{"id":32805,"date":"2024-11-01T08:00:00","date_gmt":"2024-11-01T08:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/?p=32805"},"modified":"2024-11-01T14:18:51","modified_gmt":"2024-11-01T14:18:51","slug":"espera-se-uma-revolucao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/espera-se-uma-revolucao\/","title":{"rendered":"&#8220;Espera-se uma revolu\u00e7\u00e3o&#8221;"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Foto: Arquivo Pessoal<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Assim dizia repetidamente, a troco de nada, aquele senhor que, l\u00e1 pelos idos dos anos 50. perambulava pelas ruas do bairro oper\u00e1rio do Cambuci, onde nasci.<\/p>\n\n\n\n<p>Do homem, diziam coisas.<\/p>\n\n\n\n<p>Que era um andarilho, sem rumo. N\u00e3o tinha onde &#8216;\u2018deitar o esqueleto\u2019&#8217;.<\/p>\n\n\n\n<p>Que ca\u00edra &#8216;\u2018em desgra\u00e7a com a fam\u00edlia\u2019&#8217;, pois andara se enroscando com uma dona &#8216;\u2018de m\u00e1 fama\u2019&#8217; que morava no Glic\u00e9rio e agora vivia assim, &#8216;\u2018num sem jeito danado\u2019&#8217;.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>O senhor de nome Irineu (se bem me lembro) devia ter trabalhado com o meu av\u00f4, o Carlito, l\u00e1 na f\u00e1brica de chap\u00e9us do Ramenzoni.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi o que eu deduzi ent\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Pois toda vez que o homem passava pela rua Lavap\u00e9s fazia quest\u00e3o de parar em frente \u00e0 janela em que o j\u00e1 aposentado v\u00f4 Carlito se debru\u00e7ava para saber da vida, do vaiv\u00e9m dos bondes e das belas tecel\u00e3s que por l\u00e1 passavam na hora do almo\u00e7o.<\/p>\n\n\n\n<p>O v\u00f4 Carlito, o copo de vinho, o impoluto chap\u00e9u na cabe\u00e7a, a janela e o mundo&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Que tempo era aquele em que claramente se distinguia a verdade da mentira, o certo do errado, o sim e o n\u00e3o da vida e dos amores?<\/p>\n\n\n\n<p>&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Era garoto de tudo, ainda me chamavam de Tchinim.<\/p>\n\n\n\n<p>Gostava porque gostava de acompanhar o v\u00f4 em seu posto de observa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Reconhe\u00e7o que achava &#8216;\u2018um pouco estranho\u2019&#8217; quando o Sr. Irineu se aboletava ao p\u00e9 da janela.<\/p>\n\n\n\n<p>O v\u00f4, n\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Sorria com gosto. E o cumprimentava cheio das express\u00f5es do tipo:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cOra, ora, quem est\u00e1 por aqui!\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>ou<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cQuem \u00e9 vivo sempre aparece!\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Eles se entendiam.<\/p>\n\n\n\n<p>Logo se punham a conversar, de assuntos que me eram distantes e fugid\u00edos.<\/p>\n\n\n\n<p>Verdade.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o falavam de futebol, do Palmeiras, do grande Altafini Mazola, o craque palestrino que batia o escanteio \u201ce corria pra \u00e1rea fazer o gol de cabe\u00e7a\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m n\u00e3o comentavam as pules e as barbadas do Jockey Club, do alaz\u00e3o Gualicho que havia ganho o Grande Pr\u00eamio Brasil no domingo anterior.<\/p>\n\n\n\n<p>Fatos me eram relevantes e motivos de falat\u00f3rios constantes do pai e dos amigos &#8211; a italianada, que se reunia no Bar Astoria para tomar cerveja e jogar Patr\u00e3o e Sotto.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>Chata aquela conversa em ambos discorriam sobre sindicatos e sindicalistas, rela\u00e7\u00f5es patr\u00e3o e empregados, opressores e oprimidos, consci\u00eancia de classe, greves e organiza\u00e7\u00e3o dos trabalhadores, movimentos sociais, manifesta\u00e7\u00f5es populares por justi\u00e7a social &#8211; enfim, coisas que me eram absolutamente distantes e desconhecidas.<\/p>\n\n\n\n<p>Talvez por isso s\u00f3 me lembre hoje que, a cada di\u00e1logo mais efusivo, a cada impasse e discord\u00e2ncia que surgiam na conversa, o Sr. Irineu sacava o seu c\u00e1lido e definitivo bord\u00e3o:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEspera-se uma revolu\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>A certa altura do papo, os amigos, desconfio, davam como esgotada a pauta das contradi\u00e7\u00f5es do dia.<\/p>\n\n\n\n<p>O v\u00f4 Carlito tirava do bolso do palet\u00f3 a carteira de cigarros ovalados Fulgor, oferecia um para o Sr. Irineu, pegava o dele e acendia cuidadosamente com seus isqueiro de prata.<\/p>\n\n\n\n<p>Em seguida, dava as primeiras baforadas, com o inef\u00e1vel ar de quem sabe das coisas, mas n\u00e3o tem como, nem por onde agir.<\/p>\n\n\n\n<p>Por sua vez, o Sr. Irineu fazia o mesmo com o cigarro. Despedia-se do v\u00f4 e de mim. N\u00e3o sem antes perscrutar mais uma vez:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEspera-se uma revolu\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cAguardemos. Aguardemos\u201d &#8211; dizia o v\u00f4.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Meus olhos de menino, por alguns momentos, acompanhava a silhueta do Sr. Irineu a caminhar pela rua do Lavap\u00e9s, a passos lentos, a exalar fuma\u00e7a e s\u00faplicas existenciais.<\/p>\n\n\n\n<p>Era, ent\u00e3o, a minha vez de murmurar enigm\u00e1tico:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEspera-se uma revolu\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>MEM\u00d3RIA &#8211; Arthur Moreira Lima<\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<iframe loading=\"lazy\" title=\"Maestro Arthur Moreira Lima | Despedida de uma lenda da M\u00fasica | 30 OUT 2024\" width=\"800\" height=\"450\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/9F7DpUW6jPU?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe>\n<\/div><figcaption class=\"wp-element-caption\">&#8230;<\/figcaption><\/figure>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><em>Foto: Arquivo Pessoal<\/em><\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Assim dizia repetidamente, a troco de nada, aquele senhor que, l\u00e1 pelos idos dos anos 50. perambulava pelas ruas do bairro oper\u00e1rio do Cambuci,<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":32811,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[2476,4164,151,264,135,815,4162,4163,4161,1824,2461],"class_list":["post-32805","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-blog","tag-arthur","tag-arthur-moreira-lima","tag-brasil","tag-cambuci","tag-memoria","tag-politica","tag-revolucao","tag-rua-lavapes","tag-sr-irineu","tag-tchinim","tag-vo-carlito"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/32805","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=32805"}],"version-history":[{"count":9,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/32805\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":32817,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/32805\/revisions\/32817"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media\/32811"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=32805"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=32805"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=32805"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}