{"id":35471,"date":"2025-10-08T15:08:42","date_gmt":"2025-10-08T15:08:42","guid":{"rendered":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/?p=35471"},"modified":"2025-10-08T17:05:42","modified_gmt":"2025-10-08T17:05:42","slug":"tempos-estranhos-e-o-rap-do-nasci","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/tempos-estranhos-e-o-rap-do-nasci\/","title":{"rendered":"Tempos estranhos&#8230; E o Rap do Nasci"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Ilustra\u00e7\u00e3o: reprodu\u00e7\u00e3o da capa do livro do cronista Paulo Mendes Campos<\/em>\/<em>Arquivo <\/em><\/p>\n\n\n\n<p>&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cVivemos tempos de estranhos fatos e estranhas pessoas.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Escreve-me o jornalista e professor Jorge Tarquini a prop\u00f3sito do post\/cr\u00f4nica de ontem &#8211; <strong><a href=\"https:\/\/www.rodolfomartino.com.br\/blog\/a-insensata-declaracao-do-governador\/\">\u201cA insensata declara\u00e7\u00e3o do governador\u201d.<\/a><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Foi o que bastou para que eu voltasse no tempo e fizesse uma pausa numa das tardes que se perdeu nos rodamoinhos do tempo. \u00d3bvio que me revejo na Velha Reda\u00e7\u00e3o de piso assoalhado e grandes janel\u00f5es para a rua Bom Pastor e rodeado daquela horda de amigos e malacabados como eu.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Eu voltara, digamos que entusiasmado, da entrevista com o cantor\/compositor Walter Franco (1945-2019), digno representante da ent\u00e3o Vanguarda Maldita da MPB, que acabara de lan\u00e7ar o \u00e1lbum <em>Revolver<\/em> (que \u00e0 \u00e9poca eu, com pose de cr\u00edtico musical, classifiquei como recheado de \u201cfinas especiarias\u201d).<\/p>\n\n\n\n<p>Franco era um autor minimalista, de letras breves e versos inusuais. Era o festejado autor da experimental \u2018Cabe\u00e7a\u2019 que literalmente implodiu o FIC de 1972 e causou um grande au\u00ea junto \u00e0 <em>intelligentsia <\/em>nativa. (O j\u00fari queria lhe dar o pr\u00eamio m\u00e1ximo, mas foi destitu\u00eddo pela Globo, orgnizadora do evento, para atender, dizem, a press\u00e3o dos censores de plant\u00e3o (que n\u00e3o entendiam o enigma dos impolutos versos \u2018Que \u00e9 que voc\u00ea tem nessa cabe\u00e7a, irm\u00e3o\/Cabe\u00e7a pode\/Cabe\u00e7a explode\/Ou n\u00e3o?).<\/p>\n\n\n\n<p>&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Pois bem.<\/p>\n\n\n\n<p>Eram essas as refer\u00eancias que tinham dele meus colegas da Reda\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Na reuni\u00e3o de fechamento da edi\u00e7\u00e3o do dia, tentei cavar um espa\u00e7o na primeira p\u00e1gina para dar bom destaque \u00e0 leitura da reportagem que viria \u00e0s tantas em uma das p\u00e1ginas internas do jornal.<\/p>\n\n\n\n<p>Os gaiatos de plant\u00e3o receberam, c\u00famplices e desconfiados, minha argumenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Percebi a cilada.<\/p>\n\n\n\n<p>Pediram para olhar a capa do disco (Uma alegoria em tom verde \u00e0 capa do \u00e1lbum Abbey Road, com Franco, todo de branco, \u00e0 la John Lennon, puxando uma suposta fila de outros tantos disc\u00edpulos dos Beatles), folhearam o encarte com as letras das can\u00e7\u00f5es. Destacaram que uma delas tinha a tonitruante letra de uma s\u00f3 frase (\u201cO sorriso do cachorro\/ t\u00e1 no rabo\u201d) que se repetia e repetia em espiral sonora \u2013 e, por fim, deram o veredito em tom de provoca\u00e7\u00e3o: <\/p>\n\n\n\n<p>\u201cNada de primeira p\u00e1gina\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Inevit\u00e1vel o deboche dos amigos. Diziam achar tudo muito estranho naquele artefato de vinil. <\/p>\n\n\n\n<p>Eu, que bem os conhecia, fiquei na minha. <\/p>\n\n\n\n<p>Seguimos a reni\u00e3o. <\/p>\n\n\n\n<p>Passamos para outros assuntos e, ao final dos trabalhos, o Nasci, o mestre de todos n\u00f3s e gozador por natureza, anunciou que ele tamb\u00e9m era compositor de vanguarda. N\u00e3o, era &#8216;maldito&#8217;, mas era &#8216;vanguarda&#8217;, garantiu.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Novidade!