{"id":26881,"date":"2022-03-17T06:15:00","date_gmt":"2022-03-17T06:15:00","guid":{"rendered":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/?p=26881"},"modified":"2022-03-15T14:54:48","modified_gmt":"2022-03-15T14:54:48","slug":"a-maquina-do-mundo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/a-maquina-do-mundo\/","title":{"rendered":"A M\u00e1quina do Mundo *"},"content":{"rendered":"\n<p>Foto: Arquivo Pessoal<\/p>\n\n\n\n<p>&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>* <em>Poema de Carlos Drummond de Andrade, publicado originalmente em 1951, no livro <strong>Claro Enigma<\/strong>.<\/em> <\/p>\n\n\n\n<p><em>Uma sugest\u00e3o do amigo Valdir Boffetti na v\u00e3 tentativa<\/em> <em>de entender &#8216;os mesmos sem roteiro tristes p\u00e9riplos&#8217;.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>E como eu palmilhasse vagamente<br>uma estrada de Minas, pedregosa,<br>e no fecho da tarde um sino rouco<\/p>\n\n\n\n<p>se misturasse ao som de meus sapatos<br>que era pausado e seco; e aves pairassem<br>no c\u00e9u de chumbo, e suas formas pretas<\/p>\n\n\n\n<p>lentamente se fossem diluindo<br>na escurid\u00e3o maior, vinda dos montes<br>e de meu pr\u00f3prio ser desenganado,<\/p>\n\n\n\n<p>a m\u00e1quina do mundo se entreabriu<br>para quem de a romper j\u00e1 se esquivava<br>e s\u00f3 de o ter pensado se carpia.<\/p>\n\n\n\n<p>Abriu-se majestosa e circunspecta,<br>sem emitir um som que fosse impuro<br>nem um clar\u00e3o maior que o toler\u00e1vel<\/p>\n\n\n\n<p>pelas pupilas gastas na inspe\u00e7\u00e3o<br>cont\u00ednua e dolorosa do deserto,<br>e pela mente exausta de mentar<\/p>\n\n\n\n<p>toda uma realidade que transcende<br>a pr\u00f3pria imagem sua debuxada<br>no rosto do mist\u00e9rio, nos abismos.<\/p>\n\n\n\n<p>Abriu-se em calma pura, e convidando<br>quantos sentidos e intui\u00e7\u00f5es restavam<br>a quem de os ter usado os j\u00e1 perdera<\/p>\n\n\n\n<p>e nem desejaria recobr\u00e1-los,<br>se em v\u00e3o e para sempre repetimos<br>os mesmos sem roteiro tristes p\u00e9riplos,<\/p>\n\n\n\n<p>convidando-os a todos, em coorte,<br>a se aplicarem sobre o pasto in\u00e9dito<br>da natureza m\u00edtica das coisas,<\/p>\n\n\n\n<p>assim me disse, embora voz alguma<br>ou sopro ou eco ou simples percuss\u00e3o<br>atestasse que algu\u00e9m, sobre a montanha,<\/p>\n\n\n\n<p>a outro algu\u00e9m, noturno e miser\u00e1vel,<br>em col\u00f3quio se estava dirigindo:<br>\u201cO que procuraste em ti ou fora de<\/p>\n\n\n\n<p>teu ser restrito e nunca se mostrou,<br>mesmo afetando dar-se ou se rendendo,<br>e a cada instante mais se retraindo,<\/p>\n\n\n\n<p>olha, repara, ausculta: essa riqueza<br>sobrante a toda p\u00e9rola, essa ci\u00eancia<br>sublime e formid\u00e1vel, mas herm\u00e9tica,<\/p>\n\n\n\n<p>essa total explica\u00e7\u00e3o da vida,<br>esse nexo primeiro e singular,<br>que nem concebes mais, pois t\u00e3o esquivo<\/p>\n\n\n\n<p>se revelou ante a pesquisa ardente<br>em que te consumiste\u2026 v\u00ea, contempla,<br>abre teu peito para agasalh\u00e1-lo.