{"id":13618,"date":"2017-04-03T00:00:00","date_gmt":"2017-04-03T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2023-01-28T04:35:46","modified_gmt":"2023-01-28T04:35:46","slug":"a-cigarreira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/a-cigarreira\/","title":{"rendered":"A cigarreira"},"content":{"rendered":"<p>J\u00e1 lhes falei aqui do v\u00f4 Carlito?<\/p>\n<p>Imagino que sim.<\/p>\n<p>Mais de 3 mil posts, como n\u00e3o falar de figura t\u00e3o singular na minha vida?<\/p>\n<p>Primeiro, porque tinha um nome pomposo: Carlos Humberto Vit\u00f3rio Avezzani.<\/p>\n<p>Segundo, imagine para uma crian\u00e7a dos anos 50 o que era legal ter um av\u00f4 bonach\u00e3o, com o apelido de Carlito?<\/p>\n<p>Inevit\u00e1vel a associa\u00e7\u00e3o ao l\u00fadivo personagem de Charles Chaplin nas telas dos cinemas.<\/p>\n<p>O v\u00f4 Carlito tamb\u00e9m era muito divertido.<\/p>\n<p>Carioca de Cascatinha, de ascend\u00eancia napolitana, s\u00f3 essa mistura j\u00e1 garantia o boa-pra\u00e7a que ele sempre foi.<\/p>\n<p>(&#8230;)<\/p>\n<p>Aproveito o \u00f3cio do doming\u00e3o para mexer numa gaveta de coisas antigas \u2013 e encontro a cigarreira de madrep\u00e9rola que v\u00f4 usava, sempre repleta de cigarros Luxor, sem filtro.<\/p>\n<p>N\u00e3o houve como conter a emo\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>As lembran\u00e7as se fizeram vivas.<\/p>\n<p>(&#8230;)<\/p>\n<p>Meninote, quatro ou cinco anos, o v\u00f4 Carlito me levava pela m\u00e3o ao jardim florido que havia (ainda h\u00e1?) nos arredores da escadaria em frente \u00e0 igreja Nossa Senhora da Gl\u00f3ria, no Cambuci.<\/p>\n<p>O v\u00f4 chutando a bola para que eu defendesse na viela de piso barrento ao lado da casa, onde morava na rua Lavap\u00e9s.<\/p>\n<p>A voz do v\u00f4, pura emo\u00e7\u00e3o, a cantar \u201cLuar do Sert\u00e3o\u201d. Copo de vinho em uma das m\u00e3os, o cigarro na outra.<\/p>\n<p>Ou ainda ele, na janela, a provocar as tecel\u00e3s que passavam na cal\u00e7ada da Lavap\u00e9s.<\/p>\n<p>Um galanteador.<\/p>\n<p>\u201c\u00d4, morena bonita, bom almo\u00e7o. \u201d<\/p>\n<p>O v\u00f4 n\u00e3o era f\u00e1cil<\/p>\n<p>(&#8230;)<\/p>\n<p>O v\u00f4 Carlito era chapeleiro. Trabalhava no Ramenzoni, uma das mais conceituadas f\u00e1bricas de chap\u00e9us do Pa\u00eds.<\/p>\n<p>Tirou proveito do seu of\u00edcio para confeccionar um chap\u00e9u para mim igualzinho ao modelo que os adultos que exibiam.<\/p>\n<p>Garotos, como eu, usavam bon\u00e9s de pano para se proteger do sol. S\u00f3 os marmanj\u00f5es tinham o direito de cobrir a cabe\u00e7a com um chap\u00e9u, de cores s\u00f3brias, escuras. Podiam ser pretos, marrons ou cinzas, como o meu.<\/p>\n<p>Foi um gesto de carinho, disse a m\u00e3e. Nem para o pr\u00f3prio filho, meu tio Neno, ele tivera tamanha distin\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>(&#8230;)<\/p>\n<p>As conven\u00e7\u00f5es daqueles idos n\u00e3o eram f\u00e1ceis, n\u00e3o.<\/p>\n<p>As pessoas me olhavam de um jeito estranho, tipo: \u201cquem \u00e9 o figurinha? \u201d.<\/p>\n<p>Logo ganhei o apelido de o Menino do Chap\u00e9u.<\/p>\n<p>Sentia um leve deboche nos coment\u00e1rios.<\/p>\n<p>Mas, n\u00e3o me fiz de rogado.<\/p>\n<p>Continuei fiel ao meu novo look.<\/p>\n<p>(&#8230;)<\/p>\n<p>A bem da verdade fiz uma breve adapta\u00e7\u00e3o aos novos padr\u00f5es que, naquela fase, me interessavam.<\/p>\n<p>Uma heresia.<\/p>\n<p>Dobrei as abas para dentro \u2013 e transformei o leg\u00edtimo Ramenzoni numa c\u00f3pia fiel do chap\u00e9u de Roy Rogers, o cowboy valent\u00e3o do seriado da TV.<\/p>\n<p>O v\u00f4 n\u00e3o deve ter gostado nada da brincadeira.<\/p>\n<p>Ainda lembro o coment\u00e1rio que fez ao me ver com o chap\u00e9u todo amarfanhado:<\/p>\n<p>&#8211; Esses moleques de hoje n\u00e3o t\u00eam jeito mesmo&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>J\u00e1 lhes falei aqui do v\u00f4 Carlito?<\/p>\n<p>Imagino que sim.<\/p>\n<p>Mais de 3 mil posts, como n\u00e3o falar de figura t\u00e3o singular na minha vida?<\/p>\n<p>Primeiro,<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[1546,2945,283,2946,2461],"class_list":["post-13618","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-blog","tag-chapeu","tag-cigarreira","tag-memorias","tag-ramenzoni","tag-vo-carlito"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13618","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=13618"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13618\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":28514,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13618\/revisions\/28514"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=13618"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=13618"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=13618"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}