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Título: Divertem-se, humilham e matam
Autor: Rodolfo C. Martino - publicado em 01/03/1997
 

01. Não se ouve outra coisa desde a noite de segunda-feira. As cenas da TV causaram indignação e revolta. Chocaram a opinião pública, espalharam-se pelo mundo, revelando a face mais cruel da miséria brasileira: a miséria do espírito. Os indivíduos de farda não estão ali, nos confins de Diadema, apenas para cumprir o honroso ofício de proteger à população da ação danosa de marginais. Na calada da noite, espancam, pilham, torturam sem alterar sequer o semblante. A violência insana faz parte da rotina de suas vidas. Divertem-se, humilham e matam. As pessoas de bom-senso se perguntam por quê? Não entendem. As vítimas assustadas não esboçam qualquer reação. Que prazer mórbido move essas criaturas? Não há necessidade para tamanho horror. Podia ser comigo -- concluem, temendo pelo pior. Estamos cada vez mais distantes da sociedade justa, igualitária, onde prevaleça a justiça social que tanto almejamos.

02. Fico a imaginar nossos homens públicos, sejam eles de que naipe for, sempre a nos prometer um futuro promissor. Dissertam sobre teses sociológicas, tratados internacionais, conquistas importantíssimas no âmbito social e científico e um novo imposto salvador. Falam e falam e falam. Cá, em nossa vidinha simplória, por vezes acreditamos, por vezes taxamos como pura balela e vamos levando do jeito que dá, do jeito que nos permitem. A bem da verdade, desconfiamos sempre. Afinal, os conhecemos bem, de outros carnavais. E sabemos que não são tudo isso, não. No entanto, quando vemos imagens como essas, concluímos que estamos ao mais desbragado desamparo, valendo-nos unicamente da fé em Deus.

03. O Governo FHC, aliás, tem se esmerado em espalhar ao mundo a imagem de um novo País, muito próximo do que se convencionou chamar de primeiro mundo. Fala em reeleição, em estabilização da moeda, no controle da inflação, em privatizar que agora é moda. Esconde o desemprego em massa, os problemas assistenciais e o caos social que tem na violência urbana, a cada dia mais avassaladora, a ponta de um iceberg de proporções inimagináveis.

04. Fico a imaginar, por exemplo, o governo francês, que há pouco esteve por aqui, falando em estreitar os laços comerciais com nossa "emergente" nação. O conceito "emergente" literalmente vai para o espaço, quando o mundo assiste perplexo imagens inconcebíveis à razão e bom-senso, imagens inquestionáveis, próprias aos implacáveis regimes autoritários. Trágicas, na verdade, porque revelam um País sem leis, sem ordem e sem governo.

05. Ainda nos anos 70, ouvi do jornalista Mino Carta o alerta para o beco sem saída que caminhava nossa sociedade, mercê de uma elite dominante absolutamente insensível às necessidades e anseios de nossa gente. Desde então, estaríamos a forjar uma legião de desvalidos, sem perspectiva de futuro, sem eira nem beira, que promoveria uma verdadeira guerrilha urbana, longe das ideologias, dos sonhos e de conceitos insofismáveis de justiça e fraternidade. Uma guerrilha sem bandeira, sem causa, que a todos iria atingir sem qualquer escrúpulo. Será que já não estamos vivendo esse caos social, preconizado pelo insigne jornalista. Enquanto isso, em Brasília, nossos políticos relutam em votar a reforma administrativa, pois negociam um teto salarial para o servidor público (onde, aliás, se incluem) superior a 10,8 mil reais. Acham pouco. Querem continuar acumulando salários, aposentadorias e outras benesses para continuar de olhos fechados para a realidade das ruas...

 
 
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