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Título: A moça, o anjo e a paz
Autor: Rodolfo C. Martino - publicado em 11/10/2001
 

"Todos vivemos sob o mesmo céu, mas nem todos vêem o mesmo horizonte" (Konrad Adenauer)

A guerra é inevitável. Manhã de domingo. Parque da Aclimação. A moça, com trajes que vagamente lembravam os hippies dos anos 70, certamente não sabia dos bombardeios anglo-americanos no Afganistão. Mas, revelava-se descrente quanto ao futuro desse planeta azul chamado Terra... Assim como eu e muitos outros, ela se impressionou com a performance do artista Azerutan que, aos olhos de um público incrédulo e silencioso, transformara-se numa estátua-viva em pleno campo de futebol da Aclimação. A promoção, embora realizada com atraso, saudava a chegada da primavera com a mostra "Arte de Rua".

O cálido anjo também não devia estar informado sobre os ataques. Estava sereno, impávido. Trazia nas mãos, que pareciam esculpidas em gesso, um cartaz com a palavra Paz. Era o desejo sincero de mais este brasileiro que escolheu como profissão de fé o sinuoso caminho de uma arte que ainda não tem o reconhecimento do público. Mas, que a todos impressiona e faz pensar... Usei o anjo como inspiração e disse à jovem que a paz está no coração dos homens. Mais dia, menos dia, vingará em todos os confins do Planeta.

Há uma longa caminhada até chegarmos a esse estado ideal. Mas, acredito nele, apressou-se em responder a moça. E continuou: -- Todos querem a paz. Mas, por enquanto, desde que não interfira no interesse e privilégios de uma casta de poderosos que é capaz de tudo para se manter onde chegou. -- Tem razão. Há muita miséria no mundo, falei instantaneamente. -- Pois é. Enquanto permanecer essa situação, ninguém será inteiramente feliz. Ninguém mais viverá em segurança... -- Assim você parece justificar o ataque às torres e toda aquela mortandade, chamei-lhe atenção. Mas, não era preciso... -- Em hipótese alguma, apressou-se em dizer a moça. -- Toda a forma de terror é um ato de covardia, e injustificável. Mas, temo pelo pior... -- Como assim? -- Seja lá quem for que fez aquela atrocidade sabia que estava dando início a um conflito de proporções inimagináveis. É muito provável que tenha se preparado anos a fio para o enfrentamento que acontecerá a partir daí e sei lá aonde vai nos levar...

Entendi a preocupação da moça. Desde o desmantelamento do império soviético, desapareceram um considerável número de ogivas nucleares e outras armas igualmente incontroláveis. Ainda hoje ninguém se deu conta nas mãos de quem foram parar. Contei isso a ela que pareceu não se surpreender. Antes de ir embora lembrou Mahatma Ghandi num alerta talvez tardio: a política do olho por olho faz com que todos terminem cegos. Olhei outra vez a estátua-viva e admirei a força do artista e daqueles que, como a hiponguinha de roupas bordadas, acreditam na paz e, mesmo que silenciosamente, lutam por um mundo melhor. Ah!, não tive coragem de lhe dizer que os americanos haviam mordido a isca. Bombardeavam Cabul e outras cidades afegãs. Ela tinha razão: a guerra terá projeção mundial...

 
 
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