{"id":18227,"date":"2018-01-26T19:46:39","date_gmt":"2018-01-26T19:46:39","guid":{"rendered":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/?p=18227"},"modified":"2018-01-26T21:01:46","modified_gmt":"2018-01-26T21:01:46","slug":"o-eco-de-antigas-palavras","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/o-eco-de-antigas-palavras\/","title":{"rendered":"O eco de antigas palavras"},"content":{"rendered":"<p>Gosto muito daquela can\u00e7\u00e3o do Chico Buarque que se chama \u201cFuturos Amantes\u201d. Gosto especialmente da imagem que cria ao narrar a a\u00e7\u00e3o de escafandristas que, no futuro, ir\u00e3o explorar o Rio de Janeiro, ent\u00e3o qui\u00e7\u00e1 uma cidade submersa, e encontrar no fundo do arm\u00e1rio, na posta-restante, silenciosamente guardado \u201co amor que um dia deixei pra voc\u00ea\u201d.<\/p>\n<p>Diz outro verso:<\/p>\n<p><em>S\u00e1bios em v\u00e3o<\/em><\/p>\n<p><em>Tentar\u00e3o decifrar<\/em><\/p>\n<p><em>O eco de antigas palavras<\/em><\/p>\n<p><em>Fragmentos de cartas, poemas<\/em><\/p>\n<p><em>Mentiras, retratos<\/em><\/p>\n<p><em>Vest\u00edgios de estranha civiliza\u00e7\u00e3o<\/em><\/p>\n<p>*Ou\u00e7a a m\u00fasica no fim da cr\u00f4nica<\/p>\n<p><strong>II.<\/strong><\/p>\n<p>Esque\u00e7o os versos buarqueanos, e aproveito a deixa para o post de hoje.<\/p>\n<p>N\u00e3o sou assim t\u00e3o radical, n\u00e3o vou t\u00e3o longe assim. Em antever este pa\u00eds-continente no fundo do oceano daqui a algumas dezenas, centenas de anos. \u201cmil\u00eanios no ar\u201d.<\/p>\n<p>Mas, me inquieta saber que vest\u00edgios desta &#8220;estranha civiliza\u00e7\u00e3o&#8221; estamos legando \u00e0s novas gera\u00e7\u00f5es e aos arque\u00f3logos e historiadores que, daqui algum tempo, tentar\u00e3o entender o que acontece hoje por aqui, nos prim\u00f3rdios de 2018, o ano que amea\u00e7a n\u00e3o terminar.<\/p>\n<p>Que an\u00e1lise far\u00e3o desses tempos obscuros que vivemos \u2013 e dos personagens que moldam nosso cotidiano, o cotidiano de &#8220;o mais estranho dos pa\u00edses&#8221;, no dizer do cronista Paulo Mendes Campos?<\/p>\n<p>Seremos responsabilizados pelos malfeitos e malditos de uma Na\u00e7\u00e3o que hoje se revela em estilha\u00e7os e cacos in\u00fateis?<\/p>\n<p>Moro e Lula.<\/p>\n<p>Quem ser\u00e1 o her\u00f3i, quem ser\u00e1 o vil\u00e3o?<\/p>\n<p><strong>III.<\/strong><\/p>\n<p>H\u00e1 50 anos, o mundo viveu a grande revolu\u00e7\u00e3o dos costumes, emblematicamente simbolizada pelos estudantes de Paris (posteriormente seguidos pelos jovens de quase todo o mundo) a bradar o lema:<\/p>\n<p><em>\u00c9 proibido proibir<\/em><\/p>\n<p>Caetano fez a can\u00e7\u00e3o que Gal interpretou, de forma contundente, no pen\u00faltimo Festival da Record, em outubro daquele trepidante ano. Duas d\u00e9cadas depois, o grande jornalista Zuenir Ventura retratou a aventura daquela gera\u00e7\u00e3o no livro \u201c1968 \u2013 O Ano Que N\u00e3o Terminou\u201d que tem como ep\u00edgrafe uma frase de M\u00e1rio de Andrade:<\/p>\n<p><em>N\u00e3o devemos seguir de exemplo a ningu\u00e9m. <\/em><\/p>\n<p><em>Mas podemos servir de li\u00e7\u00e3o.<\/em><\/p>\n<p><strong>IV.<\/strong><\/p>\n<p>Como ser\u00e1 que o futuro ver\u00e1 as aventuras\/desventuras desta gera\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>Ser\u00e1 que, daqui a 50 anos, a poderosa Rede Globo divulgar\u00e1 outro comunicado desculpando-se por apoiar o Golpe contra uma presidente turrona, mas declaradamente honesta, implodindo pilares de uma tenra democracia ainda a ser consolidada e entregando o \u201cgalinheiro\u201d chamado Brasil para felpudas raposas cuidarem?<\/p>\n<p>Ou sequer se dar\u00e1 ao trabalho de repetir o editorial de 2014 quando se penitenciou pelo respaldo ao golpe civil e militar de 64?<\/p>\n<p>Temo que, \u00e0quela altura, possa estar se regozijando de, no ano santo de 2018, ter iniciado a dinastia de presidentes\/imperadores\/comunicadores midi\u00e1ticos de bord\u00f5es inesquec\u00edveis:<\/p>\n<p><em>\u00d4 loco, meu&#8230;<\/em><\/p>\n<p><em>Loucura, loucura, loucura!<\/em><\/p>\n<p><strong>V.<\/strong><\/p>\n<p>Ah!, senhores arque\u00f3logos do futuro, bem-vindos aos desv\u00e3os de nossos mist\u00e9rios e segredos.<\/p>\n<p>Por enquanto, por aqui, al\u00e9m do desalento, somos um po\u00e7o de d\u00favidas.<\/p>\n<p>Por onde andam os paneleiros dos edif\u00edcios de bairros nobres?<\/p>\n<p>E os teletubbies e as fofoletes da avenida Paulista?<\/p>\n<p>Ser\u00e1 que as malas de dinheiro continuam a circular pelos apartamentos vazios?<\/p>\n<p>O que ser\u00e1 dele, o Ileg\u00edtimo e seus (mais) de 40 congressistas do &#8216;Abra-te S\u00e9samo&#8217;?<\/p>\n<p>E a farsa de Porto Alegre ganhar\u00e1 novos cap\u00edtulos?<\/p>\n<p><strong>VI.<\/strong><\/p>\n<p>Ent\u00e3o, meus caros pesquisadores, se acaso chegarem a ter acesso a essas maltra\u00e7adas linhas, saibam que por aqui, ainda que tr\u00f4pegos e aparentemente insanos, muitos ainda almejam um Brasil de todos os brasileiros que, a bem da verdade, nunca chegou a existir.<\/p>\n<p>Reconhe\u00e7o. Tamb\u00e9m temos l\u00e1 nossa culpa em toda essa triste hist\u00f3ria. N\u00e3o nos poupem em seus prov\u00e1veis relatos. Mas, por favor, n\u00e3o ponham na conta dos mais humildes, dos desvalidos \u2013 como hoje fazem os que se julgam Donos do Poder \u2013 mais este inestim\u00e1vel retrocesso, mais este imenso infort\u00fanio.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/WCnArLi3uCk\" width=\"560\" height=\"315\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\"><\/iframe><\/p>\n<h6><strong><em>*(foto: capa do livro &#8220;O Mais Estranho dos Pa\u00edses&#8221;, de Paulo Mendes Campos)<\/em><\/strong><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Gosto muito daquela can\u00e7\u00e3o do Chico Buarque que se chama \u201cFuturos Amantes\u201d. 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