{"id":30996,"date":"2024-04-02T02:00:00","date_gmt":"2024-04-02T02:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/?p=30996"},"modified":"2024-04-02T13:04:10","modified_gmt":"2024-04-02T13:04:10","slug":"o-idioma-das-arvores","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/o-idioma-das-arvores\/","title":{"rendered":"O idioma das \u00e1rvores"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Foto: Arquivo Pessoal<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Suspeito que sejamos contempor\u00e2neos, vindos dos long\u00ednquos anos 50.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele aparenta ser alguns anos mais novo que eu.<\/p>\n\n\n\n<p>Estamos largados ao sol da manh\u00e3, <em>no dolce far niente<\/em>, no banco da pra\u00e7a da pacata cidade interiorana.<\/p>\n\n\n\n<p>Acabamos de nos conhecer.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o houve a protocolar apresenta\u00e7\u00e3o. Apenas a conversa ligeira. Sem rumo e sem prumo no deleite m\u00fatuo dos minutos vadios.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Falamos dos dias de chuvas que precederam o ensolarado domingo e a radiante segunda que pregui\u00e7osamente podemos agora desfrutar.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Vai ser um outono daqueles, quente pra caramba. Frio mesmo s\u00f3 chega l\u00e1 pra julho, agosto.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Ele me parece ser homem do campo. De terras e planta\u00e7\u00f5es. Tem jeit\u00e3o matuto, sotaque arrastado, t\u00edpico dessas bandas, os grot\u00f5es do Vale do Para\u00edba.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o entro em detalhes sobre o que faz ou deixa de fazer. De onde vem, pra onde vai.<\/p>\n\n\n\n<p>Entendo, pela conversa, que meu interlocutor tem as manhas de perscrutar os c\u00e9us, as nuvens e as varia\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas. <\/p>\n\n\n\n<p>&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Me surpreende quando invade as delicadas nuances da alma humana e da natureza.<\/p>\n\n\n\n<p><em>&#8220;Eu queria aprender o idioma das \u00e1rvores.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Saber as can\u00e7\u00f5es do vento nas folhas da tarde.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Eu queria apalpar os perfumes do sol<\/em>.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Do nada, o caboclo, de ares rudes, se p\u00f5e a falar de poesia.<\/p>\n\n\n\n<p>Diz com naturalidade os versos acima, do poeta matogrossense Manoel de Barros (1916\/2014).<\/p>\n\n\n\n<p>Lembra no instante seguinte a Cora Coralina (1889\/1985), poetisa de Goi\u00e1s:<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;<em>Minhas m\u00e3os doceiras&#8230;<br>Jamais ociosas.<br>Fecundas. Imensas e ocupadas.<br>M\u00e3os laboriosas.<br>Abertas sempre para dar,<br>ajudar, unir e aben\u00e7oar<\/em>&#8220;.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Faz at\u00e9 pausa dram\u00e1tica.<\/p>\n\n\n\n<p>Interpreta.<\/p>\n\n\n\n<p>Olha ao redor e diz pausadamente que ambos &#8211; Manoel e Cora -, como ele pr\u00f3prio, amavam profundamente os rinc\u00f5es onde nasceram e viveram. <\/p>\n\n\n\n<p>Faz uma ressalva, por\u00e9m. <\/p>\n\n\n\n<p>Compara a luminosa manh\u00e3 de hoje com versos eruditos (que n\u00e3o guardei) de Dante &#8220;cujo poema n\u00e3o passou de um sonho&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Imaginem o meu espanto. <\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o estou acostumado a divaga\u00e7\u00f5es e platitudes.<\/p>\n\n\n\n<p>Sou um urbanoide, estou por aqui de passagem, nem sei o que lhe responder.<\/p>\n\n\n\n<p>Decididamente a manh\u00e3 de sol a pino e o cen\u00e1rio, enfeitado pelo verde das irregulares montanhas da Serra da Bocaina, sejam mesmo inspiradores.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Inquietam-me apenas os momentos de sil\u00eancio que o homem faz de quando em quando.<\/p>\n\n\n\n<p>Imagino c\u00e1 comigo e temo que s\u00e3o poss\u00edveis &#8216;deixas&#8217; para que eu tamb\u00e9m mostre minha verve liter\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Que \u00e9 um tiquinho al\u00e9m do nada.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Prefiro ficar na minha.<\/p>\n\n\n\n<p>Esbo\u00e7o um sorriso, assumo ares de reflex\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Ufa! <\/p>\n\n\n\n<p>Ele nada me pergunta.<\/p>\n\n\n\n<p>Espera a Casa Lot\u00e9rica abrir \u00e0s 9 em ponto, despede-se com um &#8216;at\u00e9 breve&#8217; e foi l\u00e1 fazer sua f\u00e9zinha.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Acho que n\u00e3o o verei t\u00e3o cedo. Volto na ter\u00e7a para a voracidade cinza da cidade-grande.<\/p>\n\n\n\n<p>Gostei do encontro. Dou vivas ao bom Acaso.<\/p>\n\n\n\n<p>Concluo por conta e risco que:<\/p>\n\n\n\n<p>Andar pela vida \u00e9 poetar e ter o dom de fazer amigos.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim nunca estaremos ao desamparo.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>No mais, sinto a leve brisa que sacode as folhas da frondosa \u00e1rvore que me sombreia e, marotamente, me faz lembrar, num sussurro, outro pensamento do inesquec\u00edvel Manoel de Barros:<\/p>\n\n\n\n<p><em>&#8220;Tenho uma confiss\u00e3o a fazer: noventa por cento do que escrevo \u00e9 inven\u00e7\u00e3o. S\u00f3 dez por cento \u00e9 mentira<\/em>&#8220;.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8230; <\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-4-3 wp-has-aspect-ratio\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<iframe loading=\"lazy\" title=\"Can\u00e7\u00e3o da Manh\u00e3 Feliz - Miltinho &amp; Nana Caymmi\" width=\"800\" height=\"600\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/x39_KZAzqHE?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe>\n<\/div><figcaption class=\"wp-element-caption\">&#8230;<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p> <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><em>Foto: Arquivo Pessoal<\/em><\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Suspeito que sejamos contempor\u00e2neos, vindos dos long\u00ednquos anos 50.<\/p>\n<p>Ele aparenta ser alguns anos mais novo que eu.<\/p>\n<p>Estamos largados ao sol da manh\u00e3,<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":29249,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[542,3533,3645,3646,515,105,956],"class_list":["post-30996","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-blog","tag-conversa","tag-cora-coralina","tag-manha-de-sol","tag-manoel-de-barros","tag-poesia","tag-praca-vladimir-herzog","tag-sao-jose-do-barreiro"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/30996","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=30996"}],"version-history":[{"count":11,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/30996\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":31016,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/30996\/revisions\/31016"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media\/29249"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=30996"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=30996"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=30996"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}