{"id":21123,"date":"2019-08-21T12:56:14","date_gmt":"2019-08-21T12:56:14","guid":{"rendered":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/?p=21123"},"modified":"2019-08-21T14:17:25","modified_gmt":"2019-08-21T14:17:25","slug":"trinta-anos-sem-raul","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/trinta-anos-sem-raul\/","title":{"rendered":"Trinta anos sem Raul Seixas"},"content":{"rendered":"<p><em>*A prop\u00f3sito da data, recupero uma entrevista, digamos, quase in\u00e9dita. <\/em><\/p>\n<p><em>Confira!<\/em><\/p>\n<p>I.<\/p>\n<p>Roqueiro, falastr\u00e3o, prolixo, irreverente, profeta do apocalipse, agitador, maluco-beleza.<\/p>\n<p>R\u00f3tulos, a bem da verdade, n\u00e3o faltaram na v\u00e3 tentativa de cr\u00edtica e p\u00fablico enquadrarem o imprevis\u00edvel baiano (de Salvador) Raul Santos Seixas desde seu aparecimento no cen\u00e1rio musical nativo.<\/p>\n<p>Corria o ano de 1972, ainda n\u00e3o havia a crise do petr\u00f3leo, nem o fantasma da hiperinfla\u00e7\u00e3o era t\u00e3o assustador, quando o rock bai\u00e3o \u201cLet Me Sing\u201d sacudiu a poeira do \u00faltimo Festival Internacional da Can\u00e7\u00e3o que se teve not\u00edcia.<\/p>\n<p>Um deboche rasgado, uma ousadia dan\u00e7ante em plenos tempos dif\u00edceis da ditadura.<\/p>\n<p>O desconcertante, como se viu depois, sempre se fez presente na vida e na obra de Raulzito.<\/p>\n<p>Sua morte tamb\u00e9m n\u00e3o foi diferente.<\/p>\n<p>Ele morreu numa segunda-feira (21\/08\/89), sozinho em seu apartamento em S\u00e3o Paulo, \u00e0s v\u00e9speras do lan\u00e7amento do novo disco (<em>Panela do Diabo<\/em>, em parceria com Marcelo Nova).<\/p>\n<p>Era o sonhado recome\u00e7o.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Em suas entrevistas \u00e0 Imprensa, revelou sempre um total desapego \u00e0s conven\u00e7\u00f5es, ao lugar-comum.<\/p>\n<p>(Ali\u00e1s, a obra-prima Ouro de Tolo n\u00e3o diz outra coisa).<\/p>\n<p>Revelou-se tamb\u00e9m l\u00facido e contestador.<\/p>\n<p>Em meados dos anos 70 chegou a se lan\u00e7ar candidato civil \u00e0 Presid\u00eancia na \u00e9poca quente do militarismo.<\/p>\n<p>De outra feita, chegou a negar sua condi\u00e7\u00e3o de cantor popular.<\/p>\n<p>Aos rep\u00f3rteres, declarou com largo sorriso e habitual ironia.<\/p>\n<p>\u201cNa verdade, sou um ator. S\u00f3 que represento t\u00e3o bem, que o pessoal acabou acreditando que eu fosse mesmo um cantor e compositor\u201d.<\/p>\n<p>\u201cSou de 45&#8243;- dizia. &#8220;Do p\u00f3s-guerra. Nasci quando a bomba estava caindo em Hiroshima. Sou da gera\u00e7\u00e3o sandu\u00edche e tenho que me adaptar aos surfistas de hoje e ao que pensa meu pai. Uma barra\u201d.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Sempre que perguntado, reafirmou o posicionamento \u00fanico dentro da MPB.<\/p>\n<p>Reconhecia-se tamb\u00e9m como ativo militante da Sociedade Alternativa e defensor implac\u00e1vel do \u201craulseixismo\u201d.<\/p>\n<p>\u201cMeu compromisso maior com a sociedade \u00e9 deixar nela minha impress\u00e3o digital. Quero que fiquem sabendo que passei por aqui. Que contribu\u00ed com alguma coisa. Enfim, que valeu a pena.\u201d<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>NOSSO ENCONTRO COM O MAGO aconteceu em fins de 77.<\/p>\n<p>Ele estava em S\u00e3o Paulo para lan\u00e7amento do novo disco <em>O Dia Em Que A Terra Parou<\/em>.