos da jovem senhora, antes da resposta:<\/p>\n<p>&#8211; A vida nunca mais foi a mesma.<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>Ainda sobre nossa conversa de ontem, convido meus cinco ou seis am\u00e1veis leitores a conhecerem o outro personagem da hist\u00f3ria que lhes contei.<\/p>\n<p>Por um desses casos do acaso, conheci AC quando ele e Nan\u00e1, a mulher da sua vida, j\u00e1 n\u00e3o estavam mais juntos.<\/p>\n<p>Era bem quisto na velha reda\u00e7\u00e3o de piso assoalhado e grandes janel\u00f5es para a rua Bom Pastor, onde trabalhamos.<\/p>\n<p>Era um dos nossos, embora preservasse certo distanciamento da turma \u2013 talvez fosse em fun\u00e7\u00e3o da idade (tinha uns dez anos a mais), talvez fosse pela personalidade ou mesmo pelo estil\u00e3o de \u2018lobo solit\u00e1rio\u2019 que escolheu fazer naquela fase de sua vida.<\/p>\n<p>Esporadicamente participava dos ruidosos p\u00f3s-expediente, das noitadas que o pessoal engendrava. Mas, no dia seguinte, se divertia a ouvir as venturas e desventuras dos amigos na implac\u00e1vel ronda pelos bares.<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, era de sua prefer\u00eancia ouvir mais e falar menos, salvo se o assunto fosse jornalismo que alguns diziam ser sua segunda grande paix\u00e3o.<\/p>\n<p>Nunca ousei perguntar qual seria a primeira.<\/p>\n<p>Hoje, posso imaginar qual (ou quem) seria&#8230;<\/p>\n<p>Bem-humorado na maioria dos dias, tinha l\u00e1 um jeito triste de sorrir e de tocar a vida.<\/p>\n<p>Quando a conversa descambava para um tema m ais pessoal, era enigm\u00e1tico, gostava de generaliza\u00e7\u00f5es e, via de regra, fechava quest\u00e3o sem fazer qualquer tipo de ju\u00edzo de valor. Dizia-se versado e proseado no lema \u2018viva e deixe viver\u2019.<\/p>\n<p>Mais de uma vez, eu o ouvi definir o amor como \u2018um infinito desassossegar-se\u2019.<\/p>\n<p>&#8212; \u00c9 como caminhar sobre brancas nuvens&#8230;<\/p>\n<p>Talvez pensasse em Nan\u00e1 nessas horas.<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, \u00e9 certo que pensava em Nan\u00e1.<\/p>\n<p>Explico o porqu\u00ea.<\/p>\n<p>Em outras ocasi\u00f5es, quando lhe perguntaram o dia de seu anivers\u00e1rio, eu o vi afirmar, com sorriso vitorioso:<\/p>\n<p>&#8211; A data oficial n\u00e3o tem l\u00e1 grande import\u00e2ncia. Mas, coloque a\u00ed, para a vida, eu nasci em um inesquec\u00edvel 20 de setembro.<\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>O mundo \u00e9 grande e cabe<br \/>\nnessa janela sobre o mar.<br \/>\nO mar \u00e9 grande e cabe<br \/>\nna cama e no colch\u00e3o de amar.<br \/>\nO amor \u00e9 grande e cabe<br \/>\nNo breve espa\u00e7o de beijar.<\/p>\n<p>Trago-lhes a poesia de Carlos Drummond de Andrade (O mundo \u00e9 grande) para saudar os dias de Primavera que hoje se iniciam.<\/p>\n<p>Aproveito o ensejo para fechar o ciclo das cr\u00f4nicas Um Dia Qualquer (um e dois) com outrio poema, tamb\u00e9m de Drummond.<\/p>\n<p>Chama-se Amor que, de forma involunt\u00e1ria &#8211; at\u00e9 porque uma Primavera \u00e9 mais florida que a outra &#8211; reproduz um tantinho a hist\u00f3ria de Nan\u00e1 e AC:<\/p>\n<p>O ser busca o outro ser, e ao conhec\u00ea-lo<br \/>\nacha a raz\u00e3o de ser, j\u00e1 dividido.<br \/>\nS\u00e3o dois em um: amor, sublime selo<br \/>\nQue \u00e0 vida imprime cor, gra\u00e7a e sentido.<\/p>\n<p>*<\/p>\n<p>\u201cAmor\u201d \u2013 eu disse \u2013 e floriu uma rosa<br \/>\nembalsamando a tarde melodiosa<br \/>\nno canto mais oculto do jardim,<br \/>\nmas seu perfume n\u00e3o chegou a mim.<\/p>\n<p>Um adendo:<\/p>\n<p>Os poemas est\u00e3o niolivro \u201cAMAR se aprende amando\u201d, de Carlos Drummond de Andrade.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Houve uma vez um 20 de setembro. Sexta-feira como hoje \u00e9. Tarde mormacenta, e c\u00e1lida. No horizonte, nada al\u00e9m do que a silhueta da cidade e o c\u00e9u a dispersar sonhos e proezas.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-12610","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-parangoles"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12610","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12610"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12610\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":13924,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12610\/revisions\/13924"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12610"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12610"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12610"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}