<\/p>\n\n\n\n<p>Acabara de compor uma can\u00e7\u00e3o \u00e0 moda do Walter Franco, inspirada &#8211; disse ele &#8211; num dos personagens que frenquentavam \u00e0 Reda\u00e7\u00e3o que se dizia poeta (queria a todo custo ver os pr\u00f3prios versos publicados no jornal em cap\u00edtulos semanais). Seria oportuno,  pretendia se candidatar a deputado estadual. (Na verdade, o amigo era gerente de banco, prestes a se aposentar).<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Querem ouvir?&#8221;, perguntou o Nasci.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>E se p\u00f4s a batucar ritmicamente, punho fechado a esmurrar o tampo da mesa de madeira (naquele tempo, os jornalistas trabalhavam em mesas pr\u00f3prias e n\u00e3o em bancadas e puxadinhos, todos aglomerados) e cantar repetidamente o mesmo verso:<\/p>\n\n\n\n<p><em>\u201cAs pessoas s\u00e3o estranhas<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>T\u00e3o estranhas<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Muito estranhas\u201d.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Rimos muito e aplaudimos (eu, inclusive) a criatividade do amigo.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Por fim, ganhei uma boa chamada na primeira p\u00e1gina para a entrevista.<\/p>\n\n\n\n<p>E o \u201cRap do Nasci\u201d passou a ser o nosso bord\u00e3o para tantas e tamanhas situa\u00e7\u00f5es, \u00e0 primeira vista, incompreens\u00edveis e estranhas que se apresentavam diante n\u00f3s.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;As pessoas s\u00e3o estranhas\/t\u00e3o estranhas\/muito estranhas&#8221;&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>TRILHA SONORA<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O \u00e1lbum<strong> Revolver<\/strong> completa 50 anos.<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje, \u00e9 um disco considerado precioso para os colecionadores e cultores da nossa m\u00fasica popular.<\/p>\n\n\n\n<p>Tenho grand\u00edssima admira\u00e7\u00e3o pelo obra de Walter Franco.<\/p>\n\n\n\n<p>Recentemente escrevi sobre:<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/www.rodolfomartino.com.br\/blog\/walter-franco-80-anos\/\"><strong>Walter Franco, 80 anos<\/strong><\/a> <\/p>\n\n\n\n<p>Para hoje escolhi a can\u00e7\u00e3o M\u00e3e D&#8217;\u00c1gua. \u00c9 uma das minhas preferidas pelo lirismo e encaminhamento que d\u00e1 \u00e0s plavras. Ou\u00e7am!<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-4-3 wp-has-aspect-ratio\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<iframe loading=\"lazy\" title=\"Walter Franco - Mam\u00e3e D&#039;\u00e1gua\" width=\"800\" height=\"600\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/1P13rtcrFjU?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe>\n<\/div><\/figure>\n\n\n\n<p>&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><em>Ilustra\u00e7\u00e3o: reprodu\u00e7\u00e3o da capa do livro do cronista Paulo Mendes Campos<\/em>\/<em>Arquivo <\/em><\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>\u201cVivemos tempos de estranhos fatos e estranhas pessoas.\u201d<\/p>\n<p>Escreve-me o jornalista e professor Jorge Tarquini a prop\u00f3sito do post\/cr\u00f4nica de ontem &#8211;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":18229,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[538,3258,1419,215,5046,5045,2828,132,795],"class_list":["post-35471","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-blog","tag-50-anos","tag-cabeca","tag-jorge-tarquini","tag-nasci","tag-penduricalhos","tag-reportagem-do-uol","tag-revolver","tag-velha-redacao","tag-walter-franco"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/35471","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=35471"}],"version-history":[{"count":7,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/35471\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":35479,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/35471\/revisions\/35479"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media\/18229"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=35471"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=35471"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=35471"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}