{"id":23628,"date":"2020-08-13T06:15:02","date_gmt":"2020-08-13T06:15:02","guid":{"rendered":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/?p=23628"},"modified":"2020-08-08T18:36:45","modified_gmt":"2020-08-08T18:36:45","slug":"cronicas-de-viagens-perugia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/cronicas-de-viagens-perugia\/","title":{"rendered":"Cr\u00f4nicas de Viagens &#8211; Perugia"},"content":{"rendered":"<p><em>Fotos: Arquivo Pessoal<\/em><\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p><strong>9 &#8211; O jantar das duas senhoras<\/strong><\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Quando chegamos, elas j\u00e1 estavam ali. Em sil\u00eancio a remoer o antipasto e a mem\u00f3ria. N\u00e3o nos chamaram \u00e0 aten\u00e7\u00e3o a princ\u00edpio. Eram apenas duas senhoras, para l\u00e1 dos setenta, a ocupar uma das mesas junto \u00e0s grandes janelas do restaurante do Hotel Sangalo, em <a href=\"http:\/\/turismo.comune.perugia.it\/pagine\/welcome-to-perugia\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><strong>PERUGIA<\/strong><\/a>.<\/p>\n<p>Est\u00e1vamos com fome.<\/p>\n<p>Viajamos o dia todo, sob uma chuva fina e intermitente. Depois, n\u00e3o satisfeitos, nos perdemos pela cidade em busca de hospedagem.<\/p>\n<p>Rodamos pelos arredores da capital da Umbria v\u00e1rias vezes, sem rumo e sem prumo.<\/p>\n<p>Quando pensamos em desistir \u2013 e seguir para Assis que \u00e9 pertinho\u00a0-, eis que surge o imponente hotel e nos abriga,<br \/>\ncom alguma generosidade a 100 euros por apartamento triplo. Nada mal.<\/p>\n<p>Topamos \u2013 e n\u00e3o nos arrependemos.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Agora, quase nove da noite, quer\u00edamos apenas jantar. Mas, chama a minha aten\u00e7\u00e3o a cena com as senhoras ali em frente. Quietas. Impass\u00edveis. A cumprir o solene ritual das refei\u00e7\u00f5es italianas \u2013 antipasto, primeiro prato, segundo prato, sobremesa e a inevit\u00e1vel garrafa de vinho sobre a mesa<\/p>\n<p>&#8212; Olha, como elas se parecem.<\/p>\n<p>N\u00e3o sou o \u00fanico do grupo a reparar nas mulheres. Provavelmente s\u00e3o irm\u00e3s. A roupa, o sil\u00eancio, o penteado, o sil\u00eancio, os gestos, o sil\u00eancio, o olhar no nada, o sil\u00eancio \u2013 em tudo, se parecem.<\/p>\n<p>N\u00e3o que fossem exatamente iguais. Mas havia semelhan\u00e7a at\u00e9 nos \u00f3culos que usavam. Definitivamente, para n\u00f3s, eram irm\u00e3s \u2013 e ponto.<\/p>\n<p>Fizemos nossos pedidos, bem mais modestos que os das senhoras, e tentamos entabular uma conversa sobre o roteiro que far\u00edamos nos dias seguintes. Mas, outra vez, elas voltaram a ser o assunto.<\/p>\n<p>&#8212; U\u00e9, elas n\u00e3o se falam, n\u00e3o?<\/p>\n<p>&#8212; Ser\u00e1 que brigaram?<\/p>\n<p>&#8212; Vai ver s\u00e3o mudas?<\/p>\n<p>Havia eleg\u00e2ncia nos gestos contidos das irm\u00e3s, certamente italianas que, juntas, curtem o fim-de-semana na cidade dos arcos etruscos. Naquele momento, por\u00e9m, desconfio, percorriam, por conta e risco, os arcos e os grot\u00f5es das lembran\u00e7as. Dos sonhos que ficaram pelo caminho. Dos tempos idos &#8211; e de ef\u00eamera felicidade.<\/p>\n<p>Um mundo que ningu\u00e9m, nem o tempo, poderia lhes roubar. Um universo rigorosamente pessoal e intransfer\u00edvel.<\/p>\n<p>Tudo em forma de sil\u00eancio e de um olhar mais alongado para o nada, o vazio, o intang\u00edvel.<\/p>\n<p>Sou capaz de jurar, nem perceberam que eram o assunto da ruidosa mesa de brasileiros. Brasileiros,curiosos e bisbilhoteiros, diga-se.<\/p>\n<p>Chamei a aten\u00e7\u00e3o do pessoal para os nossos pratos que chegavam, saltitantes nas bandejas.<\/p>\n<p>Era bom controlar os gastos. Por isso simplificamos o pedido a um tipo de massa para cada viajante.<\/p>\n<p>&#8212; \u00c9 as velhinhas est\u00e3o \u2018de boa\u2019 \u2013 invejou o mais jovem da tropa.<\/p>\n<p>Rimos todos a concordar com a pertin\u00eancia da observa\u00e7\u00e3o. E, louvado seja, foi a nossa vez de fazer sil\u00eancio e enfrentar a lasanha, o nhoque e o ravi\u00f3li que coube a cada um de n\u00f3s.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Confesso que me intrigou o sil\u00eancio das duas senhoras.<\/p>\n<p>Estavam juntas, e estavam s\u00f3s.<\/p>\n<p>Quantos de n\u00f3s n\u00e3o passam a vida assim mesmo em meio \u00e0s galeras e aos modismos?<\/p>\n<p>Eu mesmo, n\u00e3o raras vezes, me vejo distante e desinteressado, como se fosse um estrangeiro dentro de mim.