{"id":23796,"date":"2020-08-31T06:15:18","date_gmt":"2020-08-31T06:15:18","guid":{"rendered":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/?p=23796"},"modified":"2020-09-02T14:02:57","modified_gmt":"2020-09-02T14:02:57","slug":"cronicas-de-viagens-8","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/cronicas-de-viagens-8\/","title":{"rendered":"Cr\u00f4nicas de Viagens &#8211; Paris"},"content":{"rendered":"<p><em>Fotos: Arquivo Pessoal<\/em><\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p><strong>27 &#8211; N\u00famero Um<\/strong><\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Nevou.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/pt.parisinfo.com\/\"><strong>PARIS<\/strong><\/a> se fez mais rom\u00e2ntica ao enfeitar-se de branco, telhados e ruas, logo na primeira manh\u00e3 daquele ano.<\/p>\n<p>Est\u00e1vamos a escolher os pr\u00f3ximos roteiros de viagem na Gare de Saint Lazare &#8211; quer\u00edamos conhecer Versailles, cidade nos arredores parisienses onde existe o tal Pal\u00e1cio que, dizem, inspirou o arquiteto italiano Tommaso Gaudenzio Bezzi na constru\u00e7\u00e3o do nosso Museu do Ipiranga.<\/p>\n<p>Erramos de Gare. Levou um tempo para descobrirmos que dever\u00edamos nos dirigir para a Gare do Nord, de onde parte o trem em hor\u00e1rios precisos.<\/p>\n<p>Adiamos o passeio &#8211; e ficamos por ali pensando no que fazer e olhando o movimento.<\/p>\n<p>Chamou nossa aten\u00e7\u00e3o um senhor que chegou a cantar, como se nada mais houvesse no mundo. Ele, a can\u00e7\u00e3o e as lembran\u00e7as.<\/p>\n<p>Deu um <em>n\u00e3o-sei-o-qu\u00ea<\/em> de saudade ali na hora que, mesmo agora, estou a me perguntar se era coisa minha, do cantante ou da dol\u00eancia natural \u00e0 m\u00fasica rom\u00e2ntica francesa?<\/p>\n<p>Estou sem resposta ainda hoje.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Ao lado do cantante, seguia um guri que, indiferente a cantoria, n\u00e3o parava de falar.<\/p>\n<p>Dezesseis ou dezessete anos, se tanto.<\/p>\n<p>Devia estar a contar os feitos da noite de S\u00e3o Silvestre, como por l\u00e1 \u00e9 conhecido o 31 de dezembro. Mas, o dito-cujo cidad\u00e3o n\u00e3o lhe ouvia.<\/p>\n<p>Tinha um chap\u00e9u enterrado na cabe\u00e7a e o sobretudo que, desconfio, atravessou gera\u00e7\u00f5es. Poderia ser pai, av\u00f4, tio ou parente do garoto, mas n\u00e3o lhe dava aten\u00e7\u00e3o. Apenas andava ao seu lado, a cantarolar versos intelig\u00edveis.<\/p>\n<p>O olhar vadio seguia os trilhos dos trens que interligam Paris a outros cantos da Fran\u00e7a e da Europa.<\/p>\n<p>A um dado momento, o rapazola se tocou da indiferen\u00e7a.<\/p>\n<p>Encheu-se de brios e pulou na frente do senhor.<\/p>\n<p>Queria aprova\u00e7\u00e3o para essa ou aquela proeza.<\/p>\n<p>Refor\u00e7ava com gestos e sorrisos.<\/p>\n<p>O expediente de pouco adiantou.<\/p>\n<p>O <em>figura<\/em> parou de cantarolar. Mas, n\u00e3o do enredo.<\/p>\n<p>&#8211; Proeza! Que proeza, menino? Proeza ser\u00e1 o dia em que voc\u00ea aqui deixar uma mulher chorando de amor e partir em um desses trens, tamb\u00e9m com o cora\u00e7\u00e3o apertado, para enfrentar novos desafios. A\u00ed, sim, poder\u00e1 dizer que a vida valeu para alguma coisa. A\u00ed, sim, vai se sentir um homem de verdade.<\/p>\n<p>Voltou a cantar e a olhar os trilhos.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-23881 alignleft\" src=\"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/paris5-300x225.jpg\" alt=\"\" width=\"461\" height=\"346\" srcset=\"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/paris5-300x225.jpg 300w, https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/paris5-768x576.jpg 768w, https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/paris5-1024x768.jpg 1024w, https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/paris5-953x715.jpg 953w, https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/paris5-483x362.jpg 483w, https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/paris5-360x270.jpg 360w, https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/paris5-600x450.jpg 600w, https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/paris5-263x197.jpg 263w, https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/paris5.jpg 2048w\" sizes=\"auto, (max-width: 461px) 100vw, 461px\" \/>Gostei.