{"id":27787,"date":"2022-10-25T17:30:00","date_gmt":"2022-10-25T17:30:00","guid":{"rendered":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/?p=27787"},"modified":"2022-10-25T17:30:02","modified_gmt":"2022-10-25T17:30:02","slug":"noite-de-terror-solitario-na-redacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/noite-de-terror-solitario-na-redacao\/","title":{"rendered":"Noite de terror solit\u00e1rio, na Reda\u00e7\u00e3o *"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Foto: reprodu\u00e7\u00e3o Instituto Vladimir Herzog<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Por <strong>Orlando Barrozo<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-7j8ro\">Era uma noite comum de plant\u00e3o: 25 de outubro de 1975. O ano n\u00e3o tinha sido dos mais apreci\u00e1veis. Oito meses antes, eu sofrera um acidente de carro que me deixou, literalmente, com a perna bamba por um bom tempo. Em abril, a demiss\u00e3o dos professores na ECA, a disputa pela dire\u00e7\u00e3o do Centro Acad\u00eamico Lupe Cotrim, depois a greve, o medo das pris\u00f5es que se tornavam comuns&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-nmq\">Considerando tudo isso, aquela noite de s\u00e1bado at\u00e9 que era tranquila. Ou quase. Na \u00e9poca, t\u00ednhamos na Reda\u00e7\u00e3o <em>de O Globo<\/em> em S\u00e3o Paulo uma escala de plant\u00f5es noturnos nos fins de semana. O escalado entrava \u00e0s 15h e estendia o expediente at\u00e9 por volta de meia-noite, quando fechava no Rio a edi\u00e7\u00e3o de domingo. Naquele dia, era meu turno. Sozinho, matava o tempo lendo os jornais do dia, e com especial curiosidade os cadernos de cultura, principalmente o Divirta-se do <em>Jornal da Tarde<\/em> e o Caderno B do <em>Jornal do Brasil<\/em>. Pol\u00edtica, via mais por obriga\u00e7\u00e3o, at\u00e9 porque nas reda\u00e7\u00f5es ainda vigorava a censura (externa ou interna mesmo), que o dono do jornal, um tal de Roberto Marinho, era \u201cassim c\u2019os homi\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-5ed0r\">Tive um colega que, em plant\u00f5es como aquele, ficava ligando para as delegacias em busca de not\u00edcias. \u201cTem algum presunto hoje a\u00ed?\u201d, perguntava ele ao delegado da hora. Quase sempre tinha&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-17uss\">Eu, de minha parte, nem gostava de presunto. Mas l\u00e1 pelas 22h30 eis que toca o telefone e uma voz soando irritada me passa as ordens: \u201cAnota a\u00ed, garoto, essa not\u00edcia tem que entrar sem falta no jornal de amanh\u00e3, OK?\u201d<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-crjrm\">Era o Ademar, figura estranha, jeito de milico e de bicheiro, que de vez em quando vinha \u00e0 Reda\u00e7\u00e3o mas ningu\u00e9m queria muito papo com ele. Era o setorista do 2\u00ba Ex\u00e9rcito, o jornalista (epa!!!) encarregado de transmitir aquilo que ao governo militar interessava divulgar.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-fiocb\">N\u00e3o o conhecia direito, mas sabia que seus textos tinham que ser publicados na \u00edntegra, sem tirar nem por sequer uma v\u00edrgula. \u201cPois n\u00e3o, Ademar, pode falar\u201d, era a \u00fanica frase que me cabia dizer, ainda que a voz tra\u00edsse a pa\u00fara do momento.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-b9jfo\">E ele n\u00e3o perdeu tempo: \u201cO Comando do 2\u00ba Ex\u00e9rcito informa que o jornalista Vladimir Herzog suicidou-se na tarde de hoje, nas depend\u00eancias do DOI-CODI. O jornalista havia comparecido para depor \u00e0s 9h da manh\u00e3 e foi encontrado j\u00e1 morto por volta das 17h\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-epnoj\">At\u00e9 pensei em faz\u00ea-lo, mas o choque (e o p\u00e2nico) e impediu de perguntar por que, se o \u201csuic\u00eddio\u201d ocorrera \u00e0 tarde, eles s\u00f3 estavam fazendo o comunicado tarde da noite. E, se era um depoimento, como \u00e9 que o mantiveram l\u00e1 o dia inteiro? Naquelas circunst\u00e2ncias, talvez n\u00e3o fosse mesmo uma boa ideia fazer perguntas.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-6poj0\">Fiquei ao mesmo tempo assustado (afinal, Herzog era meu professor na ECA) e agoniado para enviar logo a not\u00edcia ao pessoal do Rio. Nos minutos que transcorreram entre repassar o texto datilografado, entreg\u00e1-lo ao operador de telex \u2013 sim, o fax s\u00f3 entrou bem depois em nossas vidas \u2013 e confirmar se o Rio havia recebido, foi passando em minha cabe\u00e7a um filme \u2013 ou melhor, uma sequ\u00eancia de flashes.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-7qsiv\">Vlado, confesso, n\u00e3o estava entre meus professores preferidos. Como j\u00e1 trabalhava em reportagem de jornal, e morando longe, faltei a v\u00e1rias aulas suas e n\u00e3o me recordo de algum colega me ter dito que perdi muita coisa.