{"id":25841,"date":"2021-09-17T14:56:38","date_gmt":"2021-09-17T14:56:38","guid":{"rendered":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/?p=25841"},"modified":"2025-09-19T14:57:44","modified_gmt":"2025-09-19T14:57:44","slug":"moleques-de-rua","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/moleques-de-rua\/","title":{"rendered":"Moleques de rua"},"content":{"rendered":"<p><em>Foto:J\u00f4 Rabelo<\/em><\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>\u00c9ramos o que se dizia ent\u00e3o &#8216;moleques de rua&#8217;.<\/p>\n<p>Cambuci, bairro oper\u00e1rio paulistano. Virada dos anos 50 para a fumegante d\u00e9cada de 60.<\/p>\n<p>A molecada se dividia em times de futebol a representar as ruas e as quebradas onde mor\u00e1vamos.<\/p>\n<p>\u00c9ramos, eu e os meus, os &#8216;encrencas&#8217; da rua Muniz de Souza.<\/p>\n<p>T\u00ednhamos entre nove e doze anos.<\/p>\n<p>Apront\u00e1vamos bem.<\/p>\n<p>Dentro dos conformes da idade e do que nos era (quase sempre) permitido.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Vez ou outra, alguma dona da vizinhan\u00e7a chamava a &#8216;baratinha&#8217; da R\u00e1dio Patrulha para acalmar a bagun\u00e7a que faz\u00edamos com gosto.<\/p>\n<p>Um vidro de janela quebrado pela bola de borracha, a m\u00e3e zelosa em fazer dormir o lindo beb\u00ea que acabara de nascer, alguma alterca\u00e7\u00e3o no rach\u00e3o da cal\u00e7ada, eventuais confrontos com a turma da outra rua e por a\u00ed \u00edamos&#8230;<\/p>\n<p>E como \u00edamos!<\/p>\n<p>Eram esses alguns dos leg\u00edtimos motivos das reclama\u00e7\u00f5es e do chamado aos homens da lei.<\/p>\n<p>Quando pintava a viatura (um fusquinha preto e branco) na esquina da Almeida Torres, era um furd\u00fancio. Uma correria.<\/p>\n<p>Um salve-se quem puder.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Medo, medinho, meda\u00e7o de parar no Juizado de Menor.<\/p>\n<p>&#8220;Deixo voc\u00ea mofando l\u00e1 at\u00e9 os 18 anos. Ou ponho num col\u00e9gio interno&#8230; Quer pagar para ver?&#8221;<\/p>\n<p>Era a ame\u00e7a que nossos pais, entre preocupados e constrangidos, nos faziam.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Acredit\u00e1vamos, mas esquec\u00edamos r\u00e1pido.<\/p>\n<p>No dia seguinte, na volta do col\u00e9gio, v\u00ednhamos tocando a campainha das casas, mexendo com as garotas, cantando can\u00e7\u00f5es com obscenidades, dando estilingada em passarinhos e gatos&#8230; enfim, coisiquinhas do g\u00eanero.<\/p>\n<p>T\u00ednhamos de manter a nossa fama de mau.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>O mais terr\u00edvel dos nossos era o Tian\u00e7a.<\/p>\n<p>Devia ter uns nove anos. Pequenino, mais para o rechonchudo, rosto de crian\u00e7a-crian\u00e7a (palavra que n\u00e3o conseguia dizer corretamente, pois tinha a l\u00edngua presa; da\u00ed o apelido Tian\u00e7a), ele aprontava pra ded\u00e9u. N\u00e3o consegu\u00edamos acompanh\u00e1-lo nas peraltices todas que fazia.<\/p>\n<p>Os adultos &#8211; acreditem! &#8211; n\u00e3o acreditavam que aquela figura de anjinho barroco &#8216;tocava o terror&#8217;.<\/p>\n<p>Era uma candura de menino.<\/p>\n<p>&#8220;Imposs\u00edvel&#8221;, dizia o Seu Jos\u00e9 da Venda.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Todas as tardes, o Tian\u00e7a chegava \u00e0 porta do humilde emp\u00f3rio, caprichava na carinha de triste, e pedia um peda\u00e7o de p\u00e3o.<\/p>\n<p>Seu Jos\u00e9 franzia o cenho, desconfiava.<\/p>\n<p>Mas, n\u00e3o deixava de atend\u00ea-lo.<\/p>\n<p>A cena se repetia.<\/p>\n<p>&#8211; T\u00f4 com fome. Tem um p\u00e3ozinho, pra mim? Pode ser de ontem mesmo&#8230;<\/p>\n<p>Quem disse que o Portuga resistia?<\/p>\n<p>&#8211; Tome l\u00e1, garoto. Na escola, n\u00e3o lhe d\u00e3o merenda, n\u00e3o?<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Num dia qualquer, o Tian\u00e7a, com ares sapecas, bateu at\u00e9 a vendinha como de praxe.<\/p>\n<p>Mas, no lugar de um peda\u00e7o de p\u00e3o, ousou pedir um peda\u00e7o de bolo, daqueles bem grand\u00f5es, e um &#8216;ca\u00e7ulinha&#8217;.<\/p>\n<p>Mas, o que \u00e9 que \u00e9, garoto? T\u00e1 abusado hoje, hein?<\/p>\n<p>&#8211; D\u00e1 um peda\u00e7o de bolo, v\u00e1! E um guaranazinho pra acompanhar.<\/p>\n<p>&#8211; Pensa o qu\u00ea o mi\u00fado? Por que isso agora?<\/p>\n<p>&#8211; \u00d4 Seu Jos\u00e9, seja bonzinho comigo. D\u00e1 um peda\u00e7o de bolo e um &#8216;ca\u00e7ulinha&#8217; para mim. Por favor. \u00c9 meu anivers\u00e1rio, p\u00f4xa!<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Definitivamente, Tian\u00e7a era um s\u00f3 uma crian\u00e7a.<\/p>\n<p>Ganhou o bolo, o guaran\u00e1 e o cora\u00e7\u00e3o do homenzarr\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas, quem disse que ele, longe dos olhos do nosso emotivo vendeiro, parou de aprontar?<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"YouTube video player\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/WhPDqMwbpso\" width=\"560\" height=\"315\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\"><\/iframe><\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><em>Foto:J\u00f4 Rabelo<\/em><\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>\u00c9ramos o que se dizia ent\u00e3o &#8216;moleques de rua&#8217;.<\/p>\n<p>Cambuci, bairro oper\u00e1rio paulistano. 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