{"id":20966,"date":"2019-07-29T19:51:23","date_gmt":"2019-07-29T19:51:23","guid":{"rendered":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/?p=20966"},"modified":"2019-08-02T22:31:29","modified_gmt":"2019-08-02T22:31:29","slug":"a-moca-e-o-mar-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/a-moca-e-o-mar-2\/","title":{"rendered":"A mo\u00e7a e o mar"},"content":{"rendered":"<h6><em><strong>Foto: Leila Cunha<\/strong><\/em><\/h6>\n<h6>&#8230;<\/h6>\n<p>Ela s\u00f3 queria ver o mar. Desejo natural de uma mo\u00e7a naturalmente bonita e, diria, descolada.<\/p>\n<p>Me disse \u2013 sem que eu perguntasse \u2013 que andou se sentindo aborrecida, sufocada, pelo implac\u00e1vel dia a dia da cidade grande e, a seu modo, desconfiou que o rem\u00e9dio era ver o mar.<\/p>\n<p>&#8211; Meu nome \u00e9 Dandara.<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>Achei o nome bonito, diferente. Nome de guerreira.<\/p>\n<p>Nada disse. Apenas deixei que continuasse a apresenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Intui que ela queria desabafar ou, minimamente, algu\u00e9m que lhe ouvisse.<\/p>\n<p>Bingo!<\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>Dandara \u00e9 paulistana, tem pouco mais que 30 (embora n\u00e3o pare\u00e7a) e trabalha com Comunica\u00e7\u00e3o Empresarial.<\/p>\n<p>Conta que n\u00e3o tem tanta afinidade assim com o mar, a areia, a praia.<\/p>\n<p>Lembra que quando crian\u00e7a e adolescente passava f\u00e9rias regulares em Guai\u00faba, uma praia n\u00e3o muito longe daqui.<\/p>\n<p>Chegou at\u00e9 a namorar um surfista tiposo que fazia um sucesso danado com as outras meninas. Ela tinha um baita ci\u00fames, mas deu em nada.<\/p>\n<p>O rapag\u00e3o despencou para a Austr\u00e1lia \u2013 e nunca mais soube dele.<\/p>\n<p>Era pouco mais que uma menina,ent\u00e3o.<\/p>\n<p>O primeiro amor que n\u00e3o se esquece, ela, por\u00e9m, jura: esqueceu!<\/p>\n<p>Hoje considera engra\u00e7ado todo aquele v\u00e3o sofrimento.<\/p>\n<p>-Acho que nunca mais fui a mesma. Ningu\u00e9m \u00e9 depois de uma traulitada dessas. N\u00e3o \u00e9 assim?<\/p>\n<p>IV.<\/p>\n<p>Minha resposta \u00e9 seca.<\/p>\n<p>&#8220;Sei nada de surfistas, menina; menos ainda de amores praieiros.&#8221;<\/p>\n<p>-Ainda mais hoje que meu time perdeu a lideran\u00e7a do campeonato para o Santos.<\/p>\n<p>Dandara ri da minha observa\u00e7\u00e3o nada a ver e, penso, que se diverte tamb\u00e9m com a recorda\u00e7\u00e3o que agora o mar lhe traz.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o tem nada a ver essa hist\u00f3ria. Faz tanto tempo. Tantas coisas aconteceram&#8230;<\/p>\n<p>E exclama:<\/p>\n<p>&#8211; Meu Deus!<\/p>\n<p>V.<\/p>\n<p>Tem um jeito maroto ao dizer a express\u00e3o.<\/p>\n<p>Aprontou tantas e tamanhas, penso.<\/p>\n<p>Me intrigam os mist\u00e9rios da desconhecida que agora divide comigo o banco do cal\u00e7ad\u00e3o da praia semideserta nesta manh\u00e3 de segunda-feira levemente ensolarada.<\/p>\n<p>Tenho a sincera impress\u00e3o que fala comigo, mas o teor da conversa \u00e9 acertar as contas com ela mesmo.<\/p>\n<p>VI.<\/p>\n<p>Semana passada, ou antes at\u00e9, bateu uma ang\u00fastia inexplic\u00e1vel.<\/p>\n<p>Tudo t\u00e3o no lugar na pr\u00f3pria exist\u00eancia que Dandara estranhou o desconsolo.<\/p>\n<p>Sentia-se pesada, pouco produtiva, sem a leveza e o sorriso que lhe s\u00e3o costumeiros..<\/p>\n<p>&#8211; O Brasil anda t\u00e3o tenso, s\u00f3 temos not\u00edcias ruins \u2013 arrisco dizer.<\/p>\n<p>&#8211; Que acho que todos nos sentimos assim\u2026<\/p>\n<p>VII.<\/p>\n<p>N\u00e3o ouviu o que eu disse.<\/p>\n<p>Ou convenientemente fez que n\u00e3o ouviu.<\/p>\n<p>Continuou a olhar fixamente para o mar.<\/p>\n<p>Diz que pediu um dia de folga para a chefia &#8211; \u201cno fim de semana tinha o casamento de uma amiga para ir\u201d &#8211; e hoje acordou decidida e veio cedo de S\u00e3o Paulo para c\u00e1.<\/p>\n<p>Ela pr\u00f3pria fez o diagn\u00f3stico para santa cura:<\/p>\n<p>&#8211; Preciso ver o mar. A vastid\u00e3o do mar sem fim nos d\u00e1 a exata dimens\u00e3o de quem se \u00e9.<\/p>\n<p>VIII.<\/p>\n<p>Agora estamos aqui.<\/p>\n<p>Em sil\u00eancio.<\/p>\n<p>Olhos fixos na linha do horizonte.<\/p>\n<p>Continuo sem qualquer certeza. Mas gosto da sua delicada companhia.<\/p>\n<p>Lembro a m\u00fasica do Ivan Lins, e comparo o desalento na idade em que estou ao dela com tanta vida pela frente.<\/p>\n<p>N\u00e3o a conhe\u00e7o.<\/p>\n<p>Sei apenas o nome bonito que tem, alguns estilha\u00e7os da sua hist\u00f3ria que acaba de me contar, mas concluo que \u00e9 uma pessoa sens\u00edvel e merece ser feliz.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/-VXHVx1YOgE\" width=\"560\" height=\"315\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\"><\/iframe><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><em><strong>Foto: Leila Cunha<\/strong><\/em><br \/>\n&#8230;<\/p>\n<p>Ela s\u00f3 queria ver o mar. 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