<\/p>\n<p>Sua gravadora, a WEA, reservou dois dias para que atendesse \u00e0 Imprensa.<\/p>\n<p>Eram sess\u00f5es individualizadas com os rep\u00f3rteres.<\/p>\n<p>Raul n\u00e3o gostava de \u201ccoletivas\u201d.<\/p>\n<p>\u201cDispersam demais\u201d &#8211; dizia.<\/p>\n<p>\u201cTodos os jornalistas se p\u00f5em a perguntar coisas distintas ao mesmo tempo. Vira uma Torre de Babel. N\u00e3o d\u00e1 para concatenar o racioc\u00ednio. E eu j\u00e1 falo demais. A\u00ed, sai besteira\u201d.<\/p>\n<p>Desse modo, cada ve\u00edculo tinha, ent\u00e3o, democr\u00e1ticos 45 minutos para falar com Raul.<\/p>\n<p>\u201cCom 15 de descanso que, afinal, n\u00f3s estamos no Brasil e eu n\u00e3o sou de ferro\u201d &#8211; ironizava.<\/p>\n<p>Logo que chegamos \u00e0 sala onde Raul se encontrava, eu e o amigo Cl\u00f3vis Naconecy de Souza abrimos m\u00e3os de nossos velados temores. Deparamos com algu\u00e9m simples, aparentemente de bem com a vida e feliz por retomar aos palcos paulistanos ap\u00f3s quatro anos de aus\u00eancia.<\/p>\n<p>Em nenhum momento Raul, \u00e0 \u00e9poca com 32 anos, deixou transparecer amarguras descabidas ou ser uma pessoa de dif\u00edcil trato, como se anunciava ent\u00e3o.<\/p>\n<p>Ao final da entrevista, avan\u00e7amos o hor\u00e1rio, falamos de nossos (meus e de Cl\u00f3vis) projetos pessoais que inclu\u00edam a consolida\u00e7\u00e3o do Jornal da Mooca e uma poss\u00edvel enciclop\u00e9dia de MPB. Projetos que, ali\u00e1s, n\u00e3o vingaram, mas que tiveram a aprova\u00e7\u00e3o de Raul.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 isso a\u00ed&#8230; V\u00e3o em frente. Lembrem Caetano: \u201cComo \u00e9 bom poder tocar um instrumento.\u201d<\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>\u201cDE CANTOR O BRASIL ANDA CHEIO\u201d<\/p>\n<p>&#8211; Faz algum tempo que voc\u00ea n\u00e3o vem a S\u00e3o Paulo para fazer show em teatro. Existe alguma raz\u00e3o para a aus\u00eancia prolongada?<\/p>\n<p>&#8211; Na capital, sim. Mas tenho feito muitos shows pelo Brasil todo, pelo Interior. Agora aqui n\u00e3o venho desde 73, quando me apresentei no Teatro das Na\u00e7\u00f5es. Pessoalmente, acho teatro uma coisa assim bem elitista, uma coisa pequena para um p\u00fablico bem mais uniforme. Mas, resolvi fazer. Principalmente depois do lan\u00e7amento do novo disco. Na verdade, prefiro fazer algo mais aberto, pra todo mundo, que d\u00ea a sensa\u00e7\u00e3o de que voc\u00ea est\u00e1 jogando toda sua loucura canalizada e que recebe o eco de volta. Sabe como \u00e9? Um trabalho assim para todos os n\u00edveis de pessoas. Afinal, a gente j\u00e1 tem o Intelsat por a\u00ed.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o, o disco novo \u00e9 a causa do show ou voc\u00ea vai fazer uma revis\u00e3o cr\u00edtica de sua carreira? Parece que muitas m\u00fasicas antigas est\u00e3o inclu\u00eddas no programa.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, n\u00e3o, o show \u00e9 basicamente uma continua\u00e7\u00e3o do meu trabalho. Claro que h\u00e1 preocupa\u00e7\u00e3o de mostrar as m\u00fasicas novas, mas o importante mesmo \u00e9 a continuidade do meu trabalho, que se iniciou em 73. Por isso vou cantar m\u00fasicas conhecidas como \u201cOuro De Tolo\u201d, \u201cMetamorfose Ambulante\u201d, \u201cAl Caponne\u201d, com novos arranjos, dentro de uma nova concep\u00e7\u00e3o. Uma concep\u00e7\u00e3o 77, digamos.