{"id":13624,"date":"2017-04-10T00:00:00","date_gmt":"2017-04-10T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T18:36:52","modified_gmt":"2017-09-15T18:36:52","slug":"sem-misterios","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/sem-misterios\/","title":{"rendered":"Sem mist\u00e9rios&#8230;"},"content":{"rendered":"<p>Olhava a mo\u00e7a a jogar o vasto cabelo de um lado para o outro, de minuto a minuto.<\/p>\n<p>O que ser\u00e1 que ela est\u00e1 pensando?<\/p>\n<p>Ser\u00e1 tique nervoso?<\/p>\n<p>S\u00f3 a conhecia de vista; vez ou outra, a cumprimentava, mais por educa\u00e7\u00e3o do que qualquer outro interesse.<\/p>\n<p>Da parte dela, o mesmo distanciamento.<\/p>\n<p>Trabalhavam no mesmo setor, mas em \u00e1reas distintas.<\/p>\n<p>N\u00e3o entendeu o porqu\u00ea hoje ela lhe chamara a aten\u00e7\u00e3o acima do habitual.<\/p>\n<p>\u00d3 doce mist\u00e9rio da vida!<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>Era bonita? \u2013 h\u00e1 de me perguntar o saliente leitor. E eu lhe direi que n\u00e3o era l\u00e1 de arrebentar cora\u00e7\u00f5es. Tinha l\u00e1 dessas belezas que se camuflam atr\u00e1s de um par de \u00f3culos. De uma roupa s\u00f3bria, de um falar baixo, discreto. Mas, hoje, a mo\u00e7oila estava atacada&#8230; Viera conversar com outra funcion\u00e1ria \u2013 conversa que Leoc\u00e1dio n\u00e3o podia ouvir. <\/p>\n<p>Por um instante, espichou o pesco\u00e7o para al\u00e9m da tela do computador e a encontrou, ali, a uns 10 ou 12 metros de dist\u00e2ncia a inquietar-se com o penteado.<\/p>\n<p>Leoc\u00e1dio, o escritur\u00e1rio padr\u00e3o, parecia enfeiti\u00e7ado com os meneios daqueles cabelos lisos. Fixou ainda mais os olhos na mo\u00e7a que sequer percebeu que estava sendo vigiada e ele pr\u00f3prio, o L\u00e9o dos relat\u00f3rios precisos e elaborados, o solit\u00e1rio sem emo\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>J\u00e1 embicava os quarenta e tantos, e sua vida n\u00e3o tinha segredos, nem desv\u00e3os. Mas, hoje, sei l\u00e1, hoje ele se achou estranho&#8230; <\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>E se p\u00f4s a viajar em pensamentos \u00e0 toa. Viajar sem sair do lugar.<\/p>\n<p>N\u00e3o conseguia lembrar o nome da figura. J\u00e1 escutara, aqui e ali, mas, \u00f4 cabe\u00e7a&#8230; <\/p>\n<p>Como ser\u00e1 a vida dela fora do trabalho? <\/p>\n<p>Ser\u00e1 que mora sozinha? <\/p>\n<p>Ser\u00e1 que namora?<\/p>\n<p>Nunca soube nada a seu respeito.<\/p>\n<p>Talvez era se pare\u00e7a um pouco comigo?<\/p>\n<p>Ser\u00e1 que \u00e9 feliz?<\/p>\n<p>Quem seria feliz ali, entre os iguais, naquela reparti\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>IV.<\/p>\n<p>Ops&#8230;<\/p>\n<p>Estava fugindo do misterioso tema que a vis\u00e3o lhe propiciou. <\/p>\n<p>Quando acordou da viagem pra dentro de si, a mo\u00e7a n\u00e3o estava mais l\u00e1. <\/p>\n<p>Foi embora, hora do almo\u00e7o. <\/p>\n<p>Os colegas continuavam a lida indiferente ao que ele estava pensando&#8230; e o que ele pensava?<\/p>\n<p>Que os relat\u00f3rios est\u00e3o cada dia mais chatos.<\/p>\n<p>Que n\u00e3o tem mais nenhuma gra\u00e7a em redigi-los.<\/p>\n<p>Que as pessoas ao redor n\u00e3o parecem nada animadas.<\/p>\n<p>Que devem estar t\u00e3o entediadas quanto ele. Inclusive, ela, a mo\u00e7a que se fora e que, a partir daquele momento, se transformara num belo enigma.<\/p>\n<p>V.<\/p>\n<p>Pensou no menino do Acre que transformou o quarto, da casa onde morava com os pais e uma irm\u00e3, num grande livro com mensagens criptografadas. Depois disso caiu no mundo. Desapareceu como por magia. <\/p>\n<p>Gostaria, um desejo \u00edntimo n\u00e3o revelado a ningu\u00e9m, de fazer o mesmo: fugir dali, sem deixar vest\u00edgio. <\/p>\n<p>Reconheceu, por\u00e9m, que n\u00e3o teria paci\u00eancia (nem vontade) para forrar as paredes com um texto amalucado em uma linguagem que ele pr\u00f3prio inventaria e que ningu\u00e9m conseguiria entender. Daria um trabalho danado.<\/p>\n<p>Preferiu copiar a mo\u00e7a. Saiu a passos lentos, de fininho. Arrumou os poucos cabelos que lhe restaram, e foi almo\u00e7ar.<\/p>\n<p>Era mesmo um homem sem segredos. Mas, tinha fome.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Olhava a mo\u00e7a a jogar o vasto cabelo de um lado para o outro, de minuto a minuto.<\/p>\n<p>O que ser\u00e1 que ela est\u00e1 pensando?<\/p>\n<p>Ser\u00e1 tique nervoso?<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-13624","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-blog"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13624","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=13624"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13624\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":14427,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13624\/revisions\/14427"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=13624"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=13624"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=13624"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}