{"id":12937,"date":"1999-08-28T00:00:00","date_gmt":"1999-08-28T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-13T19:54:36","modified_gmt":"2017-09-13T19:54:36","slug":"a-voz-do-dono-e-o-dono-da-voz","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/a-voz-do-dono-e-o-dono-da-voz\/","title":{"rendered":"A voz do dono e o dono da voz"},"content":{"rendered":"<p>N\u00e3o se sabe exatamente sob qual pretexto a Editora Abril lan\u00e7ou recentemente uma antologia das reportagens da revista Realidade, decididamente um marco na hist\u00f3ria da Imprensa contempor\u00e2nea brasileira. H\u00e1 quem diga que essa colet\u00e2nea, a bem da verdade, deveria ter circulado em 96 quando a revista completou 30 anos da funda\u00e7\u00e3o. Sabe-se l\u00e1. De qualquer forma, conv\u00e9m aplaudir a iniciativa. Realidade foi a quintess\u00eancia do jornalismo investigativo, projeto arrojado gr\u00e1fica e editorialmente que vingou na segunda metade dos anos 60; mais precisamente de 66 a 76.<\/p>\n<p>Quase que igualmente por obra do acaso, as editoras Ulbra e ARG est\u00e3o publicando em livro a tese de doutorado do professor Jos\u00e9 Salvador Faro que estuda e analisa justamente o per\u00edodo de maior turbul\u00eancia e criatividade de Realidade, entre abril de 66 a dezembro de 68.<\/p>\n<p>O professor Faro esteve na tarde de ter\u00e7a-feira (28\/09) no Semin\u00e1rio da C\u00e1tedra da Unesco na Universidade Metodista do Estado de S\u00e3o Paulo para falar sobre o livro &#8220;Revista Realidade \u20131966\/1968. Tempo de Reportagem na Imprensa Brasileira&#8221; e debater sobre o momento atual da Imprensa nativa.<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, a compara\u00e7\u00e3o \u00e9 mesmo inevit\u00e1vel. E, diga-se, bem oportuna, especialmente para quem vivencia o atual momento da Imprensa nativa. O rep\u00f3rter se transforma, hoje, em tecnocrata da informa\u00e7\u00e3o, submisso aos manuais de Reda\u00e7\u00e3o, \u00e0 ditadura do dead-line e dos editores e aos interesses do patr\u00e3o. Ou seja, muito distante do jornalismo que se praticou naqueles tempos, denominados por alguns de rom\u00e2nticos.<\/p>\n<p>Segundo o professor, a grande mola propulsora da revista foi a liberdade com que a Reda\u00e7\u00e3o trabalhava qualquer que fosse o tema. N\u00e3o houve, neste primeiro momento, inger\u00eancias administrativas e\/ou publicit\u00e1rias e comerciais na pauta. Menos ainda qualquer injun\u00e7\u00e3o pol\u00edtica ou institucional.<\/p>\n<p>Neste primeiro momento da Realidade, o rep\u00f3rter tem o dom\u00ednio do que escreve. Ele vive uma esp\u00e9cie de excita\u00e7\u00e3o criativa, faz parte da not\u00edcia \u2013 seja qual for o rumo que esta tomar. Trabalha o factual como parte inerente ao cotidiano do leitor. H\u00e1 sempre uma tem\u00e1tica quente, preferencialmente voltada para o comportamental \u2013 exatamente quando eclode a Revolu\u00e7\u00e3o dos Costumes. &#8220;\u00c9 proibido proibir&#8221; \u2013 diz o lema dos estudantes franceses em 68, anunciando o mote dos novos tempos e do que pressupunham a nova ordem mundial.<\/p>\n<p>Em sintonia com essa trinca na alma do mundo, os rep\u00f3rteres de Realidade chutam o balde do tradicionalismo estanque da nossa Imprensa. A unidade b\u00e1sica da reportagem n\u00e3o \u00e9 mais apenas o fato, mas os m\u00faltiplos estilha\u00e7os que formam uma realidade em constante muta\u00e7\u00e3o. N\u00e3o h\u00e1 mais o olho impessoal. O rep\u00f3rter vive a cena, faz um meticuloso trabalho de reconstitui\u00e7\u00e3o e envolve o leitor com um texto que desenvolve o estilo e a sensibilidade para tecer a teia da informa\u00e7\u00e3o.<br \/>\nN\u00e3o por acaso que Realidade foi contempor\u00e2nea de uma tend\u00eancia da Imprensa americana denominada New Journalism ou Parajournalism. Tanto l\u00e1 como na publica\u00e7\u00e3o da Abril trabalha-se especialmente as t\u00e9cnicas narrativas, pr\u00f3prias ao romance realista \u2013 imediatismo da situa\u00e7\u00e3o, realidade concreta das cenas, envolvimento emocional e a qualidade de absorver a aten\u00e7\u00e3o do leitor da primeira \u00e0 \u00faltima linha do texto.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 por acaso que o auge da publica\u00e7\u00e3o \u00e9 exatamente o per\u00edodo analisado pelo professor. A partir da\u00ed, com a implanta\u00e7\u00e3o do Ato Institucional n.5, a a\u00e7\u00e3o da censura quebra o projeto inicial de Realidade que perde em qualidade e inicia uma fase de franco decl\u00ednio at\u00e9 desaparecer em 76, debilitada e ausente das grandes quest\u00f5es nacionais.<\/p>\n<p>A pr\u00f3pria Editora Abril parece se desinteressar do t\u00edtulo \u2013 e, \u00e0 \u00e9poca, apostou num projeto de revista de informa\u00e7\u00e3o, que resultou em Veja. Um projeto menos ousado, gr\u00e1fica e editorialmente. Fica claro esse vi\u00e9s no epis\u00f3dio que culmina com a demiss\u00e3o do primeiro diretor de Reda\u00e7\u00e3o, jornalista Mino Carta. Uma demiss\u00e3o negociada entre os Civita e os ent\u00e3o senhores do Poder. Em troca da degola do jornalista, a revista tem o fim da censura pr\u00e9via \u2013 e, mesmo a discreta dist\u00e2ncia, a fam\u00edlia\/empresa se prop\u00f5e a ser, digamos, mais cuidadosa com o que pode ou n\u00e3o pode ser publicado.<\/p>\n<p>Passa a valer a voz do dono, e n\u00e3o mais o dono da voz&#8230;<\/p>\n<p>* Publicado na revista M\u00eddia F\u00f3rum, editada pela C\u00e1tedra da Unesco e da P\u00f3s em Comunica\u00e7\u00e3o Social da Universidade Metodista de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o se sabe exatamente sob qual pretexto a Editora Abril lan\u00e7ou recentemente uma antologia das reportagens da revista Realidade, decididamente um marco na hist\u00f3ria da Imprensa contempor\u00e2nea brasileira. 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