{"id":18311,"date":"2018-02-08T18:21:01","date_gmt":"2018-02-08T18:21:01","guid":{"rendered":"http:\/\/www.rodolfomartino.com.br\/blog\/?p=18311"},"modified":"2018-02-08T19:14:38","modified_gmt":"2018-02-08T19:14:38","slug":"velhos-camaradas-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/velhos-camaradas-2\/","title":{"rendered":"Velhos camaradas"},"content":{"rendered":"<p>Chamavam-se Roberto, os dois.<\/p>\n<p>Eram amigos insepar\u00e1veis e se misturavam a n\u00f3s \u2013 a turma de ca\u00eddos e desvalidos que se reunia, dia sim e outro tamb\u00e9m, no Sujinho que existia na esquina da rua Bom Pastor com a rua Loefgreen, naquela curva onde o Sacom\u00e3 torce o rabo e o \u00f4nibus F\u00e1brica\/Pinheiros bufava e rangia suas ferragens.<\/p>\n<p>Pouco ou quase nada sab\u00edamos deles. N\u00e3o precisava. Ali, quem chegasse e falasse mi\u00fado, bebericasse umas e outras e espiasse a vida com olhar vagabundo era sempre bem-vindo.<\/p>\n<p>Por isso, os acolhemos. Os Doisbertos, como brinc\u00e1vamos.<\/p>\n<p><strong>II.<\/strong><\/p>\n<p>Quando nos dirig\u00edamos diretamente aos caras, n\u00f3s os cham\u00e1vamos de Beto \u2013 e, curioso, assim tamb\u00e9m eles pr\u00f3prios se tratavam. Ambos eram bons de copo, falavam s\u00f3 o necess\u00e1rio e prestavam uma aten\u00e7\u00e3o danada nas nossas conversas que, n\u00e3o raro, viravam acaloradas discuss\u00f5es, seja qual fosse o assunto, de futebol a pol\u00edtica, da cena da novela (que n\u00e3o assist\u00edamos) ao novo-velho filme de Godard.<\/p>\n<p>Sim, porque o Nasci, o mentor da gang, parecia entender de tudo. Da vida, dos amores e da obra do cineasta franc\u00eas.<\/p>\n<p>&#8211; Quem assistiu ao filme \u201cO Homem Que Amava as Mulheres\u201d \u2013 perguntou o Nasci, num s\u00e1bado ensolarado.<\/p>\n<p>Nenhum de n\u00f3s. Mas, reconhecemos todos, o t\u00edtulo era bem sugestivo.<\/p>\n<p><strong>III.<\/strong><\/p>\n<p>Havia uma diferen\u00e7a entre os Doisbertos.<\/p>\n<p>Um deles era apaixonado por uma tal de Lu \u2013 e, com a mo\u00e7a, vivia um t\u00f3rrido romance repleto de turbul\u00eancias, idas e vindas.<\/p>\n<p>Por isso, quando quer\u00edamos ser precisos na identifica\u00e7\u00e3o. Recorr\u00edamos ao seguinte expediente: um era o Beto da Lu e o outro o Beto Apenas.<\/p>\n<p><strong>IV.<\/strong><\/p>\n<p>Em uma incerta noite, o Beto da Lu chegou, aboletou-se em uma das mesas e se p\u00f4s a beber ensandecido. Da cerveja passou \u00e0 cacha\u00e7a, da cacha\u00e7a ao \u2018bombeirinho\u2019 (pinga com groselha) que, defin\u00edamos, como o \u00faltimo reduto do desalento.<\/p>\n<p>Tum!<\/p>\n<p>Logo desabou sobre a tampa da mesa.<\/p>\n<p>Foi o Beto Apenas que nos alertou.<\/p>\n<p>&#8211; Ele terminou tudo, com a Lu. Ou melhor, foi a Lu que terminou com ele. Cansou das bebedeiras. Conheceu um sujeito s\u00e9rio, e vai casar.<\/p>\n<p><strong>V.<\/strong><\/p>\n<p>Dito e feito.<\/p>\n<p>A mo\u00e7a falou e fez.<\/p>\n<p>O Beto da Lu nunca mais foi o mesmo.<\/p>\n<p>Semanas, meses se passaram \u2013 e, no dia do tal casamento, fomos incumbidos pela turma, eu e o Z\u00e9 Pedro, de fazer a guarda do amigo.<\/p>\n<p>Manh\u00e3, tarde, noite e madrugada. Tempo integral.<\/p>\n<p>Nossa miss\u00e3o era devolver o mo\u00e7o em casa; breaco, sim, mas s\u00e3o e salvo.<\/p>\n<p>O Beto Apenas n\u00e3o teria condi\u00e7\u00f5es de acompanh\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Ele pr\u00f3prio ca\u00eda no choro toda vez que via a tristeza do amigo\/irm\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>VI.<\/strong><\/p>\n<p>Aquele foi mesmo um dia inesquec\u00edvel, com trilha sonora de Tim Maia no r\u00e1dio do Opala com o qual rodamos quase todos os bares de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>Os hits eram \u201cPaix\u00e3o Antiga\u201d e \u201cVelho Camarada\u201d que se revezavam numa v\u00e3 tentativa de consolar o ex-Beto da Lu, deitado no banco de tr\u00e1s.<\/p>\n<p><strong>VII.<\/strong><\/p>\n<p>Como os meus am\u00e1veis cinco ou seis leitores podem perceber, esta \u00e9 uma hist\u00f3ria das antigas. O Sujinho virou a imponente esta\u00e7\u00e3o Sacom\u00e3 do Metr\u00f4. Bo\u00eamios e zuretas, j\u00e1 n\u00e3o se fazem como antes e a implac\u00e1vel roda do tempo nos dispersou a todos.<\/p>\n<p>Soube que o ex-Beto da Lu morreu, alguns anos depois, em um tr\u00e1gico acidente de autom\u00f3vel.<\/p>\n<p><b>VIII.<\/b><\/p>\n<p>Na manh\u00e3 deste domingo, cismei de comprar p\u00e3o em outra padaria, um pouquinho mais distante de casa. Queria caminhar um tanto e adivinhem a surpresa?<\/p>\n<p>L\u00e1 encontrei o Beto Apenas numa roda de senhores que bebiam e conversavam, conversavam e bebiam. Como nos velhos tempos. S\u00f3 os personagens eram outros.<\/p>\n<p>Eu e ele ficamos impactados. Cumprimentamo-nos \u00e0 dist\u00e2ncia, como se mal nos conhec\u00eassemos. Mas, tenho certeza, fomos tragados pela inunda\u00e7\u00e3o de uma saudade do\u00edda formatada na lembran\u00e7a do Beto da Lu e daqueles nossos inesquec\u00edveis amigos.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/vRci7oneov4\" width=\"560\" height=\"315\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\"><\/iframe><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6><em>*(foto: j\u00f4 rabelo)<\/em><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Chamavam-se Roberto, os dois.<\/p>\n<p>Eram amigos insepar\u00e1veis e se misturavam a n\u00f3s \u2013 a turma de ca\u00eddos e desvalidos que se reunia, dia sim e outro tamb\u00e9m, no Sujinho que existia na esquina da rua Bom Pastor com a rua Loefgreen,<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":18312,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-18311","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-blog"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18311","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=18311"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18311\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":18316,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18311\/revisions\/18316"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media\/18312"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=18311"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=18311"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=18311"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}