{"id":12855,"date":"2014-08-03T00:00:00","date_gmt":"2014-08-03T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:11:45","modified_gmt":"2017-09-15T19:11:45","slug":"sobre-as-diretas-os-amigos-e-a-esperanca-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/sobre-as-diretas-os-amigos-e-a-esperanca-2\/","title":{"rendered":"Sobre as diretas, os amigos e a esperan\u00e7a *"},"content":{"rendered":"<p>Julho\/2001 &#8211; A ent\u00e3o apraz\u00edvel Pra\u00e7a da S\u00e9 assistiu \u00e0 segunda manifesta\u00e7\u00e3o oficial pr\u00f3-Diretas para presidente numa ter\u00e7a-feira cinzenta, 24 de janeiro de 1984. Arrebatada por centenas de milhares de cora\u00e7\u00f5es ansiosos por novos dias, a Pra\u00e7a de todos os paulistanos foi, naquela tarde\/noite, palco de um momento \u00fanico na Hist\u00f3ria do Pa\u00eds.<\/p>\n<p>02. Explico a raz\u00e3o. O movimento das Diretas-J\u00e1 foi de uma luminosidade rigorosamente solar. O \u00e1pice &#8212; creio &#8212; de uma gera\u00e7\u00e3o. Acredit\u00e1vamos, com entusiasmo juvenil, nos ideais da redemocratiza\u00e7\u00e3o. Era o caminho que todos n\u00f3s mape\u00e1vamos para o Brasil sair daquele estado de calamidade social e human\u00edstica.<\/p>\n<p>03. N\u00f3s, aqui de Gazeta do Ipiranga, embalamos por inteiro esse sonho. Est\u00e1vamos em total sintonia com os anseios da nossa gente. Lembro que o colunista de GI, Z\u00e9 Armando (na verdade, o amigo Jos\u00e9 do Nascimento) estava comigo na Pra\u00e7a ao lado do vereador Almir Guimar\u00e3es e do fot\u00f3grafo Cl\u00e1udio Micheli. Almir e Cl\u00e1udio haviam furado os bloqueios de seguran\u00e7a e j\u00e1 se posicionavam em pleno palanque das autoridades. Eu e Nascimento ficamos para tr\u00e1s. Sentamos nos degraus da catedral, atr\u00e1s do palanque. Dali ouv\u00edamos os discursos entusiasmados e a emo\u00e7\u00e3o na voz do locutor das diretas, o radialista Osmar Santos. Era um momento m\u00e1gico, inebriante&#8230; Todos acreditavam.<\/p>\n<p>04. Quase todos. Nascimento chamou minha aten\u00e7\u00e3o para um grupo de moradores da regi\u00e3o. Tomavam um canto da pra\u00e7a, com faixas, bandeiras, entusiasmo e f\u00e9. Eram pessoas comuns, sem v\u00ednculos partid\u00e1rios e, pela primeira vez, participavam de manifesta\u00e7\u00e3o como aquela. Acreditavam que a hora da mudan\u00e7a havia chegado&#8230; Eu tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>05. Pena que a emenda Dante de Oliveira (que propunha elei\u00e7\u00f5es diretas para presidente j\u00e1 em 85) n\u00e3o vai passar. Ainda h\u00e1 um longo caminho a ser percorrido, profetizou o amigo. \u00c0s vezes, o Nasci era um estraga-prazer, com sua lucidez. Tentei dissuad\u00ed-lo. Falei que as Diretas eram irrevers\u00edveis. E toda aquela gente na pra\u00e7a? Mais de um milh\u00e3o. Era apenas o come\u00e7o, ouviu? Em breve, a Na\u00e7\u00e3o teria voz e vez &#8212; imitei o chav\u00e3o do vereador.<\/p>\n<p>06. Na sexta, o jornal saiu com a manchete Diretas J\u00e1. E todos de GI ficamos orgulhosos. Sem qualquer censura, relatamos tudo o que havia acontecido na pra\u00e7a e ainda refor\u00e7amos, nesta mesma se\u00e7\u00e3o, nossa f\u00e9. Diretas-J\u00e1! Era o que nos cabia enquanto jornalistas e cidad\u00e3os. Foi o que fizemos&#8230;<\/p>\n<p>07. Retomo essa hist\u00f3ria um tanto pela saudade de dois amigos que se foram (Nasci e Cl\u00e1udio) e outro que n\u00e3o vejo h\u00e1 tempos (o Almir). Mas, tamb\u00e9m e principalmente, revejo esses dias para tentar entender o vazio pol\u00edtico do momento atual. Para onde foi o nosso sonho?<\/p>\n<p>08. Estamos no pre\u00e2mbulo de uma campanha presidencial das mais acirradas, com quatro ou cinco nomes j\u00e1 se articulando como presidenci\u00e1veis. N\u00e3o vou perder espa\u00e7o relacionando-os aqui, at\u00e9 porque as pesquisas fazem isso quase que semanalmente. No entanto, nenhum deles &#8212; e escrevo isso, com grande desalento &#8212; chega a nos convencer a retomar nossa f\u00e9 em dias melhores.<\/p>\n<p>09. Esse buraco existencial \u00e9 a grande heran\u00e7a do neoliberalismo globalizante. De decep\u00e7\u00e3o em decep\u00e7\u00e3o, os homens de Bras\u00edlia nos legaram esses tempos do apag\u00e3o &#8212; e em todos os sentidos: \u00e9tico, moral e social. Assim como um velho amigo distante, o brasileiro, hoje, tamb\u00e9m n\u00e3o sabe onde anda aquilo que lhe era t\u00e3o nato e o que o distinguia de outros povos: a esperan\u00e7a. Ela n\u00e3o nos fazia melhor, nem pior do que outras na\u00e7\u00f5es. Mas, \u00e9ramos bem mais brasileiros, felizes e sonhadores.<\/p>\n<p>*Essa cr\u00f4nica consta do ebook \u201cDas Coisas Simples, Sensatas e Sinceras\u201d que publiquei ano passado, pela Amazon.com. Qualquer semelhan\u00e7a com os dias que ora vivemos n\u00e3o \u00e9 mera coincid\u00eancia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Julho\/2001 &#8211; A ent\u00e3o apraz\u00edvel Pra\u00e7a da S\u00e9 assistiu \u00e0 segunda manifesta\u00e7\u00e3o oficial pr\u00f3-Diretas para presidente numa ter\u00e7a-feira cinzenta, 24 de janeiro de 1984. 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