<\/p>\n<p>&#8211; \u201cMetamorfose Ambulante\u201d, inclusive, ganhou uma grava\u00e7\u00e3o recente de Ney Matogrosso\u2026<\/p>\n<p>&#8211; Pois \u00e9. Eu gravei em 73. Fiz essa m\u00fasica quando tinha 14 anos. Guardei. Quando trabalhava na CBS tamb\u00e9m j\u00e1 tinha \u201cOuro De Tolo\u201d. Guardei. Tudo assim como se fosse um grande jogo de xadrez, sabe? Cada passo planejado e executado, no momento exato.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o n\u00e3o existe o aspecto revisionista no show?<\/p>\n<p>&#8211; Fundamentalmente, vou apresentar o novo disco, o que, em ess\u00eancia, significa a continua\u00e7\u00e3o da \u201cSociedade Alternativa\u201d, o movimento que t\u00ednhamos em 73, eu e o Paulo Coelho, meu parceiro. Ele agora est\u00e1 morando na Inglaterra. Em 74, houve um problema aqui com a gente e tivemos que sair. Fomos morar em Nova York. Demos um tempo l\u00e1. Depois voltamos, e eu resolvi ficar, continuando com a \u201cSociedade Alternativa\u201d, enquanto o Paulo resolveu ir pra Inglaterra de vez. N\u00e3o voltar mais.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o neste disco continua a \u201cSociedade Alternativa\u201d?<\/p>\n<p>&#8211; Continua com outro nome. S\u00f3 mudou de nome.<\/p>\n<p>&#8211; Qual o nome atual?<\/p>\n<p>&#8211; Agora chama-se&#8230; \u201cMagro Teimoso\u201d. Por falar nisso, estou com uma saudade incr\u00edvel do pessoal da \u201cSociedade Alternativa\u201d antiga. Em 73, t\u00ednhamos o Z\u00e9 Celso Martinez, diretor de teatro que fez \u201cRei da Vela\u201d, \u201cGracia Senior\u201d no Teatro Oficina. Havia tamb\u00e9m dois advogados, o Paulo Coelho&#8230; Um neg\u00f3cio muito grande, que come\u00e7ou a se avultar ainda mais. Chegou at\u00e9 Nova York. L\u00e1 transamos com o ex-beatle, John Lennon*, um cara fant\u00e1stico, que fazia parte de uma \u201csociedade\u201d bem parecida com a nossa. Morei quase meio ano com o pessoal dele, da Newtopia. Foi na \u00e9poca em que ele se separou da Yoko. Fiquei l\u00e1 por um bom tempo, por isso o pessoal pensa que desapareci. Mas logo que cheguei, reiniciei meus shows pelo Interior do Pa\u00eds. Essas excurs\u00f5es s\u00e3o um barato, uma loucura.<\/p>\n<p><em>*(Atualizando: ao que tudo indica, esse encontro com Lennon nunca existiu; mais uma tira\u00e7\u00e3o de onda<\/em> de Raulzito.)<\/p>\n<p>&#8211; Esse tal \u201cproblema\u201d foi causado pelas letras?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o sei. Entendo a arte como a express\u00e3o social de uma \u00e9poca. Ent\u00e3o voc\u00ea tem que dar uma de Nero, ficar tocando uma harpa e cantando o que est\u00e1 acontecendo. Pois \u00e9, nesse cantar que as coisas se torcem. Voc\u00ea passa a refletir o momento hist\u00f3rico que est\u00e1 vivendo. Mas sem entrar em particularidades pol\u00edticas, essas coisas. Nada disso. Sempre trato as coisas num campo metaf\u00edsico, filos\u00f3fico e ontol\u00f3gico. Um ponto de vista meu, da vida. S\u00f3 isso.<\/p>\n<p>&#8211; Essas preocupa\u00e7\u00f5es voc\u00ea j\u00e1 demonstrava no in\u00edcio de sua carreira, n\u00e3o \u00e9?