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Título: Era uma vez...
Autor: Rodolfo C. Martino - publicado em 27/11/1998
 

01. Naquele país longínquo, tão longínquo que a memória sequer consegue registrar o nome, existia um soberano que, antes de assumir o trono, era tido e havido como um dedicado estudioso das carências e necessidades do povo.

02. O candidato a príncipe sempre teve bons amigos. Que, como ele, freqüentaram academias das Letras, Artes, Ciências e Números (intuíam algo...) e deram a volta ao mundo ensinando e aprendendo tudo o que de bom havia para ser ensinado e aprendido. Outro aspecto do ilustre personagem era a simpatia, o que colaborava para novas e inexplicáveis amizades, mesmo com aqueles que de antanho não concordavam com suas teorias.

03. De posse de tantos galardões, não foi por outro motivo que o Tempo, que não pára no porto, não apita na curva e não espera ninguém, resolveu chamar o Destino para tirar do sufoco a simpática aldeia, aquela mesma longínqua, pra lá de não sei onde. Se havia tamanha reserva de moral e idoneidade, por que não deixá-lo conduzir o reino rumo ao grande destino? O Destino, ele próprio, não gostou da referência ao seu nome. Achou que o Tempo estava se precipitando e precipitações do Tempo quase sempre complicam a vida dos aldeões. Argumentou que talvez o candidato a príncipe e os seus vivessem em outro mundo, em outro tempo (Aí foi a vez do Tempo fazer cara feia. E olha que tempo feio não convence ninguém). De nada adiantaram as ponderações do Destino. O Tempo e os aldeões precipitaram-se e fizeram o homem soberano, com plenos poderes. Mas, só por algum tempo, a título de teste, digamos assim. Ele merecia uma chance. E toda corte comemorou como só os cortesãos sabem comemorar e bajular. Enfim, todos (eles) viveriam melhor...

04. O novo mandatário começou a governar viajando para reinos mais desenvolvidos. Seu objetivo era divulgar que, enfim, o Reino de Não Sei Onde, mesmo distante, tinha um soberano da mais fina estirpe. Sempre sorridente, sabia que as coisas não andavam bem. Mas, preferia falar em dentaduras e eletrodomésticos, prêmios no Exterior e que sua cozinheira podia, graças as suas conquistas e realizações, viajar para a Europa.

05. Aliás, era a obsessão. De tanto cultuar o estrangeiro, acabou abrindo portas, porteiras e portos para toda espécie de badulaque que vinha de fora. Dizimou as reservas industriais da aldeia. E, na mesma proporção, o desemprego espalhou-se em índices e conseqüências implacáveis. Entre um tríduo momesco e um torneio de ludopédio entre reinos, quando toda a aldeia ficava eufórica, convenceu o Tempo a lhe dar mais tempo para terminar o que nem havia começado. O Tempo condescendeu... O Destino achou que não era por aí. Os aldeões nem perceberam o logro. Chegaram a vice-campeões inter-reinos de ludopédio. E isso, sim, era uma afronta de parar o País, quer dizer a aldeia, aquela tão distante que nem nome tem.

06. Mal começou o segundo mandato, revelou planos mirabolantes de
amplitude social além das tais mudanças gerais. Os mais sensatos desconfiaram de que ele já havia prometido isso antes. Mas, agora diante de uma crise planetária, que já derrubara outros reinos tão distantes quanto, teria que agir com rigores emergenciais.

07. Estava decidido, passaria para mão de mercadores internacionais alguns dos patrimônios do Reino de Não Sei Onde. Assim iriam a leilão a Usiminas do Rei Salomão, o Jardim Supremo da TeleBabilônia, as Pirâmides Elétricas (ótimas para exploração de temas esotéricos), as Muralhas da Conchinchina que separam o Nada do Lugar Nenhum, todos tombados e requebrados pelo Condephaat lá deles... Com essa transação, o Reino já teria por onde e faturaria o que não estava escrito, lavrado e sacramentado. Tudo em nome do povo...

08. Para gerir tais negócios, uma plêiade de amigos do poderoso. Experts em números e índices (lembra?) e bons lucros à vista. Ou a prazo... O negócio era arrumar grana... Ah! também eram proprietários com familiares próximos de corretores que poderiam intermediar o leilão. E influir e refluir...

09. Esses hábeis senhores, querendo insuflar as negociações, puseram-se a trocar papiros repletos de meias verdades e insinuações que os escribas ficaram com calo no dedo de tanto escrever... Havia palavras, como direi, suspeitas e até a possibilidade de favorecimento deste ou daquele interessado ou de todos os envolvidos. E dá-lhe papiros. Tantos que se acumularam uns sobre os outros...

10. Um vacilo do Tempo e o Destino interviu. Fez soprar um pé de vento que espalhou as anotações por todo o Reino. E foi uma aberração. Todos souberam de tudo, ou quase tudo... O soberano considerou um absurdo. Chamou oficiais da guarda e, indignado, deu ordens explícitas de... prender os culpados. Ou seja, o vento e todas suas corruptelas, inclusive o irresponsável pé que jogou pelos ares tanto trabalho...

11. Diante do descalabro, Destino e Tempo concordaram. Só que já não havia mais tempo. Nem dava para corrigir o destino da triste aldeia feliz, cada vez mais distante do resto do mundo.

 
 
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