{"id":18192,"date":"2018-01-09T13:55:29","date_gmt":"2018-01-09T13:55:29","guid":{"rendered":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/?p=18192"},"modified":"2026-03-13T12:43:33","modified_gmt":"2026-03-13T12:43:33","slug":"cony","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/cony\/","title":{"rendered":"Cony"},"content":{"rendered":"<p><em>O jornalista e escritor\u00a0<strong>Carlos Heitor Cony<\/strong>\u00a0morreu, por volta das 23h desta sexta- feira (5), aos 91 anos. Ele estava internado desde 26 de dezembro no Hospital Samaritano, no Rio. Em 1\u00ba de janeiro, foi submetido a uma cirurgia no intestino e teve complica\u00e7\u00f5es. A causa da morte foi fal\u00eancia de \u00f3rg\u00e3os.<\/em><\/p>\n<p><em>(O Globo)<\/em><\/p>\n<p><strong>I.<\/strong><\/p>\n<p>Durante muitos anos, d\u00e9cadas at\u00e9, assinei a Folha de S. Paulo para ter em m\u00e3os, recortar e guardar as cr\u00f4nicas di\u00e1rias de Carlos Heitor Cony. Normalmente, ele escrevia na p\u00e1gina 2 e, \u00e0s sextas, meia p\u00e1gina na contracapa da Ilustrada.<\/p>\n<p>Meu filho se divertia ao me ver, nesta \u00e9poca do ano, super atarefado na miss\u00e3o de recuperar as colunas que ainda n\u00e3o havia lido. Me embaralhava diante da pilha de jornais que se acumulara durante minhas viagens de f\u00e9rias.<\/p>\n<p>&#8211; Deixa disso, pai. Os textos est\u00e3o todos dispon\u00edveis na internet.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 bem assim, eu dizia.<\/p>\n<p>&#8211; Esses recortes t\u00eam um valor imensur\u00e1vel para mim.<\/p>\n<p>\u00c9 prov\u00e1vel que n\u00e3o me tenha entendido.<\/p>\n<p>Para mim, eram tesouros que, desde ent\u00e3o e ainda hoje, guardo com desvelo.<\/p>\n<p><strong>II.<br \/>\n<\/strong><br \/>\nCony sempre foi uma refer\u00eancia para os da minha gera\u00e7\u00e3o &#8211; e para mim muito especialmente.<\/p>\n<p>N\u00e3o o conheci pessoalmente. Mas est\u00e1 entre os que me influenciaram e deram r\u00e9gua e compasso para tra\u00e7ar meus combalidos passos profissionais e pessoais neste mundo confuso e turbulento.<\/p>\n<p>N\u00e3o consigo precisar quem me encantou primeiro. O Cony jornalista ou o Cony escritor? H\u00e1 ainda um terceiro Cony, o da vida real. Aquele senhor descolado, culto e demolidor em seus conceitos nas entrevistas que dava e nas palestras que fazia.<\/p>\n<p>Lembro a conversa com Mar\u00edlia Gabriela e o Macaco Sim\u00e3o num programa que ambos comandavam no SBT. O jornalista \u00a0estava impag\u00e1vel na explica\u00e7\u00e3o de o porqu\u00ea viera de terno claro para o encontro em S\u00e3o Paulo, mesmo sabendo da fama de terra da garoa (e friorenta) \u00a0que a cidade tem.<\/p>\n<p>Disse mais ou menos o seguinte: o terno era uma esp\u00e9cie de talism\u00e3. Toda vez que precisava voar e se sentia inseguro, ele o vestia. O costume lhe dava uma sorte danada, pois o avi\u00e3o nunca caiu.<\/p>\n<p><strong>III.<\/strong><\/p>\n<p>Sempre me disseram que, no trato pessoal, Cony esbanjava bom humor; por vezes, marcado por ironias e mordacidade. Transitava folgadamente entre o c\u00e1ustico e o l\u00edrico.<\/p>\n<p>Quase sempre, ele pr\u00f3prio era a v\u00edtima.<\/p>\n<p>Faz sentido.<\/p>\n<p>Uma de suas defini\u00e7\u00f5es mais frequente de si era:<\/p>\n<p>\u201cSou apenas um anarquista inocente e triste que, quando muito, s\u00f3 faz mal a si pr\u00f3prio.\u201d<\/p>\n<p><strong>IV.<\/strong><\/p>\n<p>Na Literatura, o desabrido lirismo \u00e9 marca de um de seus melhores livros: \u201cQuase Mem\u00f3ria\u201d. Trata-se de um tocante relato das aventuras\/desventuras do pai, o jornalista Ernesto Cony, pelos olhos m\u00e1gicos do filho, o pr\u00f3prio Cony.