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o sei se voc\u00eas sabem, mas quando cheguei ao Rio, n\u00e3o foi para ser cantor. Foi para editar um tratado de filosofia pela Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira. Sou formado e professor em Filosofia. Mas, como lan\u00e7ar um livro \u00e9 um neg\u00f3cio extremamente dif\u00edcil, um c\u00edrculo bem restrito: acabou n\u00e3o dando certo. Vi que a coisa era muito reduzida, tipo p\u00fablico de teatro, ent\u00e3o resolvi fazer a mesma coisa por meio da m\u00fasica, do disco. Porque a can\u00e7\u00e3o, sim, \u00e9 uma coisa muito mais incisiva. Um meio muito mais r\u00e1pido, do qual passei a me utilizar para dizer o que pretendo, para deixar minha impress\u00e3o digital nesse mundo. Para declarar minha raz\u00e3o de viver ou n\u00e3o, entende! Afinal, estou aqui fazendo o qu\u00ea? Tracei uma meta, e tenho que ir at\u00e9 o fim.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o o processo foi mais ou menos este: voc\u00ea veio para o Rio lan\u00e7ar um livro. N\u00e3o deu certo. Voltou para Salvador. E posteriormente foi convidado a trabalhar na CBS, como produtor de disco?<\/p>\n<p>&#8211; Foi. Aprendi muito l\u00e1, cara. Que escola! Trabalhei com todo aquele pessoal do final da Jovem Guarda: Jerry Adriani, Wanderl\u00e9ia, Renato e Seus Blue Caps&#8230; o Roberto, que \u00e9 um cara incr\u00edvel.<\/p>\n<p>&#8211; Como foi aquela hist\u00f3ria do disco que voc\u00ea produziu, nessa \u00e9poca, reunindo o S\u00e9rgio Sampaio, Miriam Batucada, Edy Star e voc\u00ea?<\/p>\n<p>&#8211; Ah! Sim. Chama-se <em>A Gran Ordem Kavernista Apresenta Sess\u00e3o Das Dez.<\/em>\u00a0O disco foi recolhido porque apresentou problemas, segundo a censura. Foi o seguinte: a CBS n\u00e3o adotava essa linha de lan\u00e7amentos. Acabei perdendo o emprego, mas tudo bem! Aproveitei que o diretor foi para os Estados Unidos e fiz o disco. Uma zorra. Mandei buscar uma harpa eg\u00edpcia, rar\u00edssima, em S\u00e3o Paulo. Gastei uma nota de carreto at\u00e9 o Rio. S\u00f3 pro cara fazer o acorde final de uma das m\u00fasicas. Quando o diretor voltou, n\u00e3o deu outra, me chamou e perguntou o que eu queria: ser cantor ou produtor? Foi uma barra, o cara ficou chateado. Mas, a\u00ed eu disse: Quero ser artista!<\/p>\n<p>&#8211; A\u00ed pintou o festival?<\/p>\n<p>&#8211; Isso mesmo. Foi na \u00e9poca do festival. Como produtor, eu havia contratado o S\u00e9rgio Sampaio, que tinha inscrito o \u201cEu Quero Botar Meu Bloco Na Rua\u201d, e eu entrei com o \u201cLet Me Sing\u201d e \u201cEu Sou Eu, Nikuda \u00c9 O Diabo\u201d. Foi o \u00faltimo festival. Outra loucura: um festival nacional, e eu cantando em ingl\u00eas&#8230; misturando Luiz Gonzaga, rock.<\/p>\n<p>&#8211; Raul, qual sua forma\u00e7\u00e3o musical?<\/p>\n<p>&#8211; Eu sou de 45, do p\u00f3s-guerra. Nasci quando a bomba estava caindo em Hiroshima. Sou da \u201cGera\u00e7\u00e3o Sandu\u00edche\u201d, devo me adaptar aos surfistas de hoje e ao que pensa meu pai. Uma barra violent\u00edssima.<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea foi influenciado pelo Elvis? Uma vez li que voc\u00ea tinha um dos maiores arquivos do Brasil sobre Elvis. \u00c9 verdade?<\/p>\n<p>&#8211; O Elvis me fez a cabe\u00e7a, assim como o Luiz Gonzaga, toda aquela cultura maluca de 45, aquela invas\u00e3o de m\u00fasicas cubanas. Sobre o arquivo, ele existe. \u00c9 assim uma esp\u00e9cie de cole\u00e7\u00e3o de selo, sabe? Adoro disco de rock antigo, aquele magro, com baixo de pau e bateria. Mas n\u00e3o tem nada a ver uma coisa com outra. Gosto muito de rock. Fico horas ouvindo aqueles discos antigos, como quem coleciona alguma coisa. \u00c9 muito importante pra mim.