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>As mais soberbas pontes e edif\u00edcios,<br>o que nas oficinas se elabora,<br>o que pensado foi e logo atinge<\/p>\n\n\n\n<p>dist\u00e2ncia superior ao pensamento,<br>os recursos da terra dominados<br>e as paix\u00f5es e os impulsos e os tormentos<\/p>\n\n\n\n<p>e tudo o que define o ser terrestre<br>ou se prolonga at\u00e9 nos animais<br>e chega \u00e0s plantas para se embeber<\/p>\n\n\n\n<p>no sono rancoroso dos min\u00e9rios,<br>d\u00e1 volta ao mundo e torna a se engolfar<br>na estranha ordem geom\u00e9trica de tudo,<\/p>\n\n\n\n<p>e o absurdo original e seus enigmas,<br>suas verdades altas mais que tantos<br>monumentos erguidos \u00e0 verdade;<\/p>\n\n\n\n<p>\u00e9 a mem\u00f3ria dos deuses, e o solene<br>sentimento da morte, que floresce<br>no caule da exist\u00eancia mais gloriosa,<\/p>\n\n\n\n<p>tudo se apresentou nesse relance<br>e me chamou para seu reino augusto,<br>afinal submetido \u00e0 vista humana.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, como eu relutasse em responder<br>a tal apelo assim maravilhoso,<br>pois a f\u00e9 se abrandara, e mesmo o anseio,<\/p>\n\n\n\n<p>a esperan\u00e7a mais m\u00ednima \u2014 esse anelo<br>de ver desvanecida a treva espessa<br>que entre os raios do sol inda se filtra;<\/p>\n\n\n\n<p>como defuntas cren\u00e7as convocadas<br>presto e fremente n\u00e3o se produzissem<br>a de novo tingir a neutra face<\/p>\n\n\n\n<p>que vou pelos caminhos demonstrando,<br>e como se outro ser, n\u00e3o mais aquele<br>habitante de mim h\u00e1 tantos anos,<\/p>\n\n\n\n<p>passasse a comandar minha vontade<br>que, j\u00e1 de si vol\u00favel, se cerrava<br>semelhante a essas flores reticentes<\/p>\n\n\n\n<p>em si mesmas abertas e fechadas;<br>como se um dom tardio j\u00e1 n\u00e3o fora<br>apetec\u00edvel, antes despiciendo,<\/p>\n\n\n\n<p>baixei os olhos, incurioso, lasso,<br>desdenhando colher a coisa oferta<br>que se abria gratuita a meu engenho.<\/p>\n\n\n\n<p>A treva mais estrita j\u00e1 pousara<br>sobre a estrada de Minas, pedregosa,<br>e a m\u00e1quina do mundo, repelida,<\/p>\n\n\n\n<p>se foi miudamente recompondo,<br>enquanto eu, avaliando o que perdera,<br>seguia vagaroso, de m\u00e3os pensas.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8230;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed is-type-rich is-provider-incorporar-manipulador wp-block-embed-incorporar-manipulador wp-embed-aspect-4-3 wp-has-aspect-ratio\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<iframe loading=\"lazy\" title=\"ponta de areia.avi\" width=\"800\" height=\"600\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/VsJAX48fd-w?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe>\n<\/div><\/figure>\n\n\n\n<p>&#8220;<em>Eu s\u00f3 desejo ao mundo um pouco da delicadeza de Milton&#8221;.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>(<strong>John Marques)<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Foto: Arquivo Pessoal<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>* <em>Poema de Carlos Drummond de Andrade, publicado originalmente em 1951, no livro <strong>Claro Enigma<\/strong>.<\/em> <\/p>\n<p><em>Uma sugest\u00e3o do amigo Valdir Boffetti na v\u00e3 tentativa<\/em> <em>de entender &#8216;os mesmos sem roteiro tristes 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