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Título: Na Abadia de São Victor...
Autor: Rodolfo C. Martino - publicado em 25/01/2013
 

O silêncio da Abadia de São Victor, um dos pontos de peregrinação (e turismo) de Marselha, era quebrado, de minuto em minuto, pelos gemidos e reclamos de um senhor que se ajoelhara em um dos bancos em frente ao altar-mor.

Ao mesmo tempo em que grunhia palavras inteligíveis, em um idioma desconhecido e, suponho, imaginário, estapeava o ar freneticamente, como se estivesse afastando alguém que o molestava duramente.

Era visível a aflição do homem de porte longilíneo, de rosto sofrido, com a barba a lhe roçar o peito.

Na penumbra do santuário, não dava para ter certeza quem era ele. Um turista, como a maior parte das pessoas que ali estava? Um peregrino? Um mendigo? Um desvalido, desses que andam por aí sem ter aonde chegar?

Fosse o que fosse, a cena perturbava a calma do lugar.

II.

Os visitantes, turistas ou não, olhavam para ele com um naco de temor e outro tanto de cômoda indiferença.

A Abadia de São Victor, situada em uma colina com vista para o sereno mar Mediterrâneo, tem como ponto alto das visitações a cripta onde, presume-se, repousam os espólios dos santos mártires – Victor, Lázaro e Maria Madalena. Não há comprovação científica da autenticidade de tais relíquias. Foi a peregrinação dos fiéis, ao longo dos séculos, que dá sustentação à memória e ao culto dos santos.

A Igreja, como instituição, não confirma, nem autentica. Mas, não teve (e não tem) como impedir mais esta manifestação de fé.

III.

Não sei se quem estava ali, naqueles momentos, conhecia essa história. Sei que a tal solidariedade e ajuda fraterna passavam andavam distantes. Passava ao largo de qualquer valor cristão e/ou humanitário que a Igreja promove e recomenda.

Não me eximo de culpa.

Quando vou a uma igreja, seja aqui ou em viagens, busco instantes de paz e conforto, espaços que são cada vez mais raros em nossa fatigada vida cotidiana.

A aflição do homem me incomodava. Confesso, porém, que em nenhum momento pensei em me inteirar melhor do que estava acontecendo. Não passou pela minha cabeça e, pelo que pude perceber, de ninguém ali presente.


IV.

Ninguém virgula.

Um casal de motociclistas – digo motociclistas, pois ambos traziam um capacete enfiado em um dos braços, como se fosse uma desproporcional pulseira – interrompeu o périplo pelo santuário ao perceber a cena.

O homem dirigiu-se, então, em passos firmes ao lugar onde estava o sofredor. A mulher permaneceu a certa distância, com pequeno rosário entre os dedos de uma das mãos.

Ao se aproximar, ele estendeu o braço direito e tocou levemente o alto da cabeça do outro que, segundos depois, se aquietou, como por encanto.

Ficaram assim por minutos.

Como se um abençoasse o outro.

Como se unissem em um único leve sussurrar suas mais sinceras orações.

Houve ali um pacto, creio.

Uma manifestação de fé e de amor ao próximo.

Uma brevíssima visão do Mistério.

V.

Sem qualquer outra palavra, o motociclista se afastou.

Tinha o semblante sereno de quem cumpre uma missão.

E assim, como se nada houvesse acontecido, continuou seu roteiro ao lado da companheira.

O templo voltou a ficar em silêncio.

Só era possível ouvir os passos dos visitantes e, vez ou outra, o espocar do flash de alguma máquina fotográfica.

VI.

Eu estava prestes a deixar a Abadia quando vi o homem – antes transtornado – levantar-se calmamente. Vestir o casaco de bom talho, aprumou a mochila nas costas, persignou-se diante do altar e saiu pleno de paz.

Podia ser qualquer um de nós, pensei.

E eu, que nem rezar direito sei, murmurei trecho do Sermão da Montanha (Matheus, V, 1-12):

“Bem aventurados os que choram, porque eles serão consolados...

“Bem aventurados os pacificadores, porque eles serão chamados Filhos de Deus...

“Bem aventurados os limpos de coração, porque eles verão a Deus...

 
 
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