<\/p>\n<p>&#8211; Esse seu estilo discursivo das letras, d\u00e1 pra explicar?<\/p>\n<p>&#8211; S\u00e3o letras vomitadas, n\u00e9? \u00c9 mais uma prosa cantada. Inclusive tenho uma dificuldade incr\u00edvel pra botar m\u00fasica em letra. Tenho um ouvido p\u00e9ssimo. D\u00e1 para ajudar a concatenar uma coisa com a outra, m\u00fasica e letra. Para compor, eu fa\u00e7o assim, uma esp\u00e9cie de uma prosa, depois eu come\u00e7o a botar aqueles acordes \u201cfuleiros\u201d que eu sei.<\/p>\n<p>&#8211; \u201cOuro De Tolo\u201d \u00e9 uma das m\u00fasicas que melhor caracteriza esse estilo, n\u00e3o?<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9, ela \u00e9 meio assim Bob Dylan. Talvez fosse at\u00e9 influ\u00eancia do Dylan. Mas veja: como \u00e9 que poderia cantar aquilo. S\u00f3 falando mesmo. Foi na \u00e9poca em que o Roberto Carlos estava contente e agradecia ao Senhor. Lembra? A\u00ed eu disse que devia agradecer tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>&#8211; Lembro que foi a \u00faltima vez que vi uma m\u00fasica parar o pessoal na rua. As lojas de discos tocavam \u201cOuro De Tolo\u201d direto e as pessoas paravam, escutavam, riam, tinham rea\u00e7\u00f5es estranh\u00edssimas.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 incr\u00edvel. Primeiro, eles riam. Depois paravam pra pensar. Depois choravam. Mas assim dentro de um tempo&#8230; Em S\u00e3o Paulo foi o lugar que o disco mais vendeu. O engra\u00e7ado \u00e9 que nunca ningu\u00e9m vestia a carapu\u00e7a. O cara sempre ria do que estava ao seu lado, sabe como \u00e9? Naquela de o neg\u00f3cio \u00e9 com ele, enquanto a m\u00fasica era com todos. Sem exce\u00e7\u00e3o. Era fant\u00e1stica a rea\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Numa m\u00fasica recente voc\u00ea faz cr\u00edticas ao Belchior e ao S\u00edlvio Brito. Como foi a rea\u00e7\u00e3o deles, em rela\u00e7\u00e3o a voc\u00ea?<\/p>\n<p>&#8211; Ah! A m\u00fasica chama \u201cEu Tamb\u00e9m Vou Reclamar\u201d. O Belchior achou legal, riu pra burro. Tudo bem! Mas o S\u00edlvio ficou zangado comigo. Ficou bravo mesmo. Eu gosto muito do Silvinho, ele \u00e9 legal pacas.<\/p>\n<p>&#8211; Raul, \u00e9 poss\u00edvel fazer uma retrospectiva de seus discos anteriores, at\u00e9 o mais recente?<\/p>\n<p>&#8211; O \u201cLet Me Sing\u201d s\u00f3 saiu em compacto. Depois veio o elep\u00ea<em> Krigh Ha Bandolo<\/em>. Voc\u00ea lembra da revista do Tarzan? Pois \u00e9, \u2018krigh ha bandolo\u2019, naquela l\u00edngua fajuta do Tarzan, queria dizer \u201ccuidado, a\u00ed vem o inimigo\u201d. Nesse elep\u00ea, eu cantava \u201cMosca Na Sopa\u201d,\u201dAl Caponne\u201d, \u201cMetamorfose Ambulante\u201d, \u201cAs Minas Do Rei Salom\u00e3o\u201d, \u201cOuro De Tolo\u201d.<\/p>\n<p>&#8211; A seguir voc\u00ea gravou o compacto \u201cGuita\u201d.<\/p>\n<p>&#8211; Que mais tarde saiu em elep\u00ea, junto com \u201cTrem Das Sete Horas\u201d, \u201cMedo Da Chuva\u201d, \u201cSociedade Alternativa\u201d. Foi assim uma esp\u00e9cie de fase \u00e1urea da gente. Estava com pique incr\u00edvel.<\/p>\n<p>&#8211; Foi o disco que mais vendeu?<\/p>\n<p>&#8211; Foi. Ganhei o disco de ouro brasileiro. Fant\u00e1stico.