{"id":13060,"date":"2015-04-10T00:00:00","date_gmt":"2015-04-10T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:03:26","modified_gmt":"2017-09-15T19:03:26","slug":"apesar-de-voce-a-historia-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/apesar-de-voce-a-historia-2\/","title":{"rendered":"Apesar de Voc\u00ea, a hist\u00f3ria (2)"},"content":{"rendered":"<p>IV.<\/p>\n<p>&#8211; Pode soltar roj\u00f5es. Passou&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; O qu\u00ea?<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea n\u00e3o vai acreditar. A m\u00fasica do Chico passou.<\/p>\n<p>&#8211; Do que voc\u00ea est\u00e1 falando?<\/p>\n<p>&#8211; \u201cApesar de voc\u00ea\u201d. Os homens aprovaram, sem cortes.<\/p>\n<p>Manoel Barenboim n\u00e3o s\u00f3 acreditou no que lhe dizia ao telefone o representante da Philips em Bras\u00edlia como fez mais e melhor. Ligou para todos os setores da gravadora para que n\u00e3o perdessem um minuto sequer \u2013 e colocasse nas lojas o compacto de Chico Buarque que a censura acabara de liberar.<\/p>\n<p>No dia seguinte, o disco estava nas melhores casas do ramo e nas r\u00e1dios (que mal acreditaram quando receberam o material  de divulga\u00e7\u00e3o).<\/p>\n<p>Em dois dias, o samba estava na boca do povo. Vendeu 80 mil exemplares. Com menos de uma semana, j\u00e1 batia os 100 mil.<\/p>\n<p>Sucesso absoluto.<\/p>\n<p>V.<\/p>\n<p>Sucesso absoluto at\u00e9 que o jornalista Sebasti\u00e3o Nery publicou uma inocente nota no jornal Tribuna da Imprensa. Ele se dizia encantado: a can\u00e7\u00e3o de Chico virara hino da juventude. Inclusive os pr\u00f3prios filhos do jornalista a cantavam da manh\u00e3 \u00e0 noite.<\/p>\n<p>Algu\u00e9m de farda suspeitou que houvesse algo de estranho naquela publica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>(Nesse \u00ednterim, a cantora Clara Nunes, de incr\u00edvel popularidade \u00e0 \u00e9poca, se encantou com a m\u00fasica e decidiu grav\u00e1-la no disco que estava finalizando. Dizem que Clara n\u00e3o se deu conta do cunho pol\u00edtico dos versos de \u201cApesar de Voc\u00ea\u201d. Imaginou que se tratasse de um desabafo de algu\u00e9m que viu seu amor desmoronar.)<\/p>\n<p>VI.<\/p>\n<p>No depoimento de Sebasti\u00e3o Nery ao Departamento de Censura, os senhores do Poder, enfim, se deram conta de que haviam comido bola. O \u201cvoc\u00ea\u201d que Chico entoava era ningu\u00e9m mais, ningu\u00e9m menos que o general-presidente de plant\u00e3o, M\u00e9dici. Por extens\u00e3o, a letra proclamava que, apesar da ditadura, \u201camanh\u00e3 h\u00e1 de ser um novo dia\u201d.<\/p>\n<p>Foi o suficiente para que a festa acabasse.<\/p>\n<p>Os discos foram recolhidos das lojas. As r\u00e1dios foram proibidas de execut\u00e1-la. E for\u00e7as militares invadiram os dep\u00f3sitos da gravadora e de l\u00e1 levaram caixas e caixas de compactos que ainda seriam distribu\u00eddos por todo o Brasil.<\/p>\n<p>O censor que a liberou foi demitido por incompet\u00eancia.<\/p>\n<p>Clara Nunes foi \u201cconvidada\u201d a reparar o erro e se apresentar na Olimp\u00edada do Ex\u00e9rcito.<\/p>\n<p>E Chico continuou na dele:<\/p>\n<p>\u201cA censura me enche muito o saco. Mas, eu tamb\u00e9m encho muito o saco da censura.\u201d<\/p>\n<p>** A m\u00fasica foi liberada oito anos depois, no governo do general-presidente Ernesto Geisel.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>IV.<\/p>\n<p>&#8211; Pode soltar roj\u00f5es. 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