{"id":13579,"date":"2017-02-15T00:00:00","date_gmt":"2017-02-15T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T18:38:15","modified_gmt":"2017-09-15T18:38:15","slug":"aquele-bilhete-para-salvador","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/aquele-bilhete-para-salvador\/","title":{"rendered":"Aquele bilhete para Salvador"},"content":{"rendered":"<p>&#8211; Deu. Minha cota j\u00e1 deu. <\/p>\n<p>&#8211; Ham?<\/p>\n<p>&#8211; O que tinha que ser j\u00e1 foi.<\/p>\n<p>&#8211; Como assim?<\/p>\n<p>&#8211; Nossos melhores momentos, Andr\u00e9, s\u00e3o coisas do passado. Vai para o arquivo morto da mem\u00f3ria.<\/p>\n<p>&#8211; Morto? Quem morreu?<\/p>\n<p>Julinha, a amada Ju, idolatrada, salve, salve, desistiu. Foi para o quarto em passos lentos, arrastados. Antes de trancar a porta, deu a letra:<\/p>\n<p>&#8211; Dorme no sof\u00e1 hoje, dorme. Vai ser melhor pra n\u00f3s.<\/p>\n<p>&#8211; No sof\u00e1? Dormir no sof\u00e1, por qu\u00ea?<\/p>\n<p>Julinha, ainda jovem, bonita e cheia de vida, nem respondeu. Entrou no quarto e reapareceu segundos depois com o travesseiro e um len\u00e7ol nas m\u00e3os e, solenemente, os entregou ao apatetado Andr\u00e9. <\/p>\n<p>Assinou o momento, com a c\u00e9lebre frase do Poetinha:<\/p>\n<p>&#8211; Que seja eterno enquanto dure&#8230;<\/p>\n<p>E concluiu:<\/p>\n<p>&#8211; Passou, passamos&#8230;<\/p>\n<p>(&#8230;)<\/p>\n<p>Com os apetrechos de dormir ainda nas m\u00e3os, Andr\u00e9 ainda teimou em n\u00e3o acreditar no que toda aquela cena deixar\u00e1 expl\u00edcito.<\/p>\n<p>\u201cO que deu nessa maluca? \u201d  &#8211; pensou, e logo se corrigiu, imaginando que Julinha, a amada Ju, tivesse o dom de ler pensamentos e, a\u00ed sim, o caldo entornaria de vez:<\/p>\n<p>\u201cO que deu nessa mulher? O que foi que eu fiz?<\/p>\n<p>Dispensou travesseiro e len\u00e7ol, largou-se no sof\u00e1 para um involunt\u00e1rio exame de consci\u00eancia. Era um homem bem-apessoado, trabalhava 12 horas por dia, assistia seu futebolzinho pela TV, bebia socialmente (\u201cpor falar nisso, vou preparar um cowboy para esquentar o peito\u201d), n\u00e3o tinha v\u00edcios: manias, algumas poucas e raras (esquecia a torneira aberta do banheiro todos os dias e a Julinha achava p\u00e9ssimo esse descuido), era metido a menin\u00e3o, mas &#8230; <\/p>\n<p>O que deixou a mulher amada nessa vibe?<\/p>\n<p>Pensou, repensou.<\/p>\n<p>N\u00e3o chegou a qualquer conclus\u00e3o.<\/p>\n<p>(&#8230;) <\/p>\n<p>Dormiu de copo vazio na m\u00e3o. <\/p>\n<p>Sono pesado, lavado e enxaguado no desassossego, e, l\u00e1 pelas tantas, enfrentou um pesadelo daqueles. Imaginem o Compadre Washington (aquele do Tchan que ele tanto detestava na fase \u00e1urea, agora e sempre) a lhe assombrar, com cara de deboche, e a dizer:<\/p>\n<p>\u201cSabe de nada, o inocente\u201d.<\/p>\n<p>Mesmo anestesiado pelo sono, sentiu o cora\u00e7\u00e3o acelerar e o peito arder.<\/p>\n<p>A voz se fazia a cada segundo ainda mais amea\u00e7adora:<\/p>\n<p>\u201cAs mulheres mudam e esquecem de nos avisar. \u201d<\/p>\n<p>Pior do que a frase, foi o riso escancarado que a acompanhava&#8230;<\/p>\n<p>(&#8230;)<\/p>\n<p>Acordou assustado. Madrugada alta. Zanzou pela sala \u00e0 procura do interruptor para clarear a sala e as ideias. <\/p>\n<p>Precisar respirar, beber uma \u00e1gua, sei l\u00e1.<\/p>\n<p>Tateando no escuro, apoiou-se em um aparador e sentiu seus dedos tocarem tocar num papel com textura diferente, uma esp\u00e9cie de filipeta. <\/p>\n<p>Acendeu as luzes \u2013 e de imediato foi ler o que era.<\/p>\n<p>Fim do mist\u00e9rio.<\/p>\n<p>Tinha agora nas m\u00e3os uma passagem, s\u00f3 de ida, para Salvador. A viagem estava marcada para 19 de fevereiro, doming\u00e3o, uma semana antes do carnaval. <\/p>\n<p>A quem pertencia aquele bilhete?<\/p>\n<p>Estava ali escrito:<\/p>\n<p>A Maria Julia de Albuquerque, o nome de solteira de Julinha.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8211; Deu. 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