<\/p>\n<p>&#8211; Da\u00ed veio o <em>Novo Aeon&#8230;<\/em><\/p>\n<p><em>&#8211; <\/em><em>Meu<\/em> terceiro elep\u00ea da Philips. Essa tamb\u00e9m foi uma transa\u00e7\u00e3o incr\u00edvel. A gente estava voltando dos Estados Unidos. E foi muito dif\u00edcil adaptar-se novamente por aqui. Foi incr\u00edvel para mim. O disco tinha a m\u00fasica \u201cTente Outra Vez\u201d, que eu gosto muito. Da\u00ed lancei no in\u00edcio deste ano o elep\u00ea: <em>H\u00e1 Dez Mil Anos Atr\u00e1<\/em>s, que eu estou com uma cabeleira branca\u2026<\/p>\n<p>&#8211; Foi o \u00faltimo disco pela Phonogran.<\/p>\n<p>&#8211; Esse disco n\u00e3o foi mal trabalhado?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, n\u00e3o foi trabalhado mesmo. Eu estava nos Estados Unidos filmando\u2026<\/p>\n<p>&#8211; Ali\u00e1s, o pessoal da Phonogran se queixava disso: quando voc\u00ea trabalhava o disco, as vendagens subiam acentuadamente. Quando n\u00e3o, o disco vendia, mas n\u00e3o o que se esperava.<\/p>\n<p>&#8211; Eu sumia pra eles, entende? Mas n\u00e3o sumia pra mim. Sempre estive aqui no Brasil fazendo shows pelo Interior. N\u00e3o para a f\u00e1brica de disco faturar nisso. Depois, meus discos sempre venderam bem. Na verdade, n\u00e3o gostavam porque queriam que eu fizesse programa de televis\u00e3o, favores que existem, do tipo \u201ceu te arranjo uma apresenta\u00e7\u00e3o do Raul Seixas e voc\u00ea inclui no seu programa alguns iniciantes da minha f\u00e1brica de disco\u201d, sacou, qual \u00e9? O divulgador tem de arranjar show pra mim, e pros outros. Eles querem vender os novos. Ent\u00e3o sempre fazem isso com quem j\u00e1 possui um certo nome. Eu me recusava a fazer isso. Ent\u00e3o dizia que estava nos Estados Unidos s\u00f3 pra n\u00e3o fazer esse tipo de coisa.<\/p>\n<p>&#8211; Tipo lote de filme americano?<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9. Mas tudo \u00e9 muito normal. Isso \u00e9 coisa do sistema mesmo. Eu acho legal, contanto que\u2026<\/p>\n<p>&#8211; Bem, a\u00ed voc\u00ea saiu da Phonogran. e veio para WEA?<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9. Esse elep\u00ea \u00e9 o primeiro que gravo na WEA. Da Phonogran sa\u00edram Andr\u00e9 Midani, Mazola, saiu o Guto, saiu todo mundo que eu gostava. Paulo Coelho tamb\u00e9m tinha ido embora. Z\u00e9 Celso, tamb\u00e9m. Todo mundo se dispersou. E eu me senti assim deslocado. A\u00ed falei com o Andr\u00e9, e ele me trouxe para c\u00e1, a Warner. Fiz esse <em>O Dia Em Que A Terra Parou\u00a0<\/em>que \u00e9 uma continua\u00e7\u00e3o do trabalho de 73. E vai sempre ser, at\u00e9 que eu morra. Sempre falei as minhas m\u00fasicas no ponto de vista filos\u00f3fico, que \u00e9 meu campo, que \u00e9 a coisa que eu gosto, ponto de vista metaf\u00edsico, ontol\u00f3gico, olhando todo mundo e a vida, sabe? Estou lutando por isso\u2026<\/p>\n<p>&#8211; Da\u00ed surgiu a oportunidade do show?<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9. A rela\u00e7\u00e3o que existe daquele show no Teatro das Na\u00e7\u00f5es em 73 e o atual \u00e9 a continua\u00e7\u00e3o de todo o processo hist\u00f3rico brasileiro. Talvez por isso voc\u00ea tenha dito que vou cantar m\u00fasicas mais antigas. \u00c9 uma sequ\u00eancia do processo de muta\u00e7\u00e3o, do ponto de vista de um brasileiro, como cantor. Nunca cantei algumas dessas m\u00fasicas para o p\u00fablico de teatro, ent\u00e3o acho que seria legal cantar o \u201cTrem Das Sete\u201d, \u201cMosca Na Sopa\u201d, \u201cEu Nasci H\u00e1 10 Mil Anos Atr\u00e1s\u201d e mais algumas que s\u00e3o bem conhecidas. E que foram importantes para mim na \u00e9poca. Tiveram outra conota\u00e7\u00e3o. Gostaria de retomar essa concep\u00e7\u00e3o, falar dela, eu gosto muito de conversar com as pessoas nos shows. Acho que show em teatro deve ser mais do que simplesmente um cantor chegar l\u00e1, abrir a boca e dizer besteiras. Porque de cantor o Brasil est\u00e1 cheio. Acho que a gente tem que ter um di\u00e1logo maior, expandir mais, deixar que as pessoas falem. Ser mais uma pe\u00e7a assim dantesca. Deixar as pessoas participarem, acho isso muito importante em teatro, essa intera\u00e7\u00e3o com o p\u00fablico.<\/p>\n<p>&#8211; Deixar que elas sejam tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>&#8211; Que elas sejam. Mas numa boa, que sejam bem, n\u00e3o com medo.<\/p>\n<p>&#8211; Qual sua posi\u00e7\u00e3o dentro da m\u00fasica popular brasileira?<\/p>\n<p>&#8211; Esse neg\u00f3cio de ra\u00edzes, essas coisas s\u00e3o t\u00e3o dif\u00edceis pra responder. Me coloco numa posi\u00e7\u00e3o de individualismo. Bem individualista, mas deixando, mas permitindo que voc\u00ea seja. Let it be, entende? Todo mundo tem direito de fazer o que quiser, pois \u00e9 tudo da lei, como diz a letra de \u201cSociedade Alternativa\u201d. Mas, n\u00e3o pise no meu sapato de camur\u00e7a azul, lembra o rock do Elvis? Nunca tirei carteirinha de baiano, embora seja baiano; nunca pertenci a nenhum grupo. Sou mais assim raulseixista.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/AQJi8EJuhMo\" width=\"560\" height=\"315\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\"><\/iframe><\/p>\n<h6><em>Foto: Divulga\u00e7\u00e3o<\/em><\/h6>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-18238 alignleft\" src=\"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/asmargensplacidas.jpg\" alt=\"\" width=\"60\" height=\"90\" \/>\u00a0*Entrevista publicada<\/p>\n<p>no livro &#8220;\u00c0s Margens Pl\u00e1cidas<\/p>\n<p>do Ipiranga&#8221;\/1997<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><em>*A prop\u00f3sito da data, recupero uma entrevista, digamos, quase in\u00e9dita. <\/em><\/p>\n<p><em>Confira!<\/em><\/p>\n<p>I.<\/p>\n<p>Roqueiro, falastr\u00e3o, prolixo, irreverente, profeta do apocalipse, agitador, maluco-beleza.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":21124,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[5,4],"tags":[593,399,128,592,591,590],"class_list":["post-21123","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-blog","category-leia-esta-cancao","tag-30-anos-sem-raul","tag-carreira","tag-entrevista","tag-raul","tag-raul-seixas","tag-raulzito"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21123","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=21123"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21123\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":21129,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21123\/revisions\/21129"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media\/21124"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=21123"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=21123"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=21123"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}