{"id":33010,"date":"2022-03-16T06:00:00","date_gmt":"2022-03-16T06:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/?p=33010"},"modified":"2024-11-20T14:59:48","modified_gmt":"2024-11-20T14:59:48","slug":"lembrancas-do-vo-carlito","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/lembrancas-do-vo-carlito\/","title":{"rendered":"Lembran\u00e7as do v\u00f4 Carlito"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Foto: Largo do Cambuci, anos 50? Arquivo da Secretaria Municipal de Cultura\/Divulga\u00e7\u00e3o<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Vou lhes falar do v\u00f4 Carlito&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Porque, desconfio, foi ele quem, pela primeira vez, me falou sobre a estupidez de todas as guerras.<\/p>\n\n\n\n<p>Meados dos anos 50. Ainda vivia-se o assombro dos estragos causados pela Segunda Grande Guerra.<\/p>\n\n\n\n<p>Vez ou outra, as conversas entre os adultos giravam em torno do sofrimento do povo italiano sob dom\u00ednio do nazifascismo, da invas\u00e3o das tropas alem\u00e3es e da sofrida resist\u00eancia de uma gente festeira habituada a sorrir e a cantar.<\/p>\n\n\n\n<p>De uma hora para outra, se viram subjugados pelo inimigo, ref\u00e9ns dos bombardeios e das condi\u00e7\u00f5es subumanas que todo conflito armado imp\u00f5e.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; \u00c8 una disgrazia!<\/p>\n\n\n\n<p>&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Humilhados em sua pr\u00f3pria terra, sujeitos a todos os tipos de atrocidades impostas pelos dominadores, ou eles lutavam ou&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Ou morriam, v\u00f4?<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; As pessoas sofriam muito, Tchinim.<\/p>\n\n\n\n<p>Por isso, sem alternativa, preferiam lutar e lutar&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; A vida, Tchinim, \u00e9 uma ben\u00e7\u00e3o, um dom&#8230; Mas, temos que fazer por merec\u00ea-la.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>O v\u00f4 Carlito acreditava piamente que os homens se envergonhavam de toda aquela trag\u00e9dia.<\/p>\n\n\n\n<p>E que eu e os da minha gera\u00e7\u00e3o n\u00e3o viver\u00edamos atrocidades semelhantes.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Imposs\u00edvel a Humanidade n\u00e3o ter aprendido essa triste li\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Meados dos anos 50, como eu disse.<\/p>\n\n\n\n<p>Viv\u00edamos um tempo de reconstru\u00e7\u00e3o. O esplendor dos filmes de Hollywood, a Era do R\u00e1dio por aqui a embalar sonhos e romances, o fulgor do in\u00edcio do governo JK, o pujante lema &#8216;Brasil, o Pa\u00eds do Futuro&#8217;&#8230;.<\/p>\n\n\n\n<p>Tudo levava a crer que o novo tempo seria pautado pela fraternidade e a esperan\u00e7a de dias melhores.<\/p>\n\n\n\n<p>Para todas as na\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Somos todos irm\u00e3os.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>O chapeleiro aposentado Carlito, da janela da casa humilde na rua do Lavap\u00e9s, acompanhava atento o ir-e-vir dos bondes e das tecel\u00e3s das f\u00e1bricas no arredores. Olhava o movimento, cigarro Fulgor no canto da boca e o copo de vinho ao alcance da m\u00e3o. Fala mansa a lembrar uma ou outra hist\u00f3ria dos pais napolitanos, a coragem dos <em>scugnizzi<\/em> na liberta\u00e7\u00e3o de N\u00e1poles dos comandos inimigos e a embalar o neto-ca\u00e7ula com os versos cantados de <em>Luar do Sert\u00e3o<\/em>&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; A vida, Tchinim, \u00e9 uma ben\u00e7\u00e3o, um dom&#8230; Mas, temos que fazer por merec\u00ea-la.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><em>Foto: Largo do Cambuci, anos 50? 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