{"id":13633,"date":"2017-04-30T00:00:00","date_gmt":"2017-04-30T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T18:36:51","modified_gmt":"2017-09-15T18:36:51","slug":"belchior-19462017","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/belchior-19462017\/","title":{"rendered":"Belchior (1946\/2017)"},"content":{"rendered":"<p>Ant\u00f4nio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes.<\/p>\n<p>Eu o amolava.<\/p>\n<p>Isso n\u00e3o \u00e9 um nome. \u00c9 um t\u00edtulo de nobreza.<\/p>\n<p>Sempre foi Belchior. Todos o conheciam. Simplesmente Belchior, para as artes. M\u00fasica, poesia e telas \u2013 muitas, dele e de outros pintores, que tomavam todos as paredes, do teto ao r\u00e9s do ch\u00e3o, da casa onde morou, pr\u00f3xima ao aeroporto de Congonhas, aqui, em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>Foi l\u00e1 que nos encontramos pela \u00faltima vez. L\u00e1 se v\u00e3o quase 20 anos. Levei um grupo de estudantes de Jornalismo para entrevist\u00e1-lo sobre o efervescente cen\u00e1rio musical brasileiro na d\u00e9cada de 70.<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>Belchior foi o mais representativo cantor\/compositor daqueles anos \u00e1speros \u2013 pois, marcados pela censura e pelo regime ditatorial \u2013 e transformadores. <\/p>\n<p>Havia uma cumplicidade entre autor e os jovens de ent\u00e3o \u2013 eu, entre eles. Seus versos eram os nossos versos. As nossas afli\u00e7\u00f5es, ang\u00fastias, verdades, anseios&#8230;<\/p>\n<p>Pertenceu ao que o jornalista T\u00e1rik de Souza definiu, \u00e0 \u00e9poca, como a \u201cGera\u00e7\u00e3o de Briga\u201d da MPB. Belchior e seus contempor\u00e2neos \u2013 Ivan Lins, Alceu Valen\u00e7a, Luiz Melodia, Raul Seixas, S\u00e9rgio Sampaio, Fagner, Ednardo, Gonzaguinha, Novos Baianos, Jo\u00e3o Bosco, Djavan, Jorge Mello, Geraldo Azevedo, Walter Franco, Eduardo Gudim, Djavan, Carlinhos Vergueiro, Diana Pequeno, Elba, Z\u00e9 Ramalho entre outros \u2013 deram voz e vez ao canto de um povo sufocado pelos ditadores de plant\u00e3o e seus cupinchas.<\/p>\n<p>(N\u00e3o era l\u00e1 muito diferente do status quo que hoje infelizmente vemos dando \u00e0s ordens na m\u00eddia e no Pa\u00eds.)<\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>O disco \u201cAlucina\u00e7\u00e3o\u201d, (lan\u00e7ado em 77, pela Polygran) rompeu as morda\u00e7as tanto nas emissoras de r\u00e1dio como nas de TV. Sucessos como \u201cApenas Um Rapaz Latino Americano\u201d, \u201cComo Nossos Pais\u201d, \u201cGalos, Noites e Quintais\u201d, \u201cVelha Roupa Colorida\u201d e a faixa t\u00edtulo \u201cAlucina\u00e7\u00e3o\u201d tiveram uma aceita\u00e7\u00e3o imediata de cr\u00edtica e p\u00fablico.<\/p>\n<p>A partir da\u00ed, Belchior tornou-se um dos principais nomes da cena art\u00edstica nacional. <\/p>\n<p>IV.<\/p>\n<p>Eu o entrevistei v\u00e1rias vezes para os diversos jornais em que trabalhei. (No site, reproduzo um desses encontros na se\u00e7\u00e3o \u201cLeia esta can\u00e7\u00e3o\u201d). Era um cara esclarecido, culto que dizia traduzir, em seus versos e can\u00e7\u00f5es, a verdade nua e crua daqueles dias. \u201cMas, sem perder a po\u00e9tica\u201d, me disse, certa vez.<\/p>\n<p>&#8211; Sem perder a ternura, sempre, retruquei.<\/p>\n<p>Em outra ocasi\u00e3o, veio ao jornal em que eu trabalhava para divulgar o show que faria no Teatro It\u00e1lia. Seria algo mais intimista, ac\u00fastico. Tempos menos densos. A redemocratiza\u00e7\u00e3o do Pa\u00eds j\u00e1 era uma realidade \u2013 in\u00edcio dos anos 80. Ele entendia que j\u00e1 n\u00e3o cabia o grito, o escancaro; mas, sim, as sinuosidades dos sentimentos. A palavra se sobrepondo \u00e0 melodia, sem negligenci\u00e1-la, \u00f3bvio.<\/p>\n<p>V.<\/p>\n<p>Ao fim da entrevista, eu o comparei a um Bob Dylan tupiniquim.<\/p>\n<p>Desconfio que n\u00e3o gostou. Balan\u00e7ou a cabe\u00e7a, e sorriu.<\/p>\n<p>&#8211; Sem compara\u00e7\u00f5es, disse. &#8211; Sou de Sobral, Cear\u00e1. Brasil. E isso muda tudo. E \u00e9 o que me basta: cantar e mudar as coisas \u00e9 o que me interessa.<\/p>\n<p>Despediu-se &#8211; e se foi dirigindo o seu Mini Gurgel de dois lugares.<\/p>\n<p>Descanse em paz, amigo. Sua obra continuar\u00e1 falando por n\u00f3s, a sua gente, a nossa gente.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ant\u00f4nio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes.<\/p>\n<p>Eu o amolava.<\/p>\n<p>Isso n\u00e3o \u00e9 um nome. \u00c9 um t\u00edtulo de nobreza.<\/p>\n<p>Sempre foi Belchior. 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