{"id":12910,"date":"2014-09-27T00:00:00","date_gmt":"2014-09-27T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:08:13","modified_gmt":"2017-09-15T19:08:13","slug":"breve-memoria-de-um-homem-barbado-3","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/breve-memoria-de-um-homem-barbado-3\/","title":{"rendered":"Breve mem\u00f3ria de um homem barbado (3)"},"content":{"rendered":"<p>VII.<\/p>\n<p>Assumi a barba nos anos 80. J\u00e1 era trint\u00e3o e o mundo j\u00e1 n\u00e3o prezava tanto assim os carinhas raspadas. No Brasil, a gente come\u00e7ava a viver firmemente os bons ventos da redemocratiza\u00e7\u00e3o \u2013 e um certo sindicalista barbudo meteu a boca no trombone e, de forma surpreendente, mostrou que caminh\u00e1vamos para novos tempos.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m por essa \u00e9poca \u2013 talvez, um pouco depois, entre 86 e 87 \u2013 fez muito sucesso um filme incandescente, Nove Semanas e Meia de Amor. O protagonista, o ator Mickey Rourke, vivia intensos ralas-e-rolas com a lind\u00edssima Kim Basinger. <\/p>\n<p>Vou lhes contar. Era de fazer inveja a qualquer Dom Juan de periferia. O tipo dava pinta de n\u00e3o estar nem a\u00ed com a vida e os compromissos e, nas horas vagas (quase todas, diga-se) dava uns sapecas legais na loira\u00e7a. De quebra, exibia o que se convencionou chamar de \u201cbarba de tr\u00eas dias\u201d, bem ralinha, tipo \u201cn\u00e3o fiz hoje, quem sabe amanh\u00e3 eu fa\u00e7o\u201d.<\/p>\n<p>VIII.<\/p>\n<p>Explico logo que citei os exemplos acima s\u00f3 para registro hist\u00f3rico.<\/p>\n<p>N\u00e3o foi nenhum desses modelos que me inspirou.<\/p>\n<p>Tinha mesmo \u2013 como disse em cr\u00f4nica anterior \u2013 pregui\u00e7a de enfrentar o espelho e o barbeador diariamente.<\/p>\n<p>Ademais, havia bem perto da Reda\u00e7\u00e3o uma velha barbearia, capitaneada pelo ent\u00e3o setent\u00e3o Ab\u00edlio, onde quinzenalmente eu dava as caras para aparar os pelos do rosto e ouvir suas hist\u00f3rias de antigamente.<\/p>\n<p>O Ab\u00edlio era uma figura\u00e7a. Nem sei onde anda e se continua firme e forte na lida na pequena portinha, na rua Bom Pastor.<\/p>\n<p>Acabei ficando amigo do \u2018bom malandro\u2019 e at\u00e9 pautei uma rep\u00f3rter para entrevist\u00e1-lo quando completou 50 anos de profiss\u00e3o, sempre trabalhando no mesmo lugar.<\/p>\n<p>IX.<\/p>\n<p>Quando embiquei nos \u201centa\u201d, a barba deu uma clareada geral.<\/p>\n<p>Me envelhecia pra caramba \u2013 e tudo que um cara de quarenta n\u00e3o quer \u00e9 parecer que tem sessenta.<\/p>\n<p>Como n\u00e3o conseguia viver sem ela, o que fiz?<\/p>\n<p>N\u00e3o, gente, quem disse \u201ctingiu\u201d enlouqueceu.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m merece \u2018acajuar\u2019 a pr\u00f3pria barba.<\/p>\n<p>H\u00e1 que se ter uma certa dignidade a\u00ed.<\/p>\n<p>O que fiz foi adotar o cavanhaque, onde alguns fios pretos resistiam bravamente.<\/p>\n<p>O qu\u00ea?<\/p>\n<p>Se foi por essa \u00e9poca que os livros do Paulo Coelho explodiram em vendas e o cara virou figurinha f\u00e1cil na m\u00eddia, com seu indefect\u00edvel cavanhaque?<\/p>\n<p>Foi. Acho que foi.<\/p>\n<p>Mas, n\u00e3o tem nada a ver uma coisa com a outra.<\/p>\n<p>Cada um com seu cavanhaque, seus truques e suas magias.<\/p>\n<p>*amanh\u00e3 continua<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>VII.<\/p>\n<p>Assumi a barba nos anos 80. J\u00e1 era trint\u00e3o e o mundo j\u00e1 n\u00e3o prezava tanto assim os carinhas raspadas. 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