<\/p>\n<p>De outro modo, noto que, cada vez mais, as pessoas t\u00eam dificuldade de conversar um assunto comum a quem fala e a quem ouve.<\/p>\n<p>(Normalmente, quem est\u00e1 com a palavra discorre sobre ele mesmo. E, quem escuta, faz que est\u00e1 a\u00ed, mas na verdade nada ouve.)<\/p>\n<p>Me parece que, mesmo em bandos e tribos, andamos cada vez mais individualistas, com planos e quer\u00eancias que n\u00e3o ousamos contar nem a n\u00f3s mesmos.<\/p>\n<p>Andamos distantes de pessoas queridas. E fazemos de conta que podemos viver muito bem sem elas. E a\u00ed, gradativamente, nos habituamos a uma solid\u00e3o que pode n\u00e3o ser f\u00edsica, mas existe \u2013 \u00e9 real e perigosa.<\/p>\n<p>Estamos presentes e ausentes, em tantos lugares e em lugar nenhum.<\/p>\n<p>Exatamente como as duas senhoras.<\/p>\n<p>Em meio \u00e0 bagagem, n\u00e3o esqueceram de trazer tamb\u00e9m lembran\u00e7as, o sil\u00eancio, uma certa melancolia, o sil\u00eancio e a pr\u00f3pria mania &#8211; irrevers\u00edvel e silenciosa &#8211; de ser s\u00f3.<\/p>\n<p>At\u00e9 quando sa\u00edram do restaurante, mostraram como se auto-isolaram uma da outra \u2013 e do mundo.<\/p>\n<p>A primeira pegou uma \u00fanica ma\u00e7\u00e3 na fruteira. A outra retornou minutos depois.<\/p>\n<p>Apanhou a garrafa de vinho e apenas um c\u00e1lice \u2013 e os levou para o quarto.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-23634 alignright\" src=\"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/perugia-2-300x200.jpg\" alt=\"\" width=\"413\" height=\"275\" srcset=\"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/perugia-2-300x200.jpg 300w, https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/perugia-2-768x513.jpg 768w, https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/perugia-2-1024x684.jpg 1024w, https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/perugia-2-1071x715.jpg 1071w, https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/perugia-2-483x323.jpg 483w, https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/perugia-2-360x240.jpg 360w, https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/perugia-2-600x401.jpg 600w, https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/perugia-2-263x176.jpg 263w, https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/perugia-2.jpg 1893w\" sizes=\"auto, (max-width: 413px) 100vw, 413px\" \/><\/p>\n<p>Nem sei porque lembrei-me dessa hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>\u00c9 verdade que ouvi, dia desses, raro desabafo de um amigo &#8211; quase desistindo de tudo e de todos.<\/p>\n<p>&#8212; As pessoas hoje vivem mais de sensa\u00e7\u00f5es e menos, bem menos, de sentimentos.<\/p>\n<p>Pode at\u00e9 parecer a mesma coisa, mas h\u00e1 uma enorme diferen\u00e7a entre uma coisa e outra.<\/p>\n<p>Viver \u00e9 uma coisa, estar vivo \u00e9 outra&#8230;<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/JV8cTmvaVEs\" width=\"560\" height=\"315\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\"><\/iframe><\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p><em><strong>* Publicado originalmente em 27\/02\/2007<\/strong><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><em>Fotos: Arquivo Pessoal<\/em><\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p><strong>9 &#8211; O jantar das duas senhoras<\/strong><\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Quando chegamos, elas j\u00e1 estavam ali. Em sil\u00eancio a remoer o antipasto e a mem\u00f3ria.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":23633,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[1470,1131,1490,1489,1471],"class_list":["post-23628","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-blog","tag-cronicas-de-viagens","tag-italia","tag-o-jantar-das-duas-senhoras","tag-perugia","tag-turismo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23628","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=23628"}],"version-history":[{"count":8,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23628\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":23638,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23628\/revisions\/23638"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media\/23633"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=23628"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=23628"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=23628"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}