<\/p>\n<p>\u00c9 uma de minhas leituras preferidas. Talvez porque ora me veja no papel do pai, sonhador e trapalh\u00e3o. Ora me veja como o filho, embasbacado diante das \u2018proezas\u2019 paternas e das armadilhas do mundo.<\/p>\n<p>A bem da verdade, \u00e9 uma identifica\u00e7\u00e3o rasa. Algo pretensiosa, reconhe\u00e7o, sei bem. Falta-me a verve do Ernesto\/personagem para enfrentar o cinza do mundo e o talento descomunal do filho\/narrador de tantas e tamanhas fa\u00e7anhas.<\/p>\n<p><strong>V.<\/strong><\/p>\n<p>Uma hist\u00f3ria pessoal, se me permitem, a t\u00edtulo de ilustrar o que lhes digo.<\/p>\n<p>Quando meu filho entrou na Universidade para cursar jornalismo, um de seus professores, o S\u00e9rgio Rizzo, lembrou-se de mim, dos tempos em que cobr\u00edamos as entrevistas coletivas na \u00e1rea da m\u00fasica popular brasileira..<\/p>\n<p>Rizzo recomendou-me \u00e0 professora Katy Nasar e ao professor Jos\u00e9 Faro, que comandavam o curso da Universidade Metodista de S\u00e3o Paulo, para que eu ministrasse aulas de \u201cLinguagem Jornal\u00edstica\u201d.<\/p>\n<p>Na manh\u00e3 seguinte, recebo a liga\u00e7\u00e3o da professora Katy na Reda\u00e7\u00e3o em que trabalhava.<\/p>\n<p>Fiquei lisonjeado.<\/p>\n<p>Antes de aceitar o convite, por\u00e9m, decidi conversar com o garoto.<\/p>\n<p>Levei comigo para o encontro um exemplar do livro do Cony para que ele entendesse melhor a cena. Assim poderia dar o devido desconto \u00e0 minha intromiss\u00e3o em seu novo universo.<\/p>\n<p>Ao que sei, ele gostou da narrativa, e aturou com eleg\u00e2ncia, durante quatro anos, o pai\/professor e suas patacoadas.<\/p>\n<p><strong>VI.<\/strong><\/p>\n<p>Citei \u201cQuase Mem\u00f3ria\u201d, mas poderia listar outras tantas obras de Cony que me foram fundamentais. \u201cPessach. A Travessia\u201d, \u201cAntes, o Ver\u00e3o\u201d, \u201cA Casa do Poeta Tr\u00e1gico\u201d, \u201cO Ventre\u201d, entre os 17 romances que escreveu (sem contar, as adapta\u00e7\u00f5es de cl\u00e1ssicos, os ensaios, os livros-reportagens, as colet\u00e2neas de cr\u00f4nicas. Enfim, quase uma centena de t\u00edtulos.)<\/p>\n<p>Lembro sempre uma frase de um de seus livros (n\u00e3o vou dizer qual, para n\u00e3o lhes estragar a leitura, car\u00edssimos leitores). O autor\/narrador \u00e9 contundente na explica\u00e7\u00e3o de como, no ato, reconheceu a crian\u00e7a que lhe apresentavam como o filho que nunca imaginou ter.<\/p>\n<p>No momento da apresenta\u00e7\u00e3o, eentendeu o porqu\u00ea:<\/p>\n<p>\u201cTodo o garoto triste parece um pouco comigo.\u201d<\/p>\n<p><strong>VII. <\/strong><\/p>\n<p>Quantas as cr\u00f4nicas, s\u00e3o muitas as que me s\u00e3o caras. Tamb\u00e9m prefiro n\u00e3o cit\u00e1-las para que o leitor tenha o gosto e o prazer de descobri-las por si s\u00f3.<\/p>\n<p>Espalham-se em diversas antologias.<\/p>\n<p>De minha parte, continuei a colecion\u00e1-las.<\/p>\n<p>Est\u00e3o reunidas em dezenas de pastas que guardo com carinho. Eu as visito de quando em quando. Po\u00e9ticas, algumas. De um romantismo desmesurado , outras. Contundentes quando retratam os escaninhos da pol\u00edtica e da vida brasileira. Pol\u00eamicas e causticas como foi o jeito de Cony vida afora.<\/p>\n<p>Hoje pela manh\u00e3, guardei a \u00faltima cr\u00f4nica que escreveu &#8211; e foi publicada domingo na Folha (Uma Carta e o Natal) \u2013 na \u00faltima pasta desta minha preciosa cole\u00e7\u00e3o. Depois, olhei ao redor e, tal e qual um personagem do pr\u00f3prio Cony, me senti mais s\u00f3 e desesperan\u00e7ado.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><em>O jornalista e escritor\u00a0<strong>Carlos Heitor Cony<\/strong>\u00a0morreu, por volta das 23h desta sexta- feira (5), aos 91 anos. 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