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Título: O rei do Pa-tro-pi e os jornais
Autor: Mônica Herculano - publicado em 17/10/2006
 

A influência da mídia na carreira de Wilson Simonal

Nascido numa quarta-feira de Cinzas, ainda em tempo de pegar o finzinho do Carnaval de 38, como o próprio narrou numa entrevista em 1967, Wilson Simonal de Castro parece mesmo ter chegado ao mundo ouvindo o som dos tamborins e vendo os passos da mulata. E com o gingado carioca que o recebeu, viveu e levou uma vida mais alegre a milhares de pessoas, que lotavam estádios repetindo seus refrões. Simonal venceu as barreiras da pobreza e transformou-se num dos artistas mais populares e bem pagos do Brasil.

No final da década de 60, em plena ditadura militar, época de fortes manifestações políticas e culturais e com o país tomado por um maniqueísmo desenfreado, ele era como um rei, acima de qualquer luta entre o bem e o mal. Ruy Castro contou em seu livro Chega de Saudade que, quando surgiu no Beco das Garrafas, Simonal “provocou uma sensação que é hoje indescritível e talvez inacreditável”. Ele definiu o cantor como “o máximo para seu tempo": grande voz, um senso de divisão igual ao dos melhores cantores americanos e uma capacidade de fazer gato e sapato do ritmo, sem se afastar da melodia ou sem apelar para os scats fáceis”.

Para o amigo César Camargo Mariano, Simonal tinha um talento singular. “Trabalhar com ele foi uma grande escola para todos nós. Fazia uma música pop, de boa penetração em todas as camadas sociais, leve, alegre e de uma qualidade absurda. O disco tinha o mesmo cuidado que era passado para o palco. Simonal sempre soube muito bem o que queria fazer e tinha um tino artístico e profissional muito forte.”

Tanto talento pedia um espaço nobre para ser apresentado. E qual seria melhor naqueles tempos do que as noites da TV Record? O primeiro negro a apresentar sozinho um programa de televisão no país pôde levar para o seu Show em Si...Monal os músicos e o diretor com quem mais se identificava: César Camargo Mariano, Sabá e Toninho, que formavam o Som 3, e Carlos Imperial. A convivência diária de Simonal, Imperial e Mariano fez surgir um estilo popular, mas novo e diferente de tudo o que estava acontecendo. Enquanto bossa nova, tropicália e artistas como Roberto Carlos dividiam a cena musical da época, o que estava “deixando cair” mesmo era a “pilantragem”.

E era apenas uma etapa da sensacional loucura causada pelo artista e descrita pelo jornalista Mylton Severiano na revista Realidade, em 1969. Contratado para fechar a parte inicial do show de Sérgio Mendes no Maracanãzinho, para uma platéia de 30 mil pessoas, Simonal acabou sendo a atração principal. Severiano contou: “Nunca se havia visto coisa igual. Por trás do palco, enquanto lá nas arquibancadas a multidão rugia e assobiava, exigindo mais Simonal, e enquanto ele mesmo era socorrido, após desmaiar de emoção, havia um sobressalto de homens agitados. ‘Isso só acontece uma vez na vida’, murmuravam.”

Mas aconteceram muitas outras. Simonal continuava comandando milhares de pessoas todas as noites no Canecão e em qualquer casa que se apresentasse, e ainda em 1969 assinou com a Shell o que o Jornal da Tarde noticiou como “o mais fabuloso contrato de publicidade já assinado no Brasil”.

Em 1970, o cantor foi escolhido para acompanhar a seleção brasileira de futebol à Copa do Mundo. A atuação dos maiores artistas das duas grandes especialidades brasileiras – música e futebol – foi vitoriosa: Simonal em campanha de sucesso e Brasil tricampeão. Na volta do México, porém, descobriu um grande desfalque em sua empresa de produções artísticas e despediu o contador, contratado cerca de um ano antes.

A partir daí, viu seu castelo desmoronar. Uma série de acusações feitas pelo ex-empregado e por alguns policiais levou o cantor a ser apontado como informante do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS). “Aquele ‘cara’ que todo mundo queria ser”, como descreveu o Jornal do Brasil em 1970, transformou-se em um grande rejeitado pela sociedade. Abolido da mídia, das vitrolas e dos palcos.

E o que o jornal tem a ver com isso? – Até hoje duas coisas não foram esclarecidas: o envolvimento ou não de Wilson Simonal com a polícia política da época e o tratamento que a imprensa deu a ele nos anos seguintes. Se até 1971 só se via elogios a ele nos jornais, a partir daí as notícias passaram a ser cada mais raras e negativas. Era como se o “dedo-duro” que o jornal O Pasquim publicou estivesse gravado na memória de cada um dos repórteres que iriam falar dele ou com ele.

Tomaram como verdade absoluta seu suposto envolvimento com o Serviço Nacional de Informação e nem após a anistia concedida a presos políticos e torturadores, voltaram a tratá-lo como o showman que, não havia dúvidas, ele era. O terror repreendido imposto pelo regime militar pode, como muitos alegam, ter levado os jornalistas do período a tomar Simonal como “bode expiatório”. Mas a imprensa errou em condenar sem provas. Também é bom lembrar que pode ter havido uma grande armação contra o cantor. Afinal, ninguém sabe dizer de onde vinham as pessoas que o acusaram e podiam estar perfeitamente, por intrigas pessoais, tentando derrubá-lo. Ninguém procurou investigar isso.

A verdade é que a vaidade e o gosto que Simonal tinha em falar do sucesso incomodavam. Para algumas pessoas podia causar mais transtorno do que admiração ver um negro vindo do morro chegar num restaurante fino, pagar a mais cara champagne para dezenas de pessoas, sentar com toda a pose e dizer, com o sorriso mais maroto, que iria fazer o lado direito da platéia cantar uma nota e o esquerdo cantar outra, e realmente fazê-lo.

Fato: não é de hoje que vemos pessoas famosas exibindo o que têm e o que não é seu também, poços de vaidade em ilhas de Caras. Por que tanto incômodo com um negro que desfilava em seu conversível com belas loiras de classe média-alta, desfrutando o sucesso que conseguiu? Seria diferente hoje em dia? Seria diferente se ele fosse branco?

A história envolve aspectos próprios da época, envolve política, mas o resgate da carreira de Wilson Simonal deve ser tratado com seriedade e urgência. Afinal, um rei nunca perde a majestade, e o brilhantismo de Simonal sempre permanecerá em nosso “Pa-tro-pi”.

 
 
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