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Título: Na trilha do bom combate
Autor: Rodolfo C. Martino - publicado em 20/12/2002
 

"E a Palavra se fez carne e veio morar no meio de nós" (Evangelho segundo João 1,14)

01. Ele não sabia como explicar aquele velho hábito de visitar igrejas diariamente. Mas, era rigoroso no cumprimento do ritual. Na verdade, ficava ali por dez, quinze minutos a balbuciar baixinho Pai-nosso e Ave-maria, a invocar esse ou aquele santo, a repetir mecanicamente jaculatórias que aprendeu no seu tempo de criança no colégio marista. Para jogar o futebol de domingo no campo de terra batida, vestindo o uniforme azul e branco do Colégio Nossa Senhora da Glória, os garotos eram "obrigados" a assistir à missa das oito, sob o olhar atento do venerando Irmão Justino.

02. Essas lembranças e outras tantas lhe povoavam a mente nesses momentos de rara serenidade. O pensamento se libertava das amarras do dia-a-dia e se punha a viajar por histórias e personagens impossíveis de surgir na lida de afazeres e compromissos. Como quem nada quer, remexia o imprevisível baú da memória, refletia sobre a vida e ponderava sobre futuros projetos. Acostumou-se assim a se preparar para o longo dia de trabalho. Era hora de pesar os prós e os contras, isso e aquilo, o quero ou não-quero constante que a vida nos cobra.

03. Em muitas ocasiões, imaginou-se como um destemido guerreiro moicano a auscultar o chão a fim de decifrar o enigmático futuro que lhe estava reservado. Era um bom homem. Por isso, assim como o anti-herói dos faroestes americanos, pensava nele próprio e, outras tantas vezes, no seu povo que estava sempre a espera desse tal novo tempo.

04. A cena tornou-se recorrente neste final de ano: o velho índio escolhe o lugar exato na infindável planície e ajoelha-se em absoluto silêncio. Encosta o ouvido ao chão para saber com exatidão o tamanho da encrenca que teria pela frente nos próximos dias. Invariavelmente essa encrenca era personificada pelo tropel dos cavalos de milhares de soldados cara-pálidas ou de uma caravana de aventureiros numa louca corrida atrás do ouro que ele nem sabia existir nas entranhas da terra que habitava.

05. Hoje as encrencas atendem por nomes mais enigmáticos como "Mercado", "Sistema", "Risco Brasil", "Especulação", sabe-se lá o que mais... Ele estava convicto de não possuir a sabedoria dos velhos pajés embora o grisalho dos cabelos lhe garantia uma certa experiência de vida e algum engenho na arte de dimensionar os passos que fazem o caminho.

06. Pois era isso. Exatamente isso que lhe preocupava no limiar do ano santo de 2003: seu povo, após anos de um embate desigual, recuperou a esperança, a auto-estima e o velho sonho de Justiça social. Está otimista na fé, mas sabe que terá duras batalhas pela frente. Ele não gostaria de vê-la andar para trás como aconteceu em episódios recentes de Collors, FHCs, planos econômicos, falsos milagres e outros desencantos. O que fazer?

07. Respirou fundo e fechou os olhos como a intuir o amanhã. A esperança e a fé venceram o medo. Que venha, pois, o novo ano e tantos desafios. E que Deus nos abençoe e nos inspire a combater o bom combate. Feliz Natal, caro leitor.

 
 
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