<\/p>\n<p>Falou pouco e disse tudo.<\/p>\n<p>C\u00e1 pra n\u00f3s, o homem\u00a0poderia estar lembrando de algum filme como sugeria a tal cena.<\/p>\n<p>O cen\u00e1rio era prop\u00edcio para encontros e despedidas, os dois lados da mesma viagem. Ambos inesquec\u00edveis.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m poderia falar por experi\u00eancia pr\u00f3pria.<\/p>\n<p>Percebi uma certa perplexidade na express\u00e3o do garoto, tipo: n\u00e3o foi isso que eu perguntei.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, no ato, concordei com o senhor. E, sei l\u00e1 porque motivo, me vi na plateia do Olympia, antiga casa de espet\u00e1culos paulistana, em 1993.<\/p>\n<p>Ali, o cantor N\u00e9lson Gon\u00e7alves fazia um show que reverenciava seus 50 anos de boemia.<\/p>\n<p>O Olympia estava lotado.<\/p>\n<p>N\u00e9lson a enfileirar um sucesso atr\u00e1s do outro \u2013<em> A Minha Ren\u00fancia, Nem as Paredes Confesso, Negue, Fica Comigo<\/em> <em>Esta Noite<\/em> e a indefect\u00edvel<em> Boemia<\/em>, entre outras.<\/p>\n<p>L\u00e1 pelas tantas, os acordes introduziram um samba-can\u00e7\u00e3o de Benedito Lacerda e M\u00e1rio Lago, chamado <em>N\u00famero Um<\/em>. Originalmente gravado por Orlando Silva, os versos contam a hist\u00f3ria de um homem que v\u00ea a mulher amada ir embora em busca de tantas e tamanhas &#8220;proezas&#8221;, se \u00e9 que me entendem?<\/p>\n<p>Termina assim:<\/p>\n<p><em>N\u00e3o guardo frios rancores<\/em><br \/>\n<em>Porque entre os teus mil amores<\/em><br \/>\n<em>Eu serei sempre o n\u00famero um<\/em><\/p>\n<p>N\u00e9lson n\u00e3o segurou as l\u00e1grimas.<\/p>\n<p>A plat\u00e9ia percebeu e se emocionou. Aplaudiu com mais intensidade. Quando as palmas e assobios diminu\u00edram, o cantor tentou agradecer. No entanto, l\u00e1 do fundo do sal\u00e3o, veio a voz de um gaiato:<\/p>\n<p>&#8211; Chorando, hein, N\u00e9ls\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>Mas o cantor n\u00e3o se perdeu.<\/p>\n<p>Apesar da gagueira, habitual quando N\u00e9lson falava, deu uma li\u00e7\u00e3o de vida para todos n\u00f3s.<\/p>\n<p>&#8211; Se voc\u00ea ama-ma-sse como eu ama-mei, te-tenho certe-za que tam-b\u00e9m cho-cho-choraria&#8230;<\/p>\n<p>Mais e mais aplausos.<\/p>\n<p>N\u00e3o havia neve, \u00f3bvio. Mas transbordou romantismo.<\/p>\n<p>Isso aconteceu no bairro paulistano da Lapa, mas bem poderia ser Paris.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/ibOuA2JbuOQ\" width=\"560\" height=\"315\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\"><\/iframe><\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>*<strong><em> Publicado originalmente em 19\/06\/2007<\/em><\/strong><\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p><em>(N\u00e9lson morreu cinco anos depois, em abril de 1998, aos 79 anos.)<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><em>Fotos: Arquivo Pessoal<\/em><\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p><strong>27 &#8211; N\u00famero Um<\/strong><\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Nevou.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/pt.parisinfo.com\/\"><strong>PARIS<\/strong><\/a> se fez mais rom\u00e2ntica ao enfeitar-se de branco,<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":23879,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[1470,71,402,1536,144,1471],"class_list":["post-23796","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-blog","tag-cronicas-de-viagens","tag-franca","tag-nelson-goncalves","tag-numero-um","tag-paris","tag-turismo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23796","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=23796"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23796\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":23882,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23796\/revisions\/23882"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media\/23879"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=23796"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=23796"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=23796"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}