{"id":35133,"date":"2025-08-29T06:00:00","date_gmt":"2025-08-29T06:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/?p=35133"},"modified":"2025-08-29T13:59:47","modified_gmt":"2025-08-29T13:59:47","slug":"o-livro-de-quintana-e-a-aula-de-oratoria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/o-livro-de-quintana-e-a-aula-de-oratoria\/","title":{"rendered":"O livro de Quintana e a aula de Orat\u00f3ria"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Foto: Arquivo Pessoal<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Tinha 22 para 23 anos.<\/p>\n\n\n\n<p>Era auxiliar de dire\u00e7\u00e3o do Grupo Escolar Jardim Moreira.<\/p>\n\n\n\n<p>Pela manh\u00e3, estudava no curso de jornalismo da ECA\/USP.<\/p>\n\n\n\n<p>Batia, com algum cansa\u00e7o, que ningu\u00e9m \u00e9 de ferro, oito coletivos por dia.<\/p>\n\n\n\n<p>Logo pela manh\u00e3, seguia do Ipiranga ao bairro de Pinheiros, de Pinheiros \u00e0 Cidade Universit\u00e1ria &#8211; ida e volta (4 \u00f4nibus).<\/p>\n\n\n\n<p>Almo\u00e7ava em casa (que a grana era curta).<\/p>\n\n\n\n<p>Sa\u00eda \u00e0s presas para a outra jornada. Do Ipiranga ao Jardim da Luz. Depois de atravessar o parque, esperava-me outro bus\u00e3o at\u00e9 a periferia de Guarulhos, no bairro do Jardim Moreira. Ida e volta (mais 4).<\/p>\n\n\n\n<p>Foi minha rotina por ano e tanto.<\/p>\n\n\n\n<p>Era brabo?<\/p>\n\n\n\n<p>Talvez fosse, mas aos vinte anos, o corpo aguenta bem a essas e outras perip\u00e9cias.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Lembro o meu corre naqueles idos a partir de um livro sobre a vida e obra do poeta ga\u00facho M\u00e1rio Quintana (1906\/1994) que encontro num sebo perto e casa.<\/p>\n\n\n\n<p>Quintana \u00e9 admir\u00e1vel &#8211; e, digamos, que sempre me inspirou.<\/p>\n\n\n\n<p>Pela bagatela de 10 reais, levo para casa &#8220;M\u00e1rio Quintana, vida e obra&#8221;, organizado por N\u00e9lson Fachinelli, publicado em 1976, no estado natal do poeta e do organizador, o Rio Grande do Sul. O livro tem apresenta\u00e7\u00e3o de \u00c9rico Ver\u00edssimo, participa\u00e7\u00e3o de v\u00e1rios autores-admiradores da obra de Quintana que, naquela data, completava 70 anos de vida e poesia.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>O exemplar pertenceu originalmente, creio, a Lu\u00edza Ap. S. de Lima que, caprichosa, fez quest\u00e3o de deixar sua assinatura logo na primeira p\u00e1gina.<\/p>\n\n\n\n<p>Fico a imaginar quais os caminhos que o livro, com p\u00e1ginas amarelecidas pelo tempo, tomou at\u00e9 chegar  a um pequeno sebo nos confins de S\u00e3o Bernardo do Campo.<\/p>\n\n\n\n<p>Enfrentou um p\u00e9riplo de condu\u00e7\u00f5es, como eu?<\/p>\n\n\n\n<p>Ou n\u00e3o?<\/p>\n\n\n\n<p>Veio de boa ou sob os curiosos olhares da sua, imagino, primeira dona?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>Enfim, e a prop\u00f3sito&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>o que tem a ver meu tempo de professor auxiliar de dire\u00e7\u00e3o numa escola de Guarulhos e o livro de Quintana?<\/p>\n\n\n\n<p>Explico a mem\u00f3ria, amigos leitores.<\/p>\n\n\n\n<p>Tem um poema que se chama <em><strong>O Caminho<\/strong><\/em> que me fazia resignada companhia nas jornadas daquele come\u00e7o dos anos 70.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu o sabia de cor &#8211; e o reencontro agora \u00e0s p\u00e1ginas tantas do livreto.<\/p>\n\n\n\n<p>Diz o poeta: <\/p>\n\n\n\n<p><em>Passa o Rei com seu cortejo.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Passa o Deus com seu andor.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>E mil\u00eanios depois, neste caminho, apenas<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ainda sopra o vento nas macieiras em flor.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, h\u00e1 outro motivo. Outra lembran\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Um pecadilho meu, confesso.<\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o, podem sentar, por favor, que&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p> &#8230; l\u00e1 vem hist\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>O professor Luiz, da disciplina de L\u00edngua Portuguesa, l\u00e1 no Jardim Moreira, prop\u00f4s aos alunos que se dividissem em grupos e preparassem uma poesia para declamar na frente de toda classe.