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Título: A solidariedade na cidade quatrocentona
Autor: Rodolfo C. Martino - publicado em 21/01/2000
 

"Com o punho fechado, não se pode trocar um aperto de mão" (Indira Ghandi)

01. A ex-terra da garoa, a nossa São Paulo do Padre Anchieta, completa 446 anos na terça, dia 25, com aquele cerimonial de sempre: festas protocolares, shows esparsos em parques, mostras de fotografias e cousa e lousa. O trivial bem temperado das comemorações, no entanto, não consegue esconder as tragédias da megalópole de 15 milhões de habitantes que ainda cresce desordenadamente em todas as direções, abriga ainda a todos que a procuram e ainda é apontada como exemplo de cidade violenta, agressiva, inóspita...

02. Repeti propositalmente o advérbio ainda, que revela um tempo que é, mas já se faz tardio, porque, me parece, tem muito a ver com o dia-a-dia de Sampa, como o baiano Caetano Veloso a chamou numa de suas mais tocantes canções. Não sei se você, caro leitor, já reparou, mas o passar do tempo aqui, no Planalto de Piratininga, é ora arrastado, ora precipita-se com a força do imponderável diante de nós...

03. Domar o tempo, eis o desafio que SP propõe. Fazer do tempo um aliado dos nossos sonhos, das nossas lutas. Das conquistas que a cidade generosa, mais dia, menos dia, oferece a quem cedo madruga e vai à lida. É praxe dizer que o paulistano está sempre atrasado. Corre, não sabe para aonde. Trabalha, não vive. E, muitas vezes, roda, roda para chegar ao mesmo lugar, especialmente em dias de enchentes e congestionamentos. Transtornos não faltam à cidade; mas, em compensação, há uma farta porção de solidariedade na gente paulistana que ainda sonha em mudar a cara do mundo...

04. E, para tanto, não tenho dúvidas, vai lançar mão desse sentimento de irmandade, palavra bonita, que induz a gestos nobres. Gestos que proliferaram, nesta semana, a partir da notícia de que o jogador Narciso, do Santos, é portador de leucemia e agora tem pela frente um jogo muito mais importante: o jogo pela vida. A exemplo de um outro e agora longínquo 19 de janeiro (quando morreu Elis Regina em 1981), neste também o paulistano ficou prostrado ao saber do desafio que o jovem atleta de 26 anos tem pela frente. E por fax, carta, e-mail. Em correntes de orações, pensamentos positivos e manifestação de apreço. De todas as formas, o paulistano vem expressando sua mais ampla e irrestrita solidariedade.

05. Ao clube, chegaram propostas de nada menos que 200 doadores. Voluntariamente, sem querer nada em troca, gostariam de amenizar a dor do atleta que tem mostrado uma notável grandeza como ser humano. Ele próprio fez questão de esclarecer aos companheiros de clube sobre a doença, pediu que ninguém se abatesse por ele e que, cada vitória do Santos, comemoraria como uma vitória pessoal. Em sua única manifestação à Imprensa, foi categórico: daqui para frente, a prioridade é minha saúde. Não estou preocupado com o meu futuro no futebol.

06. O paulistano que sofre com as chuvas, o desemprego, os congestionamentos, a violência das ruas, a inépcia das autoridades... Esse mesmo paulistano não perde a esperança e se orgulha de ainda estar na luta. É a determinação de quem sabe que está construindo a própria história e a história de seu tempo. É a gana, é a raça, é a vontade de vencer que Narciso sempre demonstrou em campo e que agora, torcemos todos, continue a ter para virar esse jogo. Jogo que ainda não tem um placar definitivo, nem um tempo regulamentar...

07. Nesta hora, vale lembrar outros tantos narcisos anônimos que também precisam de um gesto de solidariedade. Ao que consta, 900 brasileiros aguardam doadores na fila dos transplantes. Esperam a chance de ainda ter um tempo que ora é arrastado, mas que pode se fazer célere, para voltar a viver e a sonhar...

 
 
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