{"id":29071,"date":"2023-05-08T06:15:00","date_gmt":"2023-05-08T06:15:00","guid":{"rendered":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/?p=29071"},"modified":"2023-05-08T17:54:34","modified_gmt":"2023-05-08T17:54:34","slug":"em-memoria-do-pai","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/em-memoria-do-pai\/","title":{"rendered":"Em mem\u00f3ria do pai"},"content":{"rendered":"\n<p>Foto: Arquivo Pessoal<\/p>\n\n\n\n<p>&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p><em>A gravata dele tamb\u00e9m era uma assinatura. At\u00e9 hoje, dez anos depois da sua morte, os sobreviventes do seu tempo, quando me encontram na rua ou numa reuni\u00e3o, falam daquela gravata. Muitos nem sabiam quem ele era, o que fazia, como se chamava. Mas guardavam dele a gravata que n\u00e3o era uma gravata qualquer, mas um emblema, um logotipo, uma op\u00e7\u00e3o de vida.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Resumia-se num cumprido len\u00e7o de seda azul-marinho com bolinhas brancas, que ele passava por dentro do colarinho e arrematava com uma la\u00e7ada simples, dessas que se d\u00e3o nos cord\u00f5es dos sapatos. Pelo que me lembro, no tempo dele, apenas dois artistas populares, Nelson Cavaquinho e Jo\u00e3o da Baiana, usavam a mesma gravata. Chamava-se \u00e0 Lavalli\u00e8re, era larga e tinha o la\u00e7o bufante.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>O len\u00e7o no bolsinho superior do palet\u00f3 era do mesmo tecido e cor. Gravata e len\u00e7o que ele nunca esquecia ou deixava de usar, estivesse ele com qualquer roupa, desde o terno riscadinho com que foi ao casamento dos filhos e a outras cerim\u00f4nias mais solenes, \u00e0 roupa esporte, quando vestia culotes e perneiras e ficava parecendo aquele velhinho do filme de Monicelli.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Volta e meia, minha m\u00e3e ia ao Mundo das Sedas e trazia metros e metros daquela seda azul-marinho com bolinhas brancas. Eram f\u00e1ceis de fazer, tanto a gravata como o len\u00e7o. Quando o conjunto come\u00e7ava a desfiar, ele tinha a pilha sempre abastecida por minha m\u00e3e. Julgava-se bonito com aquilo.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Recebia gravatas de presente, algumas caras, de amigos que iam a Paris ou Roma. Ele agradecia, guardava por uns tempos, depois embrulhava de novo e presenteava algu\u00e9m com elas. O secret\u00e1rio da Agricultura, Heitor Grilo, marido de Cec\u00edlia Meireles, deu-lhe num Natal uma bela gravata italiana, no ano seguinte, na confus\u00e3o dos presentes, o pai o presenteou com a mesma gravata.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ganhava tamb\u00e9m chap\u00e9us, foi dos \u00faltimos homens do Rio de Janeiro a usar chap\u00e9u, quando ficou muito velho e percebeu que ningu\u00e9m mais usava, passou a andar de boina pois sentia frio no alto da cabe\u00e7a que os ralos cabelos brancos j\u00e1 n\u00e3o protegiam.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Apaixonou-se por uma boina basca que eu lhe trouxe, comprada na Corte Igl\u00e9s, de Madri, e toda vez que sabia de algu\u00e9m que ia a Madri ele encomendava uma boina igual mas s\u00f3 usava a minha.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>*Trecho do livro <strong>Quase Mem\u00f3ria<\/strong>, escrito pelo jornalista<strong><em> Carlos Heitor Cony<\/em><\/strong> em 1995, e premiado com o Pr\u00eamio Jabuti em 1996. O autor faz uma rever\u00eancia \u00e0 mem\u00f3ria do pai, o tamb\u00e9m jornalista Ernesto Cony, numa engenhosa mistura de fic\u00e7\u00e3o com fatos reais.<\/p>\n\n\n\n<p>Toda vez que me perguntam qual meu romance preferido, n\u00e3o tenho d\u00favidas em apont\u00e1-lo.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o tenho uma explica\u00e7\u00e3o plaus\u00edvel para tamanho encantamento.<\/p>\n\n\n\n<p>Imagino por imaginar e sentir que a justificativa que mais se aproxima do real diz respeito \u00e0 identifica\u00e7\u00e3o que me bateu no folhear da narrativa de Cony.<\/p>\n\n\n\n<p>Ora me via como o paiem rela\u00e7\u00e3o ao meu filho, personagem de hist\u00f3rias imaginosas e carinhos exacerbados e fora de hora; ora me via como o filho de olhos admirados e um tanto assustados pelos exageros do pai.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o sei se me entendem.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o sei soube explicar.<\/p>\n\n\n\n<p>O Velho Aldo, meu pai, na verdade, nada tinha a ver com o pai do Cony. N\u00e3o era jornalista, n\u00e3o tinha luxos de gravatas, lencinhos de seda, chap\u00e9us e boinas bascas, mas, creiam, eram t\u00e3o parecidos.<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje, o Ald\u00e3o, com seus 1,67 metros de do\u00e7ura e sil\u00eancios, completaria 106 anos.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele faleceu em 1\u00b0 de setembro de 1999.<\/p>\n\n\n\n<p>Ah, o tempo, implac\u00e1vel senhor dos rumos e destinos. <\/p>\n\n\n\n<p>Quando se faz lembran\u00e7as; invevit\u00e1vel, se faz tamb\u00e9m saudade.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A m\u00fasica preferida do pai.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Na vers\u00e3o do vinil 78 rota\u00e7\u00f5es que rodava na eletrola l\u00e1 de casa&#8230;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed is-type-rich is-provider-incorporar-manipulador wp-block-embed-incorporar-manipulador wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<iframe loading=\"lazy\" title=\"Besame Mucho by Trio Los Panchos\" width=\"800\" height=\"450\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/pwRiKDcrjz0?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe>\n<\/div><\/figure>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Foto: Arquivo Pessoal<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p><em>A gravata dele tamb\u00e9m era uma assinatura. At\u00e9 hoje, dez anos depois da sua morte, os sobreviventes do seu tempo, quando me encontram na rua ou numa reuni\u00e3o,<\/em><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":29072,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[1894,873,3096,3095,279],"class_list":["post-29071","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-blog","tag-aldao","tag-carlos-heitor-cony","tag-meu-pai","tag-quase-memoria","tag-velho-aldo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/29071","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=29071"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/29071\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":29076,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/29071\/revisions\/29076"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media\/29072"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=29071"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=29071"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=29071"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}