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-7r24n\">Tamb\u00e9m n\u00e3o sabia de seu envolvimento pol\u00edtico, t\u00e3o discreto era o cara. E, claro, n\u00e3o fazia a menor ideia de que ele havia sido intimado a depor naquele s\u00e1bado. Mas j\u00e1 t\u00ednhamos relatos de professores, estudantes e profissionais de \u00e1reas diversas que haviam sido presos, torturados etc., inclusive colegas da pr\u00f3pria ECA.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-agag3\">Estava na cara que o tal suic\u00eddio havia sido armado. No domingo 26, minha prioridade era procurar colegas que soubessem de detalhes. Estava de folga, mas logo cedo sa\u00ed procurando os jornais do dia para ver a \u201ccobertura\u201d do suic\u00eddio. Em v\u00e3o, claro.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-7uukm\">Quando o 2\u00ba Ex\u00e9rcito decidiu soltar a nota farsesca, todos os jornais j\u00e1 haviam fechado; e os militares certamente sabiam disso, da\u00ed por que retardaram a divulga\u00e7\u00e3o. Talvez esperassem que no domingo a coisa esfriasse.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-5c1fr\">Felizmente para o pa\u00eds e a democracia, estavam errados. No domingo, amigos e colegas se reuniram no Sindicato dos Jornalistas, ent\u00e3o presidido por Aud\u00e1lio Dantas. E dali para a sede da C\u00faria Metropolitana, onde o inesquec\u00edvel D. Paulo Evaristo Arns tomaria a lideran\u00e7a das manifesta\u00e7\u00f5es, em parceria ecum\u00eanica com o Rabino Henry Sobel.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-1pe8p\">\u00c0 tarde, fui at\u00e9 a Reda\u00e7\u00e3o s\u00f3 para checar se a \u201cminha\u201d not\u00edcia havia sido aproveitada. Constatei que O Globo foi o \u00fanico jornal que publicou a nota no domingo. Uma pequena nota escondida numa p\u00e1gina qualquer, mas que ainda assim podia ser lida na \u00edntegra.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-aku05\">N\u00e3o posso dizer que fiquei feliz de ver o texto publicado antes de todos os concorrentes. N\u00e3o havia como estar feliz naquele domingo. Mas, pela primeira vez na carreira que come\u00e7ara mais de tr\u00eas anos antes (6 de abril, 1972), senti um gostinho muito caro a todo jornalista: o de estar no lugar certo na hora certa.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-8cvd6\"><strong>Orlando Barrozo<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>* <em>O amigo<\/em> <em>Orlando \u00e9 meu contempor\u00e2neo da turma de 1972 da Escola de Comunica\u00e7\u00f5es e<\/em> <em>Artes da Universidade de S\u00e3o Paulo.<\/em> <em>Est\u00e1vamos no terceiro ano do curso de Jornalismo &#8211; e Herzog era nosso professor de Jornalismo Televisionado.<\/em> <em>Tocante seu depoimento &#8211; e, mais do que isso, maior sua relev\u00e2ncia nesta semana quando o pa\u00eds decide qual o rumo que deseja dar \u00e0 tenra democracia.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong>LEIAM TAMB\u00c9M<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>* <a href=\"http:\/\/www.rodolfomartino.com.br\/blog\/tributo-a-vladimir-herzog\/\" data-type=\"URL\" data-id=\"http:\/\/www.rodolfomartino.com.br\/blog\/tributo-a-vladimir-herzog\/\">Tributo a Vladimir Herzog<\/a><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>* <strong><a href=\"http:\/\/www.rodolfomartino.com.br\/blog\/patria-destino-e-sonho\/\" data-type=\"URL\" data-id=\"http:\/\/www.rodolfomartino.com.br\/blog\/patria-destino-e-sonho\/\">O culto, o destino e o sonho<\/a><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"http:\/\/www.rodolfomartino.com.br\/blog\/para-reverenciar-herzog-e-rever-os-limites-do-ensino-de-jornalismo\/\" data-type=\"URL\" data-id=\"http:\/\/www.rodolfomartino.com.br\/blog\/para-reverenciar-herzog-e-rever-os-limites-do-ensino-de-jornalismo\/\">* <strong>Para reverenc<\/strong>i<strong>ar Herzog e rever os limites do ensino de jornalismo<\/strong><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><em>Foto: reprodu\u00e7\u00e3o Instituto Vladimir Herzog<\/em><\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Por <strong>Orlando Barrozo<\/strong><\/p>\n<p id=\"viewer-7j8ro\">Era uma noite comum de plant\u00e3o: 25 de outubro de 1975. O ano n\u00e3o tinha sido dos mais apreci\u00e1veis.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":19546,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[151,2244,630,135,2808,1139],"class_list":["post-27787","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-blog","tag-brasil","tag-eca-usp","tag-herzog","tag-memoria","tag-orlando-barrozo","tag-vladimir-herzog"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27787","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=27787"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27787\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":27791,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27787\/revisions\/27791"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media\/19546"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=27787"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=27787"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=27787"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}