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Título: A novela, as crianças e a Igreja
Autor: Rodolfo C. Martino - publicado em 17/11/2000
 

"A sabedoria vem de escutar; de falar vem o arrependimento"

01. Ouvi algumas entrevistas do autor de Laços de Família, Manoel Carlos, experiente homem de rádio e TV. Ele lamentou a decisão da Justiça de proibir a participação de menores de idade, atuando como atores, na novela das oito da poderosa Rede Globo. Tal e qual o autor, outras tantas vozes bradaram sua indignação para tal medida, tida e havida por todos, como arbitrária. Manifestaram-se atores, os pais das crianças, jornalistas, a alta cúpula global, outros autores -- enfim, uma pá de gente importante que fez questão de enfatizar dois pontos. Primeiro: teríamos aí um renascimento da censura, que tanto molestou nossa arte e nossa cultura durante os 21 anos de Ditadura Militar. Segundo: Estado e Igreja Católica estariam veladamente juntos nessa ação; pois, há algumas semanas, a Igreja não disponibilizou nenhuma de suas paróquias no Rio de Janeiro para a gravação das cenas de um determinado casamento. A proibição se deu, segundo consta, porque a Igreja não concorda com alguns aspectos da trama, especialmente aos que tratam das cenas de violência, sexo e do dilaceramento da família.

02. As questões são complexas, e refletem o grau de amadurecimento da nossa democracia. Queiramos ou não, há muito o que andar nesse sentido. Uma coisa, porém, é bom que fique claro. Não vale a pena comparar essa medida judicial com a censura política, ideológica, obscurantista que tanto nos aborreceu nas décadas de 60 e 70. Tentar fazer essa associação é ingenuidade ou má-fé. Não há nada mais governista neste País do que a Rede Globo. É público e notório as regalias com que a emissora trata, em seus noticiários o reinado de FHC e os seus. Basta ver quantos (nenhum) segundos da programação global foram dedicados às denúncias de caixa dois na eleição de Fernando Henrique em 98...

03. Portanto é bom que a gente fique esperto. Se algo na novela -- ou em qualquer outro programa da TV brasileira -- incomodar ao governo, será tratado nos bastidores, entre as cúpulas governista e da emissora, e nós, pobres mortais, nem ficaremos sabendo. Ou só ficaremos sabendo depois de algum tempo. Um exemplo: na mesma eleição de 98, quando o candidato Luiz Inácio Lula da Silva chegou a um empate técnico com FHC nas pesquisas de intenção de votos, houve uma reunião em Brasília. Foi em junho e o estabelecido, entre governistas e representantes da mídia, é que não deveria haver segundo turno, portanto...

04. A questão da Igreja é bem mais simples. Assim como o autor tem o direito assegurado de escrever o que bem entender, o cardeal do Rio de Janeiro, Dom Eugênio Salles, tem o direito de concordar ou não com o recado que a atração global está passando para o grande público. Aqui, como em qualquer outra democracia, o arcebispo tem o direito de manifestar sua opinião -- e não concordando pode não querer que uma de suas paróquias seja palco das travessuras deste ou daquele capítulo.

05. É sempre bom ficar atento para ver como as coisas funcionam. Domingo, no Fantástico, a Globo mostrou, em reportagem, como são felizes as crianças que trabalham como atores em seus programas e novelas. Já sabia da portaria e tentou precaver-se junto à opinião pública. Porém, numa das tantas entrevistas, o autor deixou escapar um fato, no mínimo, revelador. Um dos gêmeos que fazem o filho da personagem Capitu se põe a chorar sempre que vê determinado ator. Na gravação de uma cena em que o tal ator discutia e ameaçava Capitu, o bebê assustou-se de verdade -- o que, aliás, é lógico e natural que aconteça -- e desde, então, não pode ver o homem. Ou seja, nem tudo são flores, maravilhas e cousa e lousa.

06. É isso. Vale ficar atento aos dois lados da moeda, sempre.

 
 
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