<\/p>\n\n\n\n<p>Seria um jogral. Ou quase isso.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Os alunos estranharam. N\u00e3o era propriamente a especialidade de nenhum deles.<\/p>\n\n\n\n<p>Ficaram ansiosos, preocupados.<\/p>\n\n\n\n<p>Foram me procurar na dire\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Como eu poderia ajud\u00e1-los. Achavam-se pr\u00f3ximos a mim, talvez pela minha pouca idade, n\u00e3o sei.<\/p>\n\n\n\n<p>Sei que, no dia seguinte, levei para eles uma antologia de M\u00e1rio Quintana, repleta de poemas de versos curtos, singelos, contundentes.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>Deixei por conta deles a escolha.<\/p>\n\n\n\n<p>Dias depois, soube que a aula de Orat\u00f3ria do prof. Luiz transformou-se em requintado festival a reverenciar a poesia de M\u00e1rio Quintana.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi o que ouvi do pr\u00f3prio prof. Luiz, algo surpreso, ao relatar a experi\u00eancia a seus pares na Sala dos Professores.<\/p>\n\n\n\n<p>Estava indeciso. Ele n\u00e3o sabia como avaliar os grupos que se apresentaram, com poemas curtos.<\/p>\n\n\n\n<p>Tipo:<\/p>\n\n\n\n<p><em>Dai-me a alegria<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Do poema nosso de cada dia.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>Algu\u00e9m comentou que ele, professor, deveria selecionar poesias de longos versos, v\u00e1rias escolas liter\u00e1rias e autores diversos, a serem apresentadas \u2013 e sorte\u00e1-las entre os alunos.<\/p>\n\n\n\n<p>Come\u00e7ou um debate entre os professores. Uns, a favor. Outros, contra a ideia.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cPoesia \u00e9 sentimento\u201d, disse uma professora. \u201cN\u00e3o d\u00e1 para impor a quem quer que seja.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cMas, que houve sabotagem da minha aula de Orat\u00f3ria, houve. Mas, quem faria isso?\u201d &#8211; perguntou o professor algo desconfiado.<\/p>\n\n\n\n<p>Preferi sair \u00e0 francesa, discretamente.<\/p>\n\n\n\n<p>A disfar\u00e7ar minha sincera cumplicidade.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>TRILHA SONORA<\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-4-3 wp-has-aspect-ratio\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<iframe loading=\"lazy\" title=\"O caderninho - Luiz Melodia - Ao vivo convida\" width=\"800\" height=\"600\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/Re5jrXjIe4E?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe>\n<\/div><\/figure>\n\n\n\n<p>&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><em>Foto: Arquivo Pessoal<\/em><\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Tinha 22 para 23 anos.<\/p>\n<p>Era auxiliar de dire\u00e7\u00e3o do Grupo Escolar Jardim Moreira.<\/p>\n<p>Pela manh\u00e3, estudava no curso de jornalismo da ECA\/USP.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":35134,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[2038,4928,4927,513,4929,1782,4926,108,515],"class_list":["post-35133","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-blog","tag-grupo-escolar","tag-guarulhos","tag-jardim-moreira","tag-mario-quintana","tag-nelson-fachinelli","tag-o-caminho","tag-onibus","tag-poema","tag-poesia"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/35133","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=35133"}],"version-history":[{"count":9,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/35133\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":35148,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/35133\/revisions\/35148"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media\/35134"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=35133"